Domingo, Junho 18, 2006

Há montes de tempo que não venho aqui...

Terça-feira, Maio 11, 2004

Só para ver se os comentários funcionam ou não.

Sábado, Abril 26, 2003


E pronto, finito! Acabei de postar o último capítulo do livro "A Fada dos Sonhos"!




66

O último e o mais belo dia de Outono foi o escolhido para a partida das andorinhas. Tinham-na adiado muito para além do costume por causa do apego do filho à tartaruga voadora. Mas era impossível adiar mais. Com a chegada do Inverno não sobreviveriam. A pobre da tartaruga entrou em depressão. Pairava junto à janela da sala, fixando o olhar vítreo nos ninhos vazios. Recusava a comida, ignorando a insistência da família. Nem os morangos que Jaime lhe ofereceu a tentaram. Emagreceu. Parecia ser só carapaça, uma concha vazia. Resolveram de novo requisitar os serviços do veterinário. Com a genica de um atleta dopado, de barbas compridas até aos joelhos, receitou comprimidos que a tartaruga não chegou a tomar, numa atitude de indiferença ao mundo. A família desesperava ao vê-la prostrando-se, pairando, perto da janela, com um eterno olhar fixo sobre os ninhos desertos, local que se recusava a abandonar. Nia apelou à Fadinha. A Fada dos Sonhos, altas horas da noite, todos dormiam, foi ter com ela e bichanou-lhe algum mistério ao ouvido. No dia seguinte encontraram-na a enfardar no frigorífico. Ao ver a gente da casa desperta saudou-a com um arroto olímpico e sentou-se no chão. Não podia com o peso, estourava de comida. Verificaram que ela limpara o frigorífico. Saíram de casa de barriga vazia, mas felicíssimos pela arribação da tartaruga.

Quando Dionísia interrogou a Fadinha acerca do tal mistério sussurrado, o responsável pela modificação do seu comportamento anoréxico, ela replicou que se tinha limitado a relembrar o hábito das andorinhas nidificarem sempre no mesmo sítio. Recordou à tartaruga que bastava esperar até à Primavera para as rever.
A poucos dias do fim do primeiro período Nia recebeu uma carta do senhor Figueira convidando-a, bem como ao resto da família, para um passeio no veleiro adquirido recentemente. Além disso também desejava apresentar-lhes Laura, a sua noiva.
No primeiro Domingo das férias do Natal partiram em direcção à marina. Os pais foram de carro, mas ela e Jaime resolveram ir num transporte menos convencional: a tartaruga.

Jaime, já os pais se encontravam prestes a sair, cochichou algo à tartaruga e ela largou a voar, disparada pela janela, com ele agarrado à carapaça. A irmã, sem se pôr com muitas considerações, deu uma corrida e lançou-se para eles, conseguindo apanhar o irmão pelas pernas. Jaime fez umas acrobacias acabando por sentar-se na carapaça da tartaruga, e logo de seguida foi imitado por Dionísia. A tartaruga voadora não dava mostras de se incomodar com o peso. Seguia, conhecedora, o caminho para o barco do senhor Figueira, apesar de nunca lá ter estado. Os dois bípedes que carregava às costas deliciavam-se sentindo a brisa no rosto e olhando de cima o mundo que, daquele ponto de vista, parecia minúsculo e carecer de importância. Os pais, a estourar de preocupação, seguiam a trupe voadora de carro, lançando olhares de consternação para o alto, com o ridículo medo que, de repente e sem aviso, faltasse combustível à tartaruga.

Ao avistarem o veleiro do antigo vizinho da frente, que todos reconheceram à primeira, como que telepaticamente sintonizados, apesar de nunca o terem visto antes, Jaime pôs-se a ensaiar cabriolas no topo da carapaça com a intenção de ser o primeiro a pisar o barco. Mal aterrou seguiu-se a estreia de Dionísia, seguida da tartaruga. O carro dos pais alcançou o veleiro instantes depois e eles apearam-se, a jorrar de impaciência, dando uma descasca aos filhos pelo perigo que tinham passado ao armarem uma mariola daquelas! Se tinha algum jeito! No entanto Laura de imediato os acalmou e a sua natural simpatia fê-los esquecer o incidente.
Era mesmo bonita, simpática e divertida. E afectuosa. Quando Alfredo saiu do interior do barco saudou-o com um beijo. Ele, por seu turno, cumprimentou toda a gente com grande espalhafato. O tom dourado da pele e os músculos a sobressaíram da roupa denunciavam o trabalho árduo de pescador. Contudo a dureza do ofício dera-lhe uma felicidade e confiança intensas. Se soubesse que iria sentir-se tão bem há muito que teria deixado de ser funcionário público!, confessou.
Feitas as apresentações da praxe, Jaime, não suportando a formalidade de tudo, perguntou intempestivamente pela tal da «garota», a amiga do senhor Figueira.
Dionísia foi a única a captar o olhar cúmplice que ele e Laura trocaram.
- Já não mora aqui, está com a família - respondeu ele.
E logo a seguir Laura acrescentou, piscando o olho a Dionísia, sem que mais ninguém visse:

- Mas de vez em quando vem fazer-nos uma visitinha...
Ela sabia! Ela conhecia a existência da Fada dos Sonhos!
Entretanto os dois começaram a cirandar pelo barco, atarefados em manobras de desembarque. Rumaram ao mar alto. A água e o céu semelhavam uma magnífica implosão de azul. Enquanto o senhor Figueira tinha o leme, Laura afagava a tartaruga que planara até junto de si. Contou que ambos planeavam dar a volta ao mundo, logo depois do casamento.
- E quanto tempo vão demorar? Um ano? - interrogou Jaime.
- Oh, mais! Muito mais! - respondeu ela.
- Mandem-nos postais, já que vão atracar em tantas partes diferentes do globo - pediu Nia.
- Claro! - volveu Laura. - Só com os nossos inicias uma colecção!
- Eh, a mim também! - exigiu Jaime.
- Aos dois. Prometo. Prometemos.

Nia notou então que o mar se despojara da terra e por todos os lados a água imperava, rainha suprema. O mar estava calmo e sem ondulação. O brilho do sol matizava as suas cores, tornando-o resplandecente. Parecia-lhe que os dois azuis, do céu e do oceano, se entrelaçavam num única entidade divina. E viva. Maravilhosamente viva, desperta. Compreendeu o amor, o respeito, a necessidade física de o ter perto de si sentidos pelo senhor Figueira. Compreendeu não só a precisão que o homem tinha pelo mar, mas também o contrário. Observou o sol de frente, encarou-o como que a desafiá-lo, a enfrentá-lo. Não se roubam mistérios, percebeu; partilham-se. Com outras pessoas, como o senhor Figueira fazia com Laura (e vice-versa), ou com as próprias coisas amadas. Com os mistérios eles mesmos. Dionísia achava a resposta encarando o astro-rei sem ousar desviar a vista, com medo de a perder para sempre. A resposta era a partilha...do quê?
Do sonho. Com alguém.

- Nia! Que fazes, rapariga?! Olha que o sol ainda te faz mal! Toma, põe o chapéu. Não resmungues, põe o chapéu, já disse.
- Sim, mãe - refilou, mas lá o pôs.
- Tu também, Jaime.
De regresso ao cais Dionísia sentiu que o mar, infinito em sabedoria, os libertava e os devolvia à terra. Num lampejo compreendeu outra coisa: a liberdade. Não, era mais do que isso: a não-posse. Não possuindo possui-se tudo!
Só se podia dar, partilhar com outrem, aquilo que não se agarrava à força! Compreendia!
- Então está combinado - disse o senhor Figueira ao pai e à mãe. - No dia de Natal é o nosso casamento. Vai ser celebrado aqui no barco. Vocês estão todos convidados! Não se esqueçam! Se um só faltar a festa fica arruinada!
- Está combinado. No dia de Natal cá estaremos - assegurou o pai.
- E...- murmurou Laura à socapa a Dionísia - talvez a nossa amiguinha dê por cá uma saltada...
Ela riu-se e despediu-se com um abraço forte.

Quando colocaram a tartaruga no assento de trás do carro, pois adormecera, Nia sentia-se cada vez mais perto da descoberta.
Acenaram, à medida que o carro se afastava, uma última despedida ao casal de navegadores.
Ao entrar na auto-estrada Jaime e a mãe, tomados por súbita sonolência, caíram num sono profundo. O pai não notou, com a atenção virada para estrada, guiando como um autómato.
De repente Nia ouviu um:
- Psst! Psst! Oh, não me ouves?!
Esbugalhou os olhos, incrédula. Mas seria possível?! Ali, no meio do carro, com a família pertíssimo! Nunca mais aprendia! Procurou a fada e descobriu-a em cima da carapaça da tartaruga que repousava aos seus pés.
Observou de relance o pai constatando que ele continuava com os olhos pregados à estrada, impassível.
- Mas...endoideceste?! O meu pai pode escutar-te! Ou a mim! - sussurrou.
- Não pode nada!
- Ele está esquisito. Foste tu?
- Sim. Um pequeno feitiço que Barnabé me ofereceu. Utilizo-o de vez em quando. Não tenhas medo, não há problema algum. E o Jaime e a tua mãe também não vão acordar.
- Uff...que alívio...- mirou-os bem para se certificar que eles não se apercebiam de nada. Depois perguntou-lhe o que fazia ali.
- Vim contigo.
- Porque não apareceste no barco?
- Oh, era uma visita especial que fazias ao Alfredo. Não me ia intrometer.
- Não te intrometerias - relanceou novo olhar pela família. Estavam imersos em sono impenetrável, à excepção do pai que semelhava um robot a conduzir. - Gostei muita da Laura, ela é simpática.
- Eu sei! Como é aquela palavra que vocês inventaram? Ah: fixe! Ela é fixe!
Dionísia sorriu. Mas de imediato o semblante entristeceu. Após meditar uns segundos disse:
- Fada...tenho pensado muito nisto nos últimos tempos. Eu quero descobrir o meu sonho, esforço-me para isso, quero saber qual é, mas não consigo. Ainda não sei. É como tu dizes, é como se ele estivesse no meu interior e eu é que não sei procurar.
- Não desistas, Nia! Nunca, nunca, nunca desistas! Nunca desistas de ti mesma!
- Se o fizesse tu ajudavas-me logo, não era?
- Oh, claro! Claro! Depois de um bom puxão de orelhas!
Riram-se ambas.

- O problema...- continuou - o problema é que tenho medo. Depois de saber qual é, depois de finalmente descobrir o meu sonho e depois de o cumprir (se for capaz...)
A Fadinha interrompeu-a logo:
- Vais cumpri-lo! Oh, eu sou uma profissional competente!
- Bem, o que eu quero dizer é que...depois, depois de tudo isso...tu partes. Vais-te embora e eu nunca mais te vejo. Nunca mais.
A Fadinha esvoaçou até perto do seu rosto e disse docemente:
- Sim, eu já calculava que era isso que receavas. Li-o no teu padrão. Nia, ouve bem e entende-me: não te irei deixar nunca. Mesmo que não me vejas estarei sempre contigo, dentro de ti. Viajo no interior dos teus sonhos. Depois de tudo isso eu não te abandonarei. Acreditas em mim?
- Sim, acredito.
A Fadinha, então, pôs-se a girar em redor da sua cabeça a grande velocidade, rindo-se tanto que o riso contagiou Dionísia, anulando-lhe a fronte carregada. Saiu pelo tecto do carro e reapareceu do lado de fora do vidro da frente. O pai não reparou nela. Num ápice eclipsou-se.
Nesse exacto momento Jaime despertou e interrogou a irmã:
- Esquisito...ouvi um zumbido. Ouviste alguma coisa?
- Eu...? Eu não. Deves ter sonhado. Vai, volta a dormir.
Ele obedeceu-lhe.
Pouco depois regressaram a casa. A tartaruga foi levada para a sala e ela, suavemente, subiu até ao tecto, ferrada a dormir. Começara a hibernar. Ninguém se preocupou. Sabiam que na Primavera, ao primeiro chilrear das andorinhas, acordaria.
Jaime e os pais recolheram-se também, exaustos.
Nia dirigiu-se para o seu quarto e suspirou profundamente. Viu a estante mágica, mas não teve vontade de pedir um livro. Ao invés descerrou a janela e pôs-se a mirar as estrelas do céu.
Será que elas lhe devolviam o olhar?, perguntava-se.
No instante em que finalizou a pergunta a revelação iniciada nessa manhã completou-se.
O seu futuro, percebeu em relampejos clarividentes, residia nas estrelas.
Nas estrelas...
Ergueu o braço e apontou uma. Disse, convicta:
- Aquela é a Altair.

Nunca ninguém lhe tinha ensinado ou sequer lera num livro o nome de qualquer estrela.


F I M









Quinta-feira, Abril 24, 2003

Falta só mais um capítulo para o livro acabar. Sei que o devia corrigir, mas 'tou com preguiça...

65

A resposta não tardou. Na carta Dionísia descobriu uma fotografia de um homem cada vez mais distante, mil vezes!, mil anos sumido!, do vizinho que conhecera. Exibia um sorriso largo e puro e o corpo estava bronzeado e musculado. Abraçava uma mulher linda, morena, dos seus trinta anos, cujo nome era Laura. A namorada. O senhor Figueira confidenciou não possuir ainda o dinheiro todo, mas estava perto. Pouco faltava. Provavelmente ainda antes do Natal compraria o veleiro almejado, a fonte de todos os seus desejos.
Pela primeira vez Dionísia notou não fazer referência à Fadinha. Por onde andaria? Ainda estaria com Barnabé? Desde o último encontro haviam-se passado vários meses e não tivera notícias suas desde então. Mas a mãe costumava sentenciar que a falta de notícias eram boas notícias, portanto tratou de expulsar os receios de si, confiando que a demora explicar-se-ia por um período longo de recuperação da Fada dos Sonhos. Nada mais do que isso.
Entretanto recomeçaram as aulas e Nia apanhou não só a surpresa, mas também o susto da sua vida.
O professor de matemática era o Edgar, reaparecido não se sabia de que profundezas do universo. Certos boatos afirmavam que após a Amazónia teria partido para Marte, numa missão exploratória ultra secreta da NASA, mas era impossível confirmar os rumores.
Fosse como fosse, ali estava ele, com uma caterva de livros empilhados sobre a mesa.
Para mal dos seus pecados e os dos seus colegas, Edgar tinha a irritante mania de os querer ensinar à força toda. Todos os dias os enterrava em trabalhos de casa, que trazia corrigidos no dia a seguir - sem falta. E isto nas cinco turmas em que leccionava. Todos os dias Dionísia se emaranhava em equações, fracções, problemas e uma infinidade de trapalhadas que nem Einstein entenderia. Não aguentando mais o esforço, sem tempo para se ocupar de outras actividades, como ler, queixou-se aos pais. Queixou-se do tratamento esclavagista que ele impunha aos alunos.
Os pais não se manifestaram. Continuaram calmamente sentados à mesa, a comer. Um silêncio do tamanho do mundo imperou na sala de jantar, ocasionalmente interrompido pelo sorver da sopa. Por alturas da sobremesa finalmente disseram:
- Até que enfim que tens um professor decente e que até se dá ao trabalho de vos ensinar! Tu queixas-te, queixas-te, mas a verdade é que já não tens tantos problemas com a matemática. Estávamos a pensar num explicador para ti este ano, mas depois de falarmos com o Edgar pusemos a ideia de parte. Não vale a pena, não precisas. Tens um professor que se preocupa com cada um de vocês. Mais tarde vais agradecer-lhe todo o trabalho que teve convosco. Vais ver.
E deram por concluída a sua opinião na matéria.

Nia encarava-os estupefacta. Mas seria possível?! Os seus próprios pais! Levantou-se da mesa com brusquidão, assustando a tartaruga que Jaime alimentava dissimuladamente, e foi para o quarto, batendo a porta com força. Estava furiosa! Nem sequer os pais entendiam as amarguraa que eles, pobres coitados alunos, passavam às mãos do tritura-mentes.
Dionísia palmilhava a alcatifa de um lado ao outro do quarto, cheia de raiva. Desejou com intensidade a presença consoladora da Fada dos Sonhos. Ao menos ela entenderia, pensava, dando suspiros de resignação. Deitou-se na cama e fechou os olhos. Ouviu um barulho. Seriam os pais? Se viessem para lhe pedir desculpa pela frieza demonstrada há pouco bem que podiam tirar o cavalinho da chuva! Cerrou os olhos com mais força. Até que um suave e delicado sibilar os fez abrir.
- Oh! Nia! Os números são fabulosos! São flores e sons e melodias incandescentes! São música dentro de música! São espirais de beleza e florestas de cores incontáveis! São o próprio Universo!
A Fadinha rodopiava em fervorosos redemoinhos pelo tecto, pelas paredes, pelos móveis.
- Estou tão contente por estares aqui! - disse Nia, exultante. - Mas...como é que sabias que eu estava a ter problemas com a matemática? Esse tipo de detalhes não te é fornecido pelo meu padrão...
- Oh! Calculei logo! Quando as coisas não te correm bem com algarismos é sempre a mesma a área afectada. Por isso vim ter contigo!

- Ainda bem! Nem imaginas as saudades que tive de ti! Mas não concordo com isso de «florestas incandescentes e flores e canções». Se queres saber a matemática é uma estopada!
- Oh! Não digas isso! Eu mostro-te que não é.
De repente, sem aviso, materializaram-se números no quarto, voando sem asas em redor de ambas. Depois juntaram-se uns aos outros, derretendo e voltando a materializar-se, mas diferentes. Um 3 e um 7 entrelaçaram-se e evaporaram devagar, para logo a seguir reaparecerem transformados no número 21. Este, por seu turno, tornou a desaparecer e corporalizou-se devagarinho no número 42. Ante os seus olhos Nia viu desenrolar-se a dança dos algarismos, enchendo o quarto como borboletas brilhantes. De repente alguns abandonaram a dança, dirigiram-se a ela, pegando-a pelos braços e pernas e depois giraram-na a alta velocidade. Sentia-se no carrossel! Os números, então, cessaram o baile e pousaram-na docemente sobre a cama, indo em seguida juntar-se aos outros numa roda. Dionísia adormeceu de imediato e sonhou com números.
O dia seguinte era o de teste de matemática. O terceiro e último daquela semana. Todas as malditas semanas tinham três testes, por obra e graça do professor Edgar. Para espanto seu tirou cem por cento, a nota mais alta de sempre e em todas as turmas. E tudo por causa da Fadinha! Se não tivesse sido ela...Quando a foi visitar, dois dias após o bailarico numérico, agradeceu-lhe. E aproveitou para perguntar se acompanhava ainda o senhor Figueira.

- Não.
- Então por onde andaste todo este tempo? Em casa do Barnabé?
- Sim, mas depois fui para minha dimensão, o meu lar! Oh, tive tantas saudades das minhas irmãs!
Dionísia inquietou-se:
- E elas castigaram-te? Ralharam-te ou fizeram-te alguma coisa?
- Não! Como nada do que se passou comigo lhes colocou, desta vez, a segurança em perigo apenas fingiram não saber de nada! Mas sabem tudo. No entanto penso que consideram que negar-me de novo o prazer de visitar a dimensão humana seria um castigo exagerado e despropositado.
- Ah... ainda bem - suspirou Nia. - Livra...já receava nunca mais te ver.
- Não tenhas medo! Não existe a menor possibilidade disso acontecer.
- Ainda bem... uff. - Fez uma pausa e inquiriu. - Disseste que já não acompanhas o Alfredo. Porquê?
- Já não precisa de mim. Encontrou finalmente o caminho dos sonhos. E dele ninguém o desviará. Já é capaz de enfrentar os obstáculos sozinho!

- Ah... tô a entender... mas como é que sabes isso?
- Ora! Pelo padrão! Está sintonizado para a harmonia e equilibra-se sem o meu auxílio.
- Que giro!...Por falar em padrão: e o do Edgar? Já voltou?
A Fadinha então pôs uma cara triste e acenou negativamente.
- Não? - disse Nia. - Peraí...se o Edgar não tem padrão nenhum, nem de sonhos nem de nada, porque é que ele me está a dar aulas?! Não será perigoso? Afinal tu própria me disseste que não existe ser humano à face da terra sem padrão!
- É verdade. Excepto Edgar. Não sei se é perigoso. É difícil afirmá-lo porque não estou segura disso. No entanto Barnabé assegurou-se que a única intenção dele é aprender tudo o que há para aprender e, depois, ensinar tudo o que há para ensinar.
- Estou feita!
- Ele é teu professor. Não desanimes. Aproveita a sua sabedoria, aproveita os ensinamentos que te pode transmitir. São dádivas preciosas e que, talvez, um dia, te ajudem a clarificar o caminho ainda obscuro dos teus próprios sonhos...
Dionísia desceu os olhos, esteve calada por momentos e, em seguida, afirmou em voz baixa e insegura:
- Ainda não descobri qual é o meu sonho...
Recordou Beta, felicíssima a criar e reinventar vestuário; recordou o senhor Figueira, alguém que antes a atemorizara e que considerava agora um dos seus maiores amigos; recordou Ruben, levado da breca, que ficava um anjinho à vista de caquinhos desconexos de remotas épocas históricas e lembrou-se até de Jaime, que ultimamente acompanhava o camarada nas escavações. Parecia que todos tinham não só descoberto o sonho que albergavam dentro de si - mas que iam também ao encontro dele. Todos, mesmo os mais desatinados, os destravados da mioleira - todos eles sabiam o que queriam da vida, conheciam o que desejavam. Menos ela, Dionísia. «O que é que eu quero?», cogitava no interior de si, perguntando à alma quem era e a alma não lhe dava resposta. Ou será que dava e era ela que não sabia escutar? «Quem sou eu?», perguntava-se. «Qual o meu sonho?», interrogava-se. A resposta não chegava.
A Fadinha abeirou-se dela e docemente zumbiu:
- Oh! tu sabes! Tu sabes! Está aí: dentro do teu coração, aninhado. O sonho não é algo que se procure fora de nós, no exterior. Pelo contrário - está dentro de nós, no coração, na alma, no espírito. Por vezes ainda a dormir, mas cedo ou tarde despertará. Cedo ou tarde descobrirás o teu sonho querido. Só tens de puxar as fitas, uma a uma, devagarinho, até se formar o quadro completo do que albergas no interior do teu ser.
- Mas eu não sei! Eu não sei! - disse Nia, tremendo.
- Tu sabes! O que ainda não sabes é que sempre o soubeste! Não tenhas medo. Estou contigo. O importante mesmo é não desistir Nunca!
Depois rodopiou à volta dela, desenhando no espaço uma mancha azul indistinta e zumbiu-lhe a despedida. «Até breve!», disse, desaparecendo logo de seguida como uma bola de sabão que rebenta.

Domingo, Abril 20, 2003


64


Enquanto segurava o irmão por uma canela Barnabé explicou que a essência de dona Albertina era semelhante à de uma jóia preciosa não laminada. Uma essência de valor inestimável que ela sempre transportara em si, embora fosse necessário dar-lhe forma para que brilhasse inteiramente. No fundo dona Albertina era como uma guitarra. Sozinha não fazia música, precisava de alguém que tangesse as cordas e desse modo libertasse a melodia. Foi o que Barnabé fez. Mas, na verdade, acrescentou ele, a canção sempre estivera presente - à espera de nascer. Ele limitara-se a tocar na corda certa.
- A sua extraordinária capacidade de fabricar pão que põe as pessoas, contentes da vida, a voar - compreendeu Nia.
Barnabé aquiesceu enquanto fazia brotar do pulso correntes que o prendessem com maior firmeza ao pé de Malazon.
A fada, passado o perigo, sentia-se abatida e débil. Barnabé iria levá-la para sua casa para recobrar forças. Não podia regressar à sua própria dimensão naquele estado deplorável. As irmãs adivinhariam logo o que se passara e o mais certo era porem-na novamente de castigo. Se o fizessem Dionísia nunca mais a veria. Portanto para evitar tudo isso iria repousar em casa de Barnabé até se restabelecer.
- E Malazon? - interrogou Nia. - Vai precisar de muito pão para o manter quietinho uma larga temporada! Olhe que satisfeito que ele está! Parece um anjinho: que transformação!
- Podes ficar descansada. Garanto que nunca mais te vai incomodar. Nem a ti nem a ninguém. Mas agora é melhor ires ter com a tua família. Estão à tua espera.
Dionísia arregalou os olhos e exclamou:
- É verdade! Já me esquecia! Devem estar à seca há horas!
- Não - argumentou o feiticeiro. - Malazon transportou-nos para outra dimensão e foi aí que teve lugar a batalha. Voltámos há minutos, não notaste?
Ela olhou em redor e só então reparou que se encontrava na rua deserta, liberta já da névoa cinzenta.
Despediu-se do feiticeiro e da fada, indo ao encontro da família.
De repente lembrou-se: o pão! Não o tinha! O que iria dizer ao pai?



- Não viste o pão em lado nenhum? - o pai encarava-a estupefacto. - Mas...mas procuraste bem, em todo o lado?
- Sim, pai. Até em cima do guarda-fatos.
- Mas...mas...
- Ó homem, deixa lá isso! Então tu tens pão de graça sempre que quiseres! Não foi o que disse a dona Albertina?
- Sim, foi, mas...mas...
- Ó homem, não podes passar sem o pão durante dois dias?! - persistia a mãe. Até que Dionísia não se conteve e abraçou-a com muita força. - Mas, Nia?! O que é que tu tens?
- Nada mãe, é só para te dizer que gosto muito de ti - ela estranhou, mas alegrou-se com a inesperada explosão de afecto.
- Eu...eu também, filha. Também gosto muito de ti - e retribuiu o abraço. De seguida Nia virou-se para o pai e abraçou-o igualmente, não fosse ele ficar com ciúmes.
- Gosto muito de ti, paizinho.
- Ahn...eu também, filha, eu também...mas...tens certeza de que viste em todo o lado?
- Sim...- descobriu Jaime pelo canto do olho, muito desconfiado com aqueles enleios todos. Não pôde conter-se e deu-lhe um chi-coração.
- Pára! Pareces parva! Deixa-me! Não me beijes, ainda por cima! Estás doente ou quê?!
- Adoro-te irmãozinho!!! Muito!
- Larga-me!! Bolas, logo tinha de ter uma irmã! Vocês, raparigas, são tão parvas!
- Mas...Nia, explica-me lá isso outra vez: não viste o pão em lado nenhum?
- E ele a dar-lhe! Ó homem, vamos é lá embora, que a tua mãe está à nossa espera! Livra, que não se cala com o raio do pão! Quando chegarmos à terra descansa que vais ter pão com fartura!
- Sim, contudo não é o mesmo!
- Guia mas é!
E seguiram para a casa da avó.

Permaneceram três dias, findos os quais a fala voltou ao normal. Regressaram a casa e encontraram o resto da população com a situação igualmente normalizada. Apenas dona Gertrudes tinha por vezes recaídas e desatava a falar ao contrário, mas aquilo ao fim de umas horas voltava ao lugar.
Entretanto a escola terminou e vieram as férias.
Dionísia e Beta andaram o mês de Julho juntas, fazendo, por insistência da última, a rota dos centros comerciais. Beta deleitava-se a experimentar roupa, perfumes, cremes, acessórios e bijutaria. Nia, mais que farta, instou para que fizessem outra coisa. A medo sugeriu visitarem um lugar muito de acordo com a personalidade da amiga.
- Que lugar? - perguntou, enquanto revolvia nas mãos um chapéu.
- O museu...
Beta nem a deixou terminar.
- Tu ‘tás doida?! Depois do último? Aquele saracoteio desatinado dos quadros?! Nem pensar!
- ...do Traje - finalizou. E esperou pelo clique.
- Traje? - abandonou, num ápice, o chapéu.
- Sim, ali no paço do Lumiar.

Sem mais Beta arrastou-a pela mão até à paragem. Meia hora depois chegaram ao destino.
Extasiada perante a variedade de vestuário de épocas remotas, percorreu as galerias como um eremita em santa peregrinação. Numa delas descobriram uma mulher copiando para um bloco um dos vestidos expostos. Acercaram-se dela. Tinha um fato negro que não dava para ver bem se eram calças ou um vestido. Fosse o que fosse contrastava com o longo cabelo ruivo, desenhando na franja um bico. Era linda. E simpática. Mal as viu sorriu-lhes. Beta nunca tinha conhecido ninguém assim. Pelo canto do olho tentou, disfarçadamente, espiar o que a mulher desenhava. Ela, notando o gesto, pôs o esboço bem à vista e perguntou-lhe a opinião.
- A...minha...a minha opinião? - questionou Beta, surpreendida. Geralmente ninguém lhe pedia opiniões para nada. Principalmente os adultos.
- Sim. Diz-me o que pensas - e no seu rosto não havia sombra de hipocrisia nem de mentira. Espelhava a sinceridade pura.
- Bom...para dizer a verdade...acho que devia ser mais curto de um dos lados. Que tecido planeia usar na confecção?
- Veludo.
- É muito pesado. Seria melhor seda.
A mulher remirou o esboço uma única vez e concordou com as sugestões.
- Quer-me parecer que tens jeito para isto! Eu sou estilista. Tu gostas de moda?
A resposta encalhou na garganta de Beta tal a felicidade. Se gostava?! Adorava! Idolatrava!
A estilista então convidou-a para trabalhar consigo durante as férias, claro que precisaria da aprovação dos pais.
E eles deram-na.
Rodeada de panos e tecidos exóticos, de cores e feitios diversos, Beta sentia-se nas suas setes quintas trabalhando no atelier da estilista. Para ela era o Paraíso. Fazia recados, ajudava no que era preciso e não raras vezes a chamavam para dizer de sua justiça em determinado modelo, o que achava, que acessórios seriam os mais apropriados.
Por coincidência essa época coincidiu na exactidão com o tempo em que a conta bancária do pai tinha mais dinheiro.
Dionísia, por seu turno, partiu no mês de Agosto com a família para o Algarve. Levaram a tartaruga, mas ela, mal o carro parou, saiu logo a voar na direcção de casa para ir ter com o afilhado.
Não era capaz de ficar nem um minuto separada dele.

Em Setembro regressaram ao lar. Os pais retomaram o trabalho e Dionísia e Jaime ficaram ainda com duas semanas inteirinhas de férias.
Jaime passou-as em confraternização com Ruben. Após o despertar milagroso da tartaruga provocado por este, meses atrás, a fugaz animosidade que lhe votara eclipsou-se. Mas se as ameaças ditas no calor da raiva foram escorraçadas da mente quando presenciou o despertar da tartaruga voadora, o que na verdade provocou a aproximação foi o facto de Jaime ter visto a tartaruga ir ter com Ruben - por sua iniciativa. E permitir que ele lhe fizesse festas. Soube depois que durante o período de férias Ruben tinha feito as vezes de guardião, tarefa que incumbia a Jaime. Estando ele fora já nada impedia que os miúdos da rua se metessem de novo ao barulho com a tartaruga. Mas Ruben sacava da fisga e punha a malta desrespeitadora à distância.
A irmã utilizou o tempo de férias que lhe restava indo visitar a prima Cristina na geladaria do tio, ouvindo os seus sábios conselhos sobre a Bolsa e as acções que estavam em alta. Encontrava-se, noutras alturas, com Beta, que passava muito do seu tempo no museu do Traje - a desenhar. Beta descobrira, recentemente, ter talento para o desenho. No museu passava horas esquecidas a recolher informação nos espólios (aos quais tinha acesso através da estilista, que conhecia a directora do museu), onde era guardado o vestuário que já tinha sido mostrado ao público bem como aquele que ainda não tivera a oportunidade de ser exibido. Copiava e modificava o traçado original, recriando-o, fazendo uso de um génio, um dom ignorado - mas que sempre existira, enterrado no fundo de si mesma.
«Tal e qual a dona Albertina», pensou Nia, orgulhosa pela amiga. E a lembrança da padeira levou-a à recordação do antigo vizinho da frente, outrora funcionário público e presentemente pescador e artista conceituado, emergente na cena ibérica. Não tinha notícias dele há meses. Era tempo de corrigi-lo.
Decidiu escrever-lhe.

Sexta-feira, Abril 18, 2003

63


Reposta a precária harmonia da vivência quotidiana, precária porque tinha os dias contados, Dionísia ía distraindo o pensamento de Malazon evocando o fim da escola, para daí a duas semanas. Faltavam-lhe uns quantos testes, que não a preocupavam. Entretia a mente ansiando pelas férias que os pais tinham programado serem passadas em Algarve, no mês de Agosto.
Ultimamente a rua amodorrava em inabitual monotonia. Nada de estranho ou anormal sucedera desde o último encontro com o pérfido feiticeiro no jardim zoológico.
Até que...
Há sempre um até que...

Um dia, inexplicavelmente, uma vizinha, a dona Efigénia, estava ela na mercearia a comprar fruta e massa e arroz quando começou, sem aviso prévio, a falar numa língua estrangeira. Ninguém a entendia. Nem ela. Quer dizer, ela percebia o sentido do que estava a dizer, não compreendia era como aquilo acontecera. Mais tarde soube-se que falava a língua de toda a gente - só que ao contrário. E apenas percebia as pessoas quando estas lhe respondiam ao contrário. Assim, para a chamarem não podiam dizer: dona Efigénia, ó dona Efigénia, então como vai a senhora? Nem por sombras. Ela não perceberia patavina do discurso. Tinham de dizer: anod Ainégifi. Afortunadamente eram só as palavras que se diziam do avesso e não a narrativa inteira.

Certa altura, estavam Dionísia e a mãe a comentar o estranho acontecimento no café, quando uma vizinha que conversava com elas começou também a comportar-se da mesma forma bizarra. A senhora abria muito os olhos e a boca, estupefacta, depois colocava a mão sobre o rosto numa infrutífera tentativa de impedir o prosseguimento do fenómeno, mas era impossível. O resto dos clientes, dando-se conta do facto, desandaram dali para fora o mais rápido que conseguiram, não fosse a maleita pegar-se. A mãe considerou o comportamento deles uma parvoíce, um vírus do faló-contrário, que estupidez!, e fincou pé na mesa a consolar a dona Gertrudes, coitada, desfeita em lágrimas, e que a partir dessa altura só atendia por Sedurtreg.

O facto é que o incompreensível fenómeno se espalhou ao resto da população da rua, residentes ou não, incluindo arqueólogos. Ao fim de um certo tempo apenas passar na rua se tornava perigoso porque de um momento para o outro se podia começar a falar às avessas. Mas aí o problema era menor porque toda a gente já se compreendia, a chatice era fora da rua. Principalmente nos empregos. Os patrões julgavam tratar-se de um embuste, uma partida de mau gosto. Os colegas partilhavam a opinião dos chefes, considerando ser uma brincadeira, mas fartavam-se de rir, incentivando os colegas com palmadinhas nas costas e sorrisos de orelha a orelha, porque alguém estava a lixar o patrão e era muito bem feito e tinha imensa graça e ainda bem que não eram eles os paspalhos que iam para o olho da rua. Nos comboios, camionetas, autocarros, metro, a história repetia-se. Os fiscais pediam o bilhete aos atingidos pelo vírus do faló-contrário e estes não percebendo a questão perguntavam, na estranha língua, o que desejavam. Às tantas os fiscais danavam-se e ficavam prestes a levarem-nos à polícia. Mas então os passageiros esquisitos retiravam um papelinho do bolso explicando a situação. Os fiscais riam-se e perguntavam-lhes a seguir se por acaso os achavam com caras de parvo. Ao que estes respondiam: õan, õan rohnes, õan ohca. Que significava: não, não senhor, não acho. Mas eles não percebiam nicles e, perdendo a paciência, pegavam-lhes pelos colarinhos e conduziam-nos à esquadra. E a esquadra lá confirmava a veracidade da história. Para dizer a verdade, a esquadra já estava mais do que farta de o fazer. Ultimamente era um entupir do mesmo tipo de casos que não havia tempo para resolver outros. A esquadra e respectivos polícias já andavam a trepar paredes. Então os fiscais lá largavam os indivíduos, depois puxavam muito para baixo o uniforme amarrotado, observando de esguelha os óbvios delinquentes, tão óbvios que só os polícias eram tão burros que não viam, e voltavam às funções, desviando-se do caminho de outro homem irado que acabava de entrar segurando alguém pelo colarinho, reclamando que o tipo se recusava a pagar a conta do restaurante e ainda tinha a refinadíssima lata de «fingir que não falava língua de gente».
As coisas, como se depreende, não andaram lá muito famosas durante uns tempos. Quer dizer, andaram famosas, mas ninguém gostava do tipo de fama.

O episódio durou tanto que a mesma equipa de cientistas que investigara o caso da neve inderretível resolveu entrar em acção.
E acabou por entrar pelo cano. Ao fim de poucas horas entrevistando e recolhendo todo o género de informação pertinente, começaram também a falar do avesso. No entanto o facto foi vantajoso porque assim percebiam a fala dos habitantes e podiam recolher toda a informação num curto espaço de tempo. Bom, a recolha foi feita, mas não se chegou a qualquer conclusão. Desanimados, arrastando os pés, pegaram no equipamento e partiram.
Dois dias depois telefonaram a informar que tinham encontrado a cura: bastava deixar a rua, ficar afastado dela por alguns dias que a língua normalizava. Ao princípio ninguém acreditou, mas notando que os informavam sem fluidez na fala, lá acabaram por acreditar. E depois foi um corre-corre para fazer as malas e partir para residência de familiares ou hotéis.
A família de Dionísia foi das últimas a sair. Iam para a casa da avó. Tinham acabado de embalar o necessário, e estavam já no fim da rua, carregados de malas, quando o pai diz muito depressa:
- O pão! Meu Deus, esquecemo-nos do pão!

Evidentemente a primogénita foi a escolhida para o ir buscar. Após o recuperar fechou a porta de casa atrás de si à chave. Afastara-se já um bocado quando um sonoro espirro soou na rua deserta:
- Atchiiim!!
Desta vez nem deu chance ao paspalho de a pôr fora de combate, sacou logo de uma pedra e lançou-a ao crânio. Mas esta, a meio do percurso, parou.
- Nia?! O que é que tu ias fazer? Arrebentar-me com a cachola?!
A chatice de existirem dois mágicos iguais, um bom e outro mau, era o facto de ser incapaz de os distinguir. Afinal, tratava-se de Barnabé e não de Malazon.
- Desculpe...eu...pensei que fosse o seu irmão.
- Notei. Mas não faz mal, é muito difícil saber quem é quem. A culpa não é tua.
- Mas...o que é que o senhor está aqui a fazer? Não me diga que isto do vírus faló-contrário é obra de...
Ao mesmo tempo que Barnabé anuía com a cabeça algo de estranho aconteceu. Na rua as casas desapareciam, envoltas numa neblina cinzenta escura, enquanto à frente de ambos um gás amarelado formava um corpo.
Ela sentiu um arrepio de morte na espinha. Barnabé colocou-lhe a mão no ombro e disse:
- Calma. As coisas só terminam quando têm de terminar. Nada está perdido.

Antes de Nia ter oportunidade de pensar alguma coisa a fada apareceu de súbito atrás de Malazon, saltou-lhe para a frente dos olhos, lançando-lhe pó na vista. Isto fê-lo uivar durante uns instantes.
- Toma! Julgas que sou fácil de prender?! Enganas-te! - e deu-lhe uma bicada no nariz. O que o fez realmente zangar-se.
Malazon retirou as mãos da cara num gesto brusco. Estava enfurecido. Raivoso. Levantou as mãos ao céu cinzento e prendeu Dionísia e Barnabé ao solo. Face à dupla incapacidade de movimento, Nia surprendeu-se...mas então os poderes de ambos não eram iguais? Equivalentes? Como é que Malazon conseguiu aprisioná-lo tão facilmente? Não era possível! Não podia ser!
E tinha razão. Barnabé soltou-se e lançou um raio invisível ao irmão gémeo. Este começou a rodopiar no ar, urrando:
- Ahhhhh! Larga-me! Laaaaaaarrrrgaaaa-meeeeeee!!

Enquanto com um braço fazia o irmão dançar, com o outro tentava libertar Nia da posição de estátua. Conseguiu-o. Infelizmente o dispêndio de energia fora demasiado: cansara-se, estava enfraquecido. Malazon aproveitou a sua fraqueza para se livrar dele de uma vez por todas. Ergueu as duas mãos abertas, levantando Barnabé do solo, à distância, como se fosse uma marioneta sem fios. Prendeu-lhe as mãos e pernas com cordas florescentes, feitas do mesmo material que a espada-verme do jardim zoológico. Tapou-lhe a boca com fita adesiva que apareceu de repente e, dando balanço, lançou-o para o alto. Barnabé perfurou o céu cinzento e Nia deixou de o ver.
- Agora nós - encarou Dionísia. Ela agarrou numa pedra e ia já para lha mandar à tola quando ele se começou a rir e a fez regressar à posição marmórea. Nem sabem a vontade que tinha de lhe arrebentar os miolos, mas o braço não obedecia à sua vontade, mantendo-se imóvel. A raiva e o desânimo consumiam-na. Com Barnabé fora da corrida a Fadinha bem que se podia esforçar, mas Malazon acabaria por vencer.
E isso significava a morte da fada. De repente Dionísia notou que pingos lhe molhavam a roupa. Chovia? Não, não estava a chover. Era ela que chorava. As lágrimas escorriam-lhe pela face e o feiticeiro ria-se que nem um perdido, confiante na vitória, ao vê-la chorar de medo e desalento.

- Oh, Nia, Nia! Não tenhas medo. Eu tiro-te daí! - garantiu a Fadinha. Impossível. Por mais que lhe puxasse o cabelo ou lhe tentasse dobrar os dedos ou por mais que a empurrasse: Dionísia não se moveu nem um milímetro sequer. A Fadinha, desconsolada, começou também ela a lacrimejar. Não! Era o pior que podia fazer! Não se podia abandonar à tristeza! Tinha de ser forte para derrotar Malazon! Mas a fada persistia no pranto e descuidara os movimentos do feiticeiro.
- Coitadinha...não chores! Daqui a momentos tudo estará terminado! - calou-se e acrescentou, arregalando os olhos - Prometo-te.
Subitamente uma brisa levantou-se. A fada começou a rodopiar como uma pena à mercê do vento. Só Dionísia e o feiticeiro maléfico permaneciam imóveis. A fada rodopiava a meio caminho entre os dois, apanhada numa espécie de tornado. Nesse vento rodopiante outra coisa surgiu: letras. Imensas letras. De todos os tamanhos e feitios. Eram cada vez em maior número. Até que o furacão se fechou em cima e em baixo e a fada ficou aprisionada num casulo em que as letras eram como barras de aço, impedindo-a de sair. No meio distinguia-se a fada, adormecida. Dionísia sabia que o feitiço de pôr as pessoas num transe sonolento era dos que menos durava, mas Malazon não precisava de muito tempo para finalizar o seu trabalho maldito.
- Pensavas que eu não sabia? Palavras, letras! São para ti como o ferro é para as tuas irmãs! Eu sei tudo! Eu sou o melhor feiticeiro! De todos os tempos! De todos os mundos!
Ainda por cima era convencido.

O coração de Nia pulava freneticamente. Adivinhava o fim próximo da amiga. Não, este não podia ser o fim! Meu Deus, faz qualquer coisa, pedia ela! Com Barnabé fora de combate a quem mais podia recorrer para ajuda?
Malazon fechou os olhos e concentrou-se. Nia notou gotículas de suor a nascerem-lhe na testa: estava a ficar cansado. Tinha de despachar-se senão não teria forças para levar a cabo os intentos maléficos. Abriu os olhos de repente. Afastou os braços e lançou a cabeça para trás, cerrando novamente as pálpebras. E ela então viu a fada, ainda presa no transe, pairando inerte no meio do tornado: tornava-se progressivamente clara, de um azul menos carregado. Meu Deus, estava a ficar branca! Pálida!
E Malazon, por seu turno, adquiria uma cor roxa. Quanto mais pálida a Fadinha se tornava, mais a pele dele adquiria um escuro tom roxo.
E foi aí que Nia notou o desaparecimento do suor. Ele recompunha-se! Recobrava as forças! E a fada, meu Deus, a fada estava já completamente branca. Tinha os braços caídos ao longo do corpo e a cabeça tombada no peito. Só o cabelo mantinha intacta a coloração dourada.
Então uma luzinha de esperança deu-se a conhecer.
O braço direito de Nia. Conseguia mexê-lo! Porventura uma distracção por parte do feiticeiro, concentrado totalmente na Fada dos Sonhos. E ela não iria desperdiçar a chance. Mais outro segundo e atiraria a pedra. Bem no meio dos olhos daquele canalha! Acabar com o seu escarninho, com o seu riso malvado!

Ao constatar ser capaz de mover o braço por completo, fez pontaria, rezou a todos os anjinhos do céu - e arremessou a pedra.
Para a ver cair aos pés do feiticeiro. Falhara! Ele ainda arreganhou a dentuça, caçoando:
- Ah! Ah! Ah! Coitadinha...não fiques triste! Então, não é caso para chorares!
Aproximou-se levando a pedra.
- Creio que isto te pertence. Não...é melhor não ta devolver agora. Eh lá! Estás enraivecida - dizia, enquanto ela o tentava esgadanhar com o braço direito, ainda solto. Isso não o incomodou e deitou a pedra fora. Dionísia mesmo que quisesse não seria capaz de alcançá-la. Viu a fada - praticamente branca. E Malazon parecia negro!
- Mais uns segundos e estará tudo acabado! Poderei controlar quem quiser, aqui e noutras dimensões! O poder dos sonhos é o mais poderoso que existe! E daqui a pouco...SERÁ MEU! ETERNAMENTE MEU! EU, MALAZON, SEREI ETERNAMENTE PODEROSO!
Ia já para virar as costas quando reparou no saco pendendo do braço esquerdo de Nia.
- O que é isto? Pão? Ora...muito agradecido, foi muita consideração da tua parte! É que estou cá com uma fomeca! - e roubou-lho.
Dionísia perdera as esperanças. Só rogava a Deus, a todos os santinhos, a todos os anjinhos, ao menino Jesus, a Barnabé para fazerem qualquer coisa! A Fadinha estava a morrer! Nem que tivesse de trocar lugar com ela, não se importava! Desde que ela vivesse!

As lágrimas escorriam-lhe pela face, tantas que a impediam de ver bem. Lembrou-se, num clarão, das palavras consoladoras da mãe, meses atrás. Ela tinha dito que às vezes as coisas boas aconteciam quando menos se esperava. Dissera que, por vezes, o mundo tinha maneiras de nos surpreender agradavelmente nas piores situações. E Nia, por entre lágrimas, por entre suspiros abafados, só pensava: ó mãe, mãe! Deus queira que tu tenhas razão! Ó mãe, eu preciso tanto que tu tenhas razão Agora!
Angustiada, viu o feiticeiro levar um pedaço de pão de dona Albertina à boca.
E o milagre aconteceu. Quanto mais ele comia menos presa ela ficava. Quanto mais mastigava menos branca a Fadinha se tornava. Quanto mais satisfeito Malazon se sentia, a sua cor roxa ia perdendo progressivamente o tom carregado. E mais os pés se erguiam do solo, a uma altitude cada vez maior. De súbito as letras cessaram o redemoinho à volta da fada, caindo por terra. Dionísia, vendo-se liberta, correu ao seu encontro, evitando que tombasse no chão. A cor azul voltara à sua pele. Despertou por causa das lágrimas dela.
- Ni..a... - murmurou. E ela viu-lhe nascer um sorriso pequenino nos lábios. Salva! Estava salva! E viva! Viva!!
Limpou as lágrimas, desviando o rosto do seu corpo minúsculo. Não podia continuar a molhá-la com o choro, não fosse apanhar uma gripe. Ao virar a cara vislumbrou Malazon preso por uma perna à mão de Barnabé. A sua face expandia-se num sorriso, nada maléfico, de contentamento, enquanto o irmão gémeo o ia alimentando com o pão do saco. Felizmente que estava cheio.
- Eu não disse que era a gula que te perdia? - afirmou Barnabé, vitorioso. - Eu não disse?
A mãe tinha razão. Às vezes quando mais se precisa algo de bom acontece. «Ó mãezinha, vou dar-te um abraço quando te ver de novo», pensou.

Domingo, Abril 13, 2003

62


Perto do final das aulas foi organizado um passeio ao jardim zoológico, mais lúdico que educativo, embora tecnicamente se tratasse de uma visita de estudo. No entanto a cada aluno era requerido o pagamento do bilhete. «Bela democracia», rabujou Beta, mas depois lembrou-se da girafa corredora. Nem ela nem Dionísia teriam de pagar bilhete, tinham duas entradas grátis à sua espera. Telefonaram a certificarem-se.
- Tudo certo. Estão lá. Só temos de levar o BI para confirmar o nome. Não pagamos! Viva! - disse Beta.

Ultimamente andava com aquela do «Não pagamos! Não pagamos!» Considerava a luta estudantil contra as propinas chique e de extremo bom gosto revolucionário. Nia fartava-se de lhe explicar que o tema não devia nada a romantismos, que aí estaria a abordá-lo pela rama, mas nada feito. «Eu é que leio os livros e a ela é que lhe dá os ataques românticos», pensava.
No zoo a turma assistiu ao show aquático dos golfinhos. A pele dos mamíferos parecia borracha e incandescia, húmida, ao embate do sol.
Depois a turma dispersou-se, dividindo-se em pequenos grupos, seguindo cada um para seu canto. Beta e Nia afastaram-se e, de repente, notaram a presença da girafa-bébé, perfeitamente integrada com outras, ocupada a mastigar o almoço.
- Olha! Olha ali! Olha quem ela é!...- apontou Dionísia.
- Pois...conheço...eu vou práquele lado, não vá a menina ter ideias de me comer a saia para sobremesa... - afirmou, lacónica, e afastou-se na direcção de umas aves adornadas de plumagem garrida, deixando-a só.
- Então, rapariga, por aqui? Por esta altura acreditava teres comido já a vedação...ou esta é recente? De facto, pareces mais gorda...
A girafa-bébé reconheceu-a e apressou-se a ir ao seu encontro. Cheirou-lhe as mãos, à procura de comida.
- Não te trouxe nada. Aliás, é proibido. Mas tu não tens que chegue?! Livra...
Afagava-lhe o focinho, desviando-se da língua áspera que lhe feria as mãos. Olhou para os lados e depois confidenciou à girafa:
- Vou comprar-te um mars, ali. Venho já. Não fujas!

Virou-se e tinha dado já três passos quando de súbito um espirro a pôs em alerta. O seu coração disparou. Viu um homem aproximar-se de si em passo largo e apressado, cobrindo o rosto com um enorme lenço.
- Atchiim! Aii...maldita alergia...- queixava-se.
Barnabé. Acalmou-se. Não havia perigo. Sorriu para ele à medida que o seu ritmo estugado encurtava a distância separando os dois. Contudo, existia algo de errado na cena. Qualquer coisa a punha de sobreaviso, não obstante a razão e a mente lhe afirmarem, categóricas, tudo se encontrar em perfeita ordem. Em harmonia. Mas o corpo discordava e à medida que a separação entre ambos diminuía o coração despertava para o pânico, a pele suava e a respiração acelerava. Estes sintomas de medo sem razão aparente, de pânico, agudizavam a cada passo de Barnabé, lenço bailando na mão, tapando metade da cara, amaldiçoando a Primavera e as alergias detonadoras dos espirros. O corpo, recordou, por vezes sabia mais do que a mente: e avisava-a. Dionísia arregalou os olhos quando no cérebro o clique de reconhecimento se deu. Algo mais, porém, não estava como era suposto estar. O quê? O quê? O pânico mantinha-a pregada ao chão, impossibilitando-a de pensar, de raciocinar com clareza. De repente apercebeu-se do que se tratava - os animais estavam calados. Tinham emudecido. Nada bugia. E as pessoas eram como estátuas, paradas. Nenhuma delas se mexia, nem um gesto fluía de si. Só os animais continuavam activos, sem contudo emitirem um só ruído.
Não era Barnabé. Era Malazon.

Tentou mover-se, freneticamente, sair dali, escapar, rápido, rápido! O corpo ordenou-o primeiro à mente, que lhe retribuiu a ordem, mas nem uma célula de si obedeceu. Já não se tratava de pânico - ela queria mexer-se! Mas uma força exterior à sua vontade impedia-a. Encontrava-se pregada ao chão como uma árvore. Até de piscar os olhos era incapaz. Malazon. Fora ele o arquitecto de tudo aquilo. Lançara um sortilégio e as pessoas tinham-se transformado em estátuas vivas. Mas o encantamento não afectara os animais. Estranho...
Malazon rodou sobre os calcanhares, abriu os braços altivamente e apontou o queixo arrogante para o céu. Vociferou, ribombante:
- APARECE!
Fez uma pausa e repetiu:
- APARECE!

Baixou os braços e voltou-se, o olhar cravado em Dionísia como faca aguçada. Lentamente ergueu a mão, enquanto o rosto se deformava num sorriso escarninho. Da mão direita Nia vê nascerem figuras nebulosas, sem forma definida, adquirindo, devagar, contornos precisos. E aterradores. Vermes. Vermes nojentos a saírem-lhe da palma, por entre a carne. O corpo petrificado surpreendeu-a com um arranco de vómito percorrendo as veias. As linhas definiram-se. Não eram vermes, eram cordas. Flexíveis como borracha. Três cordas: uma rosa, outra amarela e a última azul. Bruxuleavam no interior da mão do feiticeiro. Pouco a pouco aumentaram de tamanho e com ele crescia um intenso brilho cegante. Se ao menos pudesse fechar os olhos! Impossível! Ele impedia-o. As cordas, de repente, estacaram o movimento e, num fósforo, entrelaçaram-se, desenhando uma trança. Tinha o tamanho de uma espada. No término restavam as três pontas independentes, como boca sôfrega, faminta, voraz. E fatal. Semelhando garra de ave de rapina, construída para agarrar solidamente a presa, a vítima. A garra, a boca, movia-se no fim da longa trança, formando uma ágil e poderosa arma. Porém, além de eficiente, era bela, linda, perfeita no aspecto. Mas indiscutivelmente mortífera. O brilho emitido atingia com crueldade crescente, sem piedade, os sentidos de Dionísia, cegando-lhe a vista.
- APARECE! - cacarejou numa voz grave e imperativa.
-APARECE OU A TUA AMIGUINHA SOFRERÁ AS CONSEQUÊNCIAS! - finalizou.

Nada. O puro silêncio foi a única resposta à invectiva. Malazon susteu a respiração, dardejou novo olhar maldoso em Nia - e caminhou para ela. Devagar, não era preciso pressas...para morrer. Parou a escassos centímetros dela. Cravou-lhe os olhos em cima. E ela não podia virar a cara, olhar noutra direcção. Viu a espada-verme florescente erguer-se e parar no alto. Depois...depois em voo picado extraordinariamente rápido abateu-se sobre o seu rosto.
Parou milímetros antes de a dissipar de alto abaixo, como as espadas samurais, que tinham a reputação de poder cortar um homem ao meio. Se ao menos pudesse fechar os olhos...
- APARECE JÁ OU ELA MORRE!

Mal acabou de falar a Fadinha materializou-se no seu ombro esquerdo. De imediato a tentou fisgar à mão, na estúpida ganância de a capturar, mas ela, claro, eclipsava-se e reaparecia no topo do seu crânio. Os dentes rangiam de ódio e de raiva à medida que as suas atabalhoadas tentativas de a interceptar à mão se revelavam infrutíferas. E imbecis. Deixara-se cegar pelo ódio. Sendo feiticeiro, senhor de infindáveis recursos, era evidente que tentar capturá-la a pulso era não só um estratagema parvo como impossível. Cansou-se e desistiu. Optou então pela espada-verme, que se revelou tão rápida como a luz. Perseguia a fada a incrível velocidade, abrindo e fechando a boca e ela só muito a custo iludia as tentativas, desaparecendo praticamente no último instante.
Mas o jogo revelava-se cansativo. A fatiga de Malazon era visível pelo suor inundando-lhe a testa crispada pela raiva. A fada, porém, não estava isenta de cansaço. Tornava-se perigosamente lenta e vulnerável.
Dionísia observava a perseguição, o coração aos pulos, aterrorizada. Engoliu em seco. E piscou os olhos repetidas vezes ao notar que a Fadinha se escapulia cada vez com maior dificuldade dos avanços da espada-verme para a engolir, a enclausurar dentro da boca.

De repente sentiu o dedo mindinho mexer-se. Logo a seguir conseguiu mover o braço inteiro. O mago aproximava-se dela. «Só mais um bocadinho, vá lá, só mais um bocadinho...pois, práqui, vem...vem que eu já te dou o arroz...», pensava. Planeava atingi-lo onde mais doesse mal ficasse ao seu alcance. Mas não foi ela que acabou por o apanhar, mas sim a girafa-bébé. Logo que ele se aproximou da vedação a girafa abocalhou-lhe o bolso de trás das calças e não o largava por mais que Malazon esperneasse e esbracejasse desenfreadamente. Soltou-o apenas quando conseguiu por fim tirar o que ele guardava no interior do bolso. Uma barra de chocolate.
- Sempre foste um guloso - Nia escutou a voz de Barnabé atrás de si. Conhecia-lhe a voz, idêntica à do irmão, e soube que não era um truque, apesar de ainda não conseguir virar a cabeça, pelo ar de aterrorizado espanto de Malazon, esbugalhando os olhos. De súbito o seu corpo tornou-se mole, frouxo. Cessara a anterior condição petrificada, empedrada.
- É sempre a gula que te perde - continuou Barnabé.
Malazon suava em bico, por todos os poros. A espada-verme perdia progressivamente o estado fléxivel e moldável, tornando-se estática, endurecida e quebradiça. Num segundo estacou e rachou-se, quebrando por completo, indo tombar em minúsculos pedacinhos no chão, pedaços estes que se metamorfesearam em larvas nojentas, retorcendo-se como se mergulhadas em indiscrítivel sofrimento. Depois pegaram fogo e desapareceram num instante, enoveladas por nuvens amarelas que rapidamente evaporaram. Dionísia, enojada com o espectáculo, reprimiu um vómito e em seguida olhou na direcção de Malazon. Já lá não estava. Viu-o, a correr, ao longe.
- Pára! Pára! - ouviu Barnabé ordenar. Debalde. Malazon prosseguia a desesperada corrida, encharcado em água e nem os raios que o seu irmão lhe lançava logravam acertar nele. «Porque, simplesmente, não desaparece?», perguntava-se. Depois compreendeu a razão. A fraqueza, a estafa da batalha iniciada e perdida impediam-no. Esgotara parte de energia significativa e encontrava-se por demais enfraquecido para poder desaparecer por entre o ar. A única safa era despistar os inimigos e recompor-se. Mas Barnabé continuava na sua esteira, sem contudo conseguir capturá-lo.

- Oh! Eu acabo com isto! - exclamou de súbito a Fadinha e mal acabou de o dizer Malazon tropeçou e caiu no chão.
- Viva! Viva! Conseguiste, Fadinha, conseguiste! - rejubilava Dionísia, por entre palmas e pulos de alegria.
Barnabé estava prestes a alcançá-lo e a Fada dos Sonhos seguia-o a curta distância. Eis senão quando, num derradeiro esforço, Malazon se eclipsa ante os seus olhos, metamorfoseando-se em nuvens de gás amarelo que rodopia até à atmosfera, deixando o espaço que tinha ocupado - vazio. Restava somente como marca da sua presença o solo coberto de relva amassada.
Tão perto. Tinham estado tão perto...
- Teremos de esperar pelo seu próximo ataque. Mais uma vez nada podemos fazer antes que ele se decida a agir - suspirou, resignado, Barnabé.
A Fadinha sentou-se no ombro de Dionísia que, entretanto, os tinha alcançado.
- Não há outra maneira? - inquiriu. - Não existe uma forma de dar com ele e de o apanhar primeiro?
- Infelizmente não - calou-se por instantes e depois dirigiu-se à fada. - Olha lá...essa da relva crescer instantaneamente foi de mestre! Foi uma maneira estupenda de o obrigar a parar! - colocou a mão nos lábios, cerrou o sobrolho e acrescentou:
- Fui eu que te ofereci esse sortilégio, não fui?
- Foste sim - respondeu, respirando com dificuldade. - É uma magia fantástica! Já a usei antes.
- Quando? - questionou ele.
A fada encolheu os ombros, baixou os olhos e disse envergonhadamente:
- Oh, não importa! Agora temos assuntos mais importantes a tratar!
- Eu conheço essa expressão...fada, conta-me - insistiu o bondoso feiticeiro, utilizando um tom de voz ligeiramente zangado, como se adivinhasse logo que coisa boa não tinha sido de certeza.
- Não fiz nada de mal! Apenas...me diverti!
Dionísia recordou num clarão um incidente não muito distante. E exclamou:
- O arqueólogo Aristides!
- O quê?
- De um dia para o outro nasceu-lhe barba verde!
- Fada! Ora se isso se faz! Devias ter vergonha!
Ela riu-se alegremente e explicou:
- Encontrei-o à noite a dormir e não resisti! Aliás, fica tão bonito! E de vez em quando até lhe nasce uma florzinha amarela na bochecha!
Desmancharam-se todos a rir à gargalhada.
A seguir a Fadinha partiu, deixando Nia e Barnabé. Pouco a pouco as pessoas iam despertando do transe marmóreo, sem se lembrarem de nada. A única que conservava memórias do acontecimento era Dionísia. Malazon precisava dela desperta, Bem acordada, para que o seu pânico, expresso no padrão dos sonhos, atraísse a Fadinha para uma armadilha - quase - fatal. Tiveram sorte, daquela vez.
Quando viu Beta aproximar-se Barnabé despediu-se rapidamente e prometeu estar atento a qualquer mudança. Acontecesse o que acontecesse estaria sempre lá para proteger tanto Dionísia como a fada. Antes de Beta o poder ver desintegrou-se numa nuvem de vapor laranja que se dissipou em segundos perante o olhar estupefacto de Nia.
- Dói-me o pescoço - disse Beta. - Está a ficar tarde e o professor está a chamar-nos. Anda, vamos embora. Livra, dói-me mesmo o pescoço. E a ti?
- Também...um bocadinho.

Sexta-feira, Abril 11, 2003

Há alguém, via Blogs em pt, muito interessado neste site.
Eu até estranho.
Ver se acabo de pôr aqui o livro.

61


O teste correra-lhe pessimamente. Obteve quarenta e nove por cento. O que não era mau de todo, mas também não constituía um resultado brilhante. Não que Dionísia desejasse ser brilhante, mas tudo o que metesse números, matemáticos ou históricos, exigia-lhe um esforço superior ao despendido com outras disciplinas e mesmo assim obtinha resultados muito abaixo dos alcançados nelas.
Bom, mas tristezas não pagam dívidas, disse de si para si. Sempre existiam outras coisas boas que diminuíam a aparência das más. Ia fazer anos! Treze, mais precisamente! Ia «casá-los» porque o dia do seu aniversário era também o treze. De maneira que a festa ia ser grande. Dionísia planeava convidar a família, a avó, as colegas da escola, a Beta, os miúdos da rua, incluíndo Rúben (só tinha pena que ele tivesse tirado o gesso: ao menos limitava-lhe os movimentos) e o senhor Figueira. Felizmente que o castigo imposto pelos pais um mês atrás já fora cumprido na íntegra.
«Vai ser uma festa e tanto!»




Chegou o dia do aniversário. Dionísia e mãe tinham passado os dias precedentes atarefadas na preparação dos bolos e dos doces. O belo sortido de cores apelava ao paladar e à gula. Os convidados não lhe ficaram indiferentes, instalando-se o pandemónio devido à quantidade de gente a rodear a mesa, sendo a maioria constituída pela criançada gulosa. Os putos corriam para todos os lados, as caras besuntadas de creme, chocando entre si, e ainda se sujavam mais. A avó insistia, no meio da anarquia, em arrumar e a limpar a confusão reinante. Impossível demovê-la. A mãe contava mentalmente para se manter calma e Nia desviava-se dos choques, os olhos a brilhar de cada vez que olhava de relance as prendas.

Beta ofereceu-lhe um blusão. Ainda não desistira da ideia de a converter à moda e ao bom gosto. Jaime presenteou-a com um modelo de uma casa de bonecas, grande, bonito e colorido. Agradeceu-lhe com um beijo, que ele aceitou embaraçado, indo depois a correr juntar-se às tropelias dos restantes garotos. Os pais, além dos livros da praxe, deram-lhe igualmente uma aparelhagem apenas para si. Com auscultadores. O senhor Figueira só se juntou à festa quando ela esmorecia, já a noite se instalara e muitos dos convivas se tinham ido embora. Trouxe uma boneca de porcelana quase da metade do tamanho dela e ofereceu-lhe além disso um jogo de computador. Dionísia agradeceu, afirmando que não era preciso ter dado duas prendas, a boneca era linda e bastava. Mas o senhor Figueira explicou a outra oferta dizendo que tanto podia jogar sozinha como «acompanhada». Depois sorriu e piscou o olho veladamente. Ela percebeu de imediato o toque e correu a voar para o quarto.
No quarto fechou a porta à chave. Encostada a ela chamou pela Fadinha em voz mansa, num murmúrio. A Fada dos Sonhos acudiu ao chamamento materializando-se no topo da estante invisível.
- Parabéns! - disse enquanto pulava e abria os braços. Depois estendeu as mãos vazias na sua direcção. Delas brotou uma flor encantada, belíssima. Dionísia tinha a certeza que não havia no seu mundo outra igual. A Fadinha planou até perto de si, estacando a poucos centímetros e, nesse instante, a flor ergueu-se nas mãos da fada, cantando uma melodia singela, divina. Mágica. Dionísia sentiu-se entorpecer, o corpo foi tomado de uma moleza leve e confortável. Mas o canto foi curto e, no exacto momento em que terminou, logo se esqueceu da bela melodia escutada pela primeira e derradeira vez. Porém o corpo continuava possuído pela sensação de paz e conforto. Uma paz imensa feita de música preenchia-a.
- Só posso trazer esta flor para a dimensão humana uma vez em cada Zipprii - mal acabou a frase a flor desapareceu ante os olhos de Nia.
- Para onde foi? - inquiriu.
- Voltou para a minha dimensão.
- O que é um Zipprii?
- humm...deixa ver...segundo os vossos critérios temporais...cerca de mil anos.
- Uau!...que pena não ter gravado a canção. Era tão bonita. Esqueci-me logo dela.
- Oh...é sempre assim...
De repente são interrompidas pelo bater furioso e ritmado de Jaime à porta, exigindo tomar parte parte no jogo oferecido pelo senhor Figueira.
- Desculpa - pede Dionísia baixinho. - Tenho um irmão tão irritante. Bolas, não podemos conversar à vontade!
- Vou-me embora, então. Volto noutra altura.
- Quando?
- Está atenta - e eclipsou-se.
- Deixa-me entrar! Vá lá! Abre a porta! - exigia Jaime.
- Entra, chatarrão!
Deixou-o entretido com o jogo e foi despedir-se do senhor Figueira. Com ele partiu a Fadinha, bem escondida nos seus sonhos, como o polegarzinho no bolso de uma camisa.
De madrugada acordou com o suave barulho de marradinhas à porta do quarto. Foi abrir.
Era a tartaruga. Trazia a carapaça a transbordar de flores. Dionísia agradeceu-lhe à maneira de Jaime, apertando-a com fervor. Tinha sido, de todos, o melhor presente de anos.
60


Mas nem tudo eram espinhos. De quando em vez uma ou outra rosa florescia na vida de Dionísia convertendo-a, ainda que momentaneamente, à felicidade, à alegria que de tão intensa parece eterna. O que nunca é o caso. Então o medo voltava, as núvens negras e seus maus presságios abatiam-na - até nova onda de contentamento a invadir, nascida por vezes de coisas que, à primeira vista, parecem minúsculas, mas a longo prazo engradecem e é por elas que acabamos por pautar o milagre que é a vida.
Uma dessas ocasiões foi a notícia com que a mãe regressou do trabalho, poucos dias após o retorno de Nia e tartaruga ao lar. O enfermeiro, disse, exultante, tinha ido aos Correios. Desta vez a correr à frente de um envelope que, pulando e bailando por toda a divisão, contorcendo-se como um ginasta olímpico, denotava o seu grande ensejo de ser enviado. Sem dar hipótese ao enfermeiro de agarrar e impôr disciplina à missiva rebelde, ela saltitou para cima do balcão, colocou sozinha o selo, saltando por fim para a caixa de correspondência nacional. O enfermeiro, esbaforido, informou a mãe que a garota recuperara e escrevia ao irmão, quase a finalizar a tropa, dando novas do seu renovado estado de saúde. A mãe sorriu muito e considerou o dia ganho.
Dionísia partilhou com ela o momento de felicidade que sentiu. Jaime, contudo, demonstrava maior interesse no novo barco enviado pelo senhor Figueira. Ao ar interrogador materno a filha declarou que haviam os dois recebido uma carta do antigo vizinho da frente. A Jaime mandara o barco contando que uma galeria expunha as suas embarcações miniaturizadas, alcançando grande sucesso. Chegara já a vender umas quantas! Em pouco tempo, pelas suas contas, teria o veleiro! Jaime, porém, permanecia calado. A mãe franziu o sobrolho escondidamente à filha e esta bichanou-lhe ao ouvido que o mano «’tava com a burra», expressão da avó significando estar amuado.

- Então porquê? Não gosta do barco? Olha que até é muito giro. E muito bem feito. Ele que o guarde porque cá desconfio que daqui a uns anos há-de valer uma bela maquia - asseverou.
- Julgas que ele o vende?! Nem pensar! É dele e prontos. Nem a mim quase o deixa pegar. Anda mais tempo com ele a tartaruga às cavalitas. Não é isso. É que na minha carta - que o pirralho teve à força toda de ler - o senhor Figueira calhou dizer que há por lá uma miúda, de seis anos, acho, muito sua amiga. Conta-lhe histórias e conversam muito. O que ele tem é ciumeira. Dor de cotovelo.
- Ora, deixa lá o teu irmão! Não o arrelies. Sabes que ele tem saudades do vizinho da frente.
- Eu sei, eu sei...’tá descansada. Não o chateio.
A mãe saiu da sala e foi aprontar o jantar, deixando os filhos entretidos. Nia não lhe dissera que a tal «miúda» era a Fada dos Sonhos (até porque a mãe desconhecia a sua existência) e nem que as histórias que ela «inventava» eram verdadeiras. Como a de term encontrado golfinhos e nadado com eles. A fada lançara da boca, dentro da água, um aro vermelho e uma bola amarela - o seu nome real - com os quais os golfinhos brincaram.
Dionísia sentia uma vontade maliciosa de aborrecer o irmão cantado a altos berros: «Ele tro-cou-te! Ele tro-cou-te!» Suprimia a vontade substituindo-a por outra. Desatou a fazer-lhe cócegas e, enquanto ele se contorcia, aproveitou para lhe roubar o barco, fugindo com ele.
- Dá-me isso! Dá-me! - gritava Jaime, agitado e cheio de nervos.
Entretanto chegou a tartaruga com o filhote das andorinhas às costas. A cria não aprendera a voar ainda e a tartaruga ia-lhe mostrando as vistas, numa espécie de treino informal. Dionísia distraíu-se com o súbito aparecimento dela o que deu a Jaime a oportunidade de reaver o barco, colocando-o seguidamente sobre a couraçada verde da tartaruga. A andorinha júnior de imediato o reclamou como sua propriedade, subindo para cima dele, desatando a piar e a abrir, impetuosa, as asas para trás, como se fosse um garboso comandante. Atravessaram a sala e tomaram o caminho da rua, onde os pais do júnior os acompanharam, um de cada lado, como uma guarda de honra.
Nesse instante o pai entrou na sala, revista de economia debaixo do braço, e a segurar uma côdea de pão. Sem se dar conta disse em voz alta que nem queria pensar no desgosto da tartaruga quando as andorinhas emigrassem para terras mais quentes no fim do Verão.
- A não ser que emigre com elas...- volveu Nia, alheia a Jaime. De súbito pai e filha apercebem-se que ele estava ali, ao pé deles, e arrependem-se do que haviam dito.
À noite a tartaruga regressou e Jaime dormiu abraçado a ela, enclavinhando os dedos na dura carapaça.
No dia seguinte Nia acordou com datas de batalhas e de assinaturas de tratados e de começos e de fins de reinados e de revoluções e de Reformas e Contra-Reformas a bailarem-lhe desenfreadamente no crânio.
«Odeio testes de história. Estudei ontem a noite quase toda e mesmo assim não assentou nada cá dentro. Odeio história!», cogitava, ao passar pela escavação a caminho da paragem. Era cedíssimo, no entanto lá estavam Rúben (só tinha aulas à tarde, ocupando as manhãs no campo) e Aristides aluado, remirando um caco minúsculo, munidos de cuidados extremos. «Até parece que é a cura para o cancro», disse de si para consigo, maliciosamente. «Bolas, se o Rúben gosta tanto de história podia fazer o teste por mim. Vou espalhar-me ao comprido, já sei.»
A camioneta parou e ela subiu.

Sábado, Março 08, 2003

Poetas e Pintores Surrealistas

Terça-feira, Fevereiro 04, 2003

Tenho de ver se termino de pôr aqui o resto do livro...