Terça-feira, Julho 16, 2002


51

A Fadinha, ao contar-lhe as peripécias do encarceramento esquecera-se de mencionar o pequeníssimo, insignificante, minúsculo, microscópico pormenor dos dois feiticeiros serem de facto irmãos.
Gémeos.
Barnabé e Malazon eram irmãos gémeos. Era só por esse motivo e por nenhum outro que os seus poderes se igualavam. Assim, por mais que se defrontassem nunca nenhum dos dois ganharia, o resultado máximo que conseguiriam obter era um empate.
Barnabé conta, numa maré de explicações, de névoas dissipadas, de brumas destruídas, permitindo a Nia discernir o contorno real das coisas. Ele conta-lhe tudo.

O rio fora obra de Malazon, seu irmão gémeo, mau que nem cobras e que em pequeno tinha o hábito de lhe partir os brinquedos, só para se divertir com a amargura do mano. O rio voltara ao normal quando os habitantes, fartos do carnaval fanático-religioso, se sublevaram, expulsando os estrangeiros. Ora era exactamente a oportunidade de que Barnabé tinha estado à espera. Com o levantamento popular o desiquilíbrio de forças entre os dois feiticeiros instalou-se, a favor do bem. Da ordem. Esse desiquilíbrio era necessário pois não era, digamos, a “quantidade” de poder que os diferenciava, mas sim a “qualidade”. Malazon era um destruidor nato, agente do caos e das trevas, o mal era o seu domínio; Barnabé, pelo contrário, pertencia à ordem, ao lado bom das coisas, era um criador e abominava a destruição e o aniquilamento.

Malazon calculou que o irmão o seguisse, pois também ele estava a par do fim do castigo da Fada dos Sonhos. Sabia que teria de enfrentar um adversário de peso, impossível de derrotar a não ser que começasse a arranjar aliados. E rápido. Edgar foi escolhido. Mas, tal como a fada dissera, o enfurrejar de séculos ou quem sabe a avidez, cegou-o quanto ao montante de força a utilizar e acabou por destruir o padrão de Edgar. Em resultado ele transformou-se numa criatura de inteligência extrema, mas sem uma pinga de emoção, quase sem humanidade, totalmente desprovido de sonhos. Malazon tinha de conter-se na força pois o aniquilar do padrão de sonhos era-lhe contraproducente já que o impedia de controlar as pessoas. Como um parasita instalava-se nele subrepticiamente, dedilhando-o com a leveza e a crueldade de uma aranha numa teia, de modo a subjugar o seu dono. Mas sem padrão não havia meio de manipular quem quer que fosse. E mesmo assim por pouco tempo porque era para ele um acto penoso e cansativo. O que na verdade lhe interessava era a conquista do verdadeiro poder da fada dos sonhos. Com isso controlaria toda a gente, o mundo inteiro!, pelo tempo que desejasse sem jamais se cansar.

- E o que aconteceria à Fadinha? - inquiriu Dionísia.
- Morreria. As fadas, apesar de serem imortais, sem poder morrem.
Dionísia engole em seco, aperta o cabelo e cerra os olhos. Meu Deus!, não pensara que o caso fosse assim tão grave. Pensava que o máximo que o feiticeiro maligno lhe poderia fazer era privá-la da liberdade, uma tortura impediosa e bastante cruel para quem conhecesse o carácter irrequieto e vagabundo da sua amiga fada. Na verdade era esse temperamento, essa forma de ser despreocupada e leve que a levava a colocar em risco a própria vida. Não ligava, não dava a mínima, agindo como um ser omnipotente e imune a tudo. Oh, a destravada da mioleira, era o que ela era!, isso sim, enfurecia-se Dionísia. Em vez de se precaver, tomar cautela e evitar riscos desnecessários - não! Estava-se nas tintas e até fazia pior.

- Mas ela é assim, sempre o foi. Vá-se lá convencê-la! - comentou Barnabé, encolhendo os ombros em sinal de resignação. Conhecia-a bem, sabia ser impossível alterar-lhe a índole. Bom, mas o que importava agora era concentrarem-se e esperarem pela próxima batalha. Era preciso estarem preparados. E arranjar aliados, cúmplices para a sua luta, de modo a desiquilibrar as forças do maninho mau, aquele malandro que em miúdo lhe partira a espada de brincar. Nia sorriu um pouco, pensando que, em comparação, ela e Jaime até se davam bem...relativamente, isto é. Aliados...quem?, pergunta.
- Quem é que havia de ser? Tu!
«Eu?...» Barnabé replica que não são a magia, nem os poderes supra-humanos que contam assim tanto; por vezes, e não raras, o que faz toda a diferença é o sentir, o gostar. A emoção, a emotividade, a vontade de proteger e acudir. O afecto sincero nutrido por alguém. Ela que não se preocupasse, haviam de ganhar, estava certo disso, confiante.