Sábado, Julho 06, 2002
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No dia seguinte, ao despedir-se dos vizinhos, o senhor Figueira fala veladamente da Fadinha, por meias-palavras, cuidadosamente escolhidas uma vez que o resto da família se encontrava presente. Nia sorri e responde da mesma forma. Fica selado entre os dois a promessa de que se escreveriam contando tudo. Jaime mete o bedelho e reclama igualmente para si missivas do senhor Figueira, que concorda. Depois pega na mala, a iguana já seguira dias antes através de um familiar, e, no fim da rua, vira-se uma derradeira vez para acenar adeus. Um adeus temporário, não eterno. Prometeu, jurou que daí a um ano se tornariam a ver. Estava prometido. Não, não ia desistir a meio. Nem pensar. Jaime, incapaz de conter as lágrimas, agarra-se à irmã soluçando. Esta, como forma de o consolar, leva-o à geladaria do tio de Cristina. Paga-lhe a taça maior, com seis sabores imersos em borbulhante chocolate quente. Jaime nem o prova. O seu semblante macambúzio e taciturno apenas se altera à chegada da primeira carta do antigo vizinho que ele lê avidamente. Nia também recebe uma. Por ela sabe que, na vila dos pescadores, o senhor Figueira conheceu uma menina, pequena («pequeníssima», escreve, «não parece ter a idade que tem»), brincalhona, mexilhona («mas muito arrumada»), de olhos tão brilhantes «que parecem dourados, tal como o cabelo», e de uma graciosidade leve, bela, que «até o mais incauto julgaria ter ela asas». Dionísia sorri-se e o mano ao vê-la deleitada em secretismos corre e arrebata-lhe a carta. A irmã põe-se a persegui-lo, mas era tempo perdido. Jaime lê a carta e depois entrega-a à irmã demonstrando ciumeira. «Hum!», diz, «Deve ser uma chata de primeira apanha, como todas as raparigas.» Encolhe os ombros e pega na consola de jogos. Dois dias depois recebe uma encomenda. Um barco, feito de raíz pelo senhor Figueira, nada de modelos. Não, desta vez a obra pertence-lhe inteiramente. É o primeiro e fez questão em dá-lo a Jaime. Este, vaidoso e cheio de orgulho, corre a exibi-lo aos miúdos da rua, a quem informa, alto e bom som:
- Foi o senhor Figueira que o fez e mo deu. Claro, ele é meu amigo!
Enquanto isso há quem, por entre espirros omnipresentes, diga de si para si: «É tempo...é tempo...é te...atchim!», assoando-se ruidosamente.
Este mesmo alguém Nia e Beta irão encontrá-lo na Feira Popular. No entanto, insuspeitas de tal, planeiam o passeio, revendo a manobra de diversão a utilizar para irem apenas as duas, sem o chato do Jaime como pau-de-cabeleira. Fica decidido. Era simples: diriam, com a maior das inocências, que a ida seria no dia seguinte ao efectivamente estabelecido. Estratégia que surtiu efeito. Põem-se as duas a caminho, rindo enquanto Jaime range os dentes em casa. No parque de diversões de Entrecampos andaram na montanha-russa, nos carrinhos de choque, gastaram dinheiro nas máquinas de jogos e tiraram fotografias minúsculas numa máquina recente. E depois comeram caracóis. Então Nia teve a brilhante ideia de comprar bilhetes para o Twister, ou lá como raio se chamava. Beta adorava tanto quanto ela andar em todas aquelas fantásticas geringonças. E alinhou. Boa, o Twister! Deve ser giro, nunca lá andei!, disse entusiasmada. Só que daquela vez Dionísia desconhecia que o Twister era daquele tipo de maquineta que lança a adrenalina para fora do espaço! E ainda para mais elas tinham acabado de comer caracóis, há que relembrar. Bom, instalaram-se e esperaram pela dança. Aquilo redopiava em voltas para trás, para a frente, ao mesmo tempo que dava voltas maiores, tudo em simultâneo: rotações, translações. Nia teve a nítida sensação de que os caracóis lhe estavam a trepar pelo esófago, de tal maneira devem ter enjoado. E a dança não cessava...rodava, rodava, rodava...o rapaz ao lado de Beta começou a deitar sangue pelo nariz.
Saem da máquina dos infernos, enjoadas, tudo girava à sua volta em turbilhão. Caminham devagar, apoiando-se uma na outra, tentando discernir os contornos das coisas. Sem darem por isso afastam-se para a parte deserta da feira, terra desabitada, sem ninguém, o barulho das luzes lá ao longe a crepitar, a restolhar por entre as lojas e as máquinas. Páram, ofegantes. O céu diminuíra de velocidade, as coisas assentavam finalmente. De súbito a quase normalidade foi interrompida por um repentino:
- Aatchiim! Aii...
Dionísia arrepia-se. O medo, o pânico instala-se nela. Não, não podia ser. Não podia ser ele...
- Atchim! Atchim!
As duas voltam-se devagar e vêem a caminhar na sua direcção o vendedor de enciclopédias, por entre espirros ruidosos, contidos num enorme lenço branco.

