Sexta-feira, Junho 28, 2002
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Certa manhã, cedo, demasiado cedo até para os pássaros, o senhor Figueira bateu à porta dos vizinhos da frente. A mãe, estremunhada, veio abrir e diante de si vê um homem transfigurado. Vinha nervoso, a saltitar de pé em pé como um corredor que espera impaciente pelo tiro da partida para sair disparado a correr, estabelecendo novo recorde mundial na modalidade. Esfregava as mãos e abanava a cabeça. Era notório que queria sair dali o mais rápido possível, pôr-se a milhas. Andar! Andar! Pede à vizinha da frente se lhe poderia prestar o imenso favor de tomar conta da iguana. Não, não fazia ideia do tempo que estaria fora, talvez um mês ou mais, não tinha certezas. A vizinha da frente concorda, evidentemente. Ele sorri e dá-lhe vigoroso abanão num obrigado excessivo em nada coadunável com o seu carácter introspectivo, silencioso e tímido. Desaparece pelas escadas abaixo, a cantarolar, depois de passar para a palma da mão da vizinha a chave de casa.
O mês esvai-se. E junta-se-lhe uma semana. E nem sinal do senhor Figueira. Os pais de Jaime e Dionísia preocupam-se. Por onde andaria ele? Estaria tudo bem? É que nem uma carta, um postal, um telefonema lhes chegou. Nada! Nenhuma notícia. Quando a preocupação se avolumava eis que chega o senhor Figueira, bronzeado e feliz, com uma fileira de dentes níveos a luzir por entre os lábios. À pergunta de onde estivera todo aquele tempo abre os braços como se tivesse intenção de abarcar o mundo e exclama: «No mar!» E depois fala. Com entusiasmo. Numa confissão, dir-se-ia. Mas não de pecador, nem de virtuoso; antes de sonhos, de desejos adiados e que haviam deixado de o ser. Revela que mês e meio atrás compreendera, num clarão súbito e ofuscante, que falhar não era o problema. Não falhar é que o era. Falhar era inevitável. Tão inevitável como respirar. Na sua opinião havia que falhar milhões de vezes, tropeçar em obstáculos ridículos e assustadores. Vezes sem conta. Para alcançar fosse o que fosse eram imprescindíveis, necessários, os fracassos. Tão vitais como o oxigénio. Por isso se diz que errar é humano. É que não pode ser de outra forma! Humano! Era isso o que ele era: um homem. Que tinha falhado. Mas desistir só por isso roubava-lhe, num sopro, a condição de homem. E, pior de tudo, ele - ele mesmo! - é que o fazia. No instante em que o entendeu deu um salto e foi bater à porta dos vizinhos da frente.
Estes, atónitos, expressavam o espanto de queixo descaído. Nenhum deles compreendera uma só palavra. Quer dizer, viam-no feliz, exultante da vida, o que, afinal de contas, era o mais importante. Mas, indagavam-lhe, onde é que tinha estado.

