Domingo, Junho 30, 2002


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Então o senhor Figueira explicou que conseguira que uns pescadores o levassem com eles nas pescarias, a troco de aprendizagem e de mais coisa nenhuma. A comida e o tecto teve de providenciar com as suas economias. Acordava cedo, noite escura, frio de gelar os mortos, embarcava com os pescadores relutantes ao princípio, afinal já era velho para aquele ofício, e ainda por cima enferrujado de músculos e força, mas foi arranjando vontade e coragem para puxar as redes. E paciência, paciência a rodos. E a força uma dia deu por ela e nem sequer se apercebera antes que a possuía. Aprendeu os rudimentos da profissão. Decidiu: vou ser pescador. O ar salgado matinal, o cansaço que faz dormir um sono sem pesadelos e sem sonhos porque, para ele, o dia era o próprio sonho, a fantasia transformada em realidade. Agora iria trabalhar com um pescador antigo, velho, forte, sabedor, conhecedor do mar. Iria ensiná-lo porque pasmou com a vontade e a gana daquele homem. Disse que jamais teve aluno com tanto apetite de aprender. Depois o senhor Figueira compraria um barco, não sabia ainda como, mas sabia que, no futuro, compraria um barco, quando já soubesse manejar um sozinho. O dinheiro surgiria. Com o barco e sabendo pescar iria percorrer o mundo.
Voltou apenas para se despedir definitivamente do emprego, mudar de endereço, arrumar as coisas, entregar a chave ao senhorio e levar a iguana.

Os pais de Nia permanecem sem fala, mudos. Mas, recuperando-a, não lhe pregam sermões nem lhe enchem a paciência de clichés preconceituosos, afirmando ser «uma parvoíce da meia-idade», «loucura repentina» ou «a prova de que a senilidade se instala irremediavelmente», ao contrário do resto da vizinhança, que recusa obstinada a mínima das tolerâncias, para não dizer respeito. A Rua do Espanto está estuporada. O senhor Figueira, a pessoa mais certinha daqui, confiável! Logo ele! Meu Deus, o que andarão a pôr na água da rede pública?!, comentavam. Ao ouvi-los Nia compreendeu que é preciso uma pessoa mudar para ver que as outras continuam as mesmas. A sua família foi a única a felicitá-lo, a desejar-lhe a melhor sorte deste mundo. Jaime desatou em pranto ao saber que o amigo ia partir, e o choro não estacava apesar da promessa solene de daí a um ano se reverem. «Juro! Prometo! Serás o primeiro a estrear o meu barco!», assegurou o senhor Figueira, categórico, e ele acreditou porque o senhor Figueira nunca mentiu. Limpou as lágrimas com as costas da mão e disse: «Vou esperar.»

Contudo, a sua partida não correu isenta de surpresas. A Fada dos Sonhos decidiu que era a ocasião ideal e apresentou-se. Na altura Nia ajudava-o a empacotar os pertences, apesar de levar consigo uma só mala. O resto iria doá-lo. Jaime tinha ido a casa buscar qualquer coisa de modo que os dois estavam sós. De repente Dionísia ouve uma voz na mente, exclamando: «É hoje! É hoje!»

- Estranho...Nia, ouviste um zumbido?
Antes de lhe poder responder a Fadinha materializa-se em cima da cabeça dele, depois desaparece e aparece instantaneamente à sua frente, mesmo ao nível dos olhos. Ele só tem tempo de gritar:
- Cruz credo!
- Apresento-lhe uma amiga: a Fadinha. Há montes de tempo que ela desejava conhecê-lo pessoalmente.
- O...o...qu...quê...?
- Oh, Alfredo, tu nunca me vias! Eras tão cego! Levanta-te do chão e vamos conversar! Então...levanta-te!

A fada desceu até ao solo e agarrou-lhe um dedo tentando içá-lo. Esforço malogrado porque ele era pesado demais. A Fadinha, sendo fada, possuía muitos poderes, menos o da força. Assim, vendo que ele permanecia tombado e mudo, voou até à sua testa, sentou-se lá, de pernas cruzadas e olhou-o directamente nos olhos, afirmando de seguida:
- Temos muito o que conversar!
Nia, por delicadeza, saiu e deixou-os a sós. Ainda esperou acordada parte da noite por notícias da fada, mas ela não apareceu e, cansada de esperar, acabou por adormecer.