Segunda-feira, Julho 15, 2002
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- O Malaquias! - exclamou Beta e largou logo o braço da amiga para se dirigir a ele enquanto clamava entredentes: «Ai arranco-lhe a blusa desta vez, se não a tiver contento-me com a pele que lhe cobre o corpo.» Dionísia queria gritar «Cuidado! Não vás!», mas emudecera e estava pregada ao chão de medo. Tremia que nem varas verdes. Vê a amiga aproximar-se perigosamente de Malazon, parar a pouca distância, colocar as mãos em ângulo agudo na cintura e em preparativos para começar a espingardar sobre o homem. Fecha os olhos. Está perdida. As duas estão perdidas. Beta ia para dizer algo, reclamar a blusa e tudo o mais, no entanto o homem não lhe dá hipótese.
- Atchim! Maldita alergia! Esta primavera dá cabo de mim com os pólens! Aaa...tchim! Ai...(assou-se).
Aproveitando a pausa Beta interpela-o:
- Com que então! - mas antes de prosseguir o discurso de uma rajada, como costuma fazer quando se encontra enraivecida, já ele a interrompe declarando:
- Elisabeth! Que prazer em ver-te! Atchim! Perdoa-me, esta alergia é dos diabos...então, sempre queres a blusa que te devo?
Ela diz que sim, faz uma pausa melodramática, o fogo dos olhos a crepitar-lhe em labaredas para fora, e prossegue depois, os lábios afilados numa única linha, quase hirtos, pedindo-lhe o favor de indicar a loja. É que regressara à Baixa várias vezes e da loja «nem o cheiro.» O homem não demonstra espanto, nem tenta negar o óbvio, apenas acena o crânio, replicando:
- Digo-te já onde ela está. Está aí, atrás de ti...
Dionísia viu Beta, quase jurava, a dar faísca. Beta, enfurecida, continha o corpo, cessava de respirar para depois cair sobre a presa como um gato de dentes afiadíssimos. Era evidente não haver porcaria de loja nenhuma atrás de si. Estavam num descampado, as lojas eram lá mais para a frente. O tipo que não a tentasse enganar que ela não estava para brincadeiras e dali não sairia sem uma peça de roupa qualquer, nem que fossem as meias. Fosse como fosse ela não ia sair de mãos a abanar. Palavra de Beta. O homem cessou os espirros ante a determinação dela, estacando o ritmo. De lenço na mão e olhos a piscar, disse:
- Vira-te. Está aí bem atrás de ti.
Beta perdia definitivamente a paciência. Se o gajo continuasse naquela treta daí a pouco punha-se a trepar paredes. Respirou fundo e, só para ter a satisfação de o apanhar noutra mentira, virou-se. E nesse instante ficou hipnotizada. A loja encontrava-se de facto lá. Dava a sensação que apenas bastara ele mencioná-la que ela num ápice se tinha materializado, como que por encantamento. Arredou a fúria, os nervos dissiparam-se por entre a imensidão de roupa de todos os estilos, cores e feitios povoando a loja. E ela que podia somente escolher uma mísera blusa! Em poucos segundos perdeu-se no interior, fascinada, em estado hipnótico, deixando a amiga pregada ao chão, a tremer de pavor. O terror subira-lhe à ponta dos cabelos e instalara-se no topo, fazendo-os arrebitar. Malazon, pensava. Só via essa palavra à frente dos olhos esbugalhados. E ele então caminhou na sua direcção, retomando o fio aos espirros interrompidos pela determinação cegante de Beta, enquanto Dionísia cerrava os olhos e encomendava a alma a Deus, preparando-se para o golpe final.
- Muito prazer, o meu nome é Barnabé! O teu é Dionísia, já sei.
Quê? Que é que o tipo dizia? Ele estava a brincar ou quê?! Não, estava a ser sádico, torturava-a primeiro com jogos mentais, dando-lhe uma falsa sensação de segurança para depois a dissipar, rindo sinistramente, o filho-da-mãe! Só podia ser! Isto irritou-a, irritação que tomava, sem se aperceber, pouco a pouco o lugar do terror paralizante.
- Então, não falas? O gato comeu-te a língua?
E ele a teimar naquilo! Era mesmo sádico. E cínico. Porque é que não se despachava logo e acabava com o suplício?
- Estou a ver que vou ter de explicar tudo desde o princípio. Bem, é assim...

