Segunda-feira, Julho 22, 2002


52

O barulho lá ao longe fá-la pôr-se à escuta. Ouve gritos e risinhos débeis, de contentamento, de adrenalina a rasar as rotas do concorde; ouve o estrépito das máquinas e atenta nas luzes, piscando. Ali o ar parecia menos pesado, menos denso, mais livre. Havia espaço para reparar nas coisas e sobretudo para uma conversa, um diálogo. Voltou o olhar para Barnabé, o feiticeiro bom, cópia chapada, química, do pérfido irmão. Assoava-se de quando em quando, maldizendo os pólens da primavera que o punham naquele estado lastimoso. Reclamava: «Sabes lá...todos os anos é a mesma história...» E espirrava no seguimento. Recordou o senhor Figueira, com olhos minúsculos, escondidos por detrás das lentes da grossura de fundo de garrafa. «Tenho de lhe escrever», pensou. «Amanhã mando-lhe uma carta», decidiu.

Carta? De súbito veio-lhe à lembrança a história que a mãe contara sobre a carta fujona. Teria sido ele? Perguntou-lhe e a resposta veio afirmativa num acenar de crânio, em simultâneo com outro a...atchim! Santinho, disse. Obrigado, agradeceu Barnabé. Sim, tinha sido ele. A neta para quem guardara a blusa que Beta conseguiu comprar, ludibriando os seus protestos («Nem imaginas a persistência que aquela rapariga tem!»; «Imagino, imagino...», respondeu Nia, com um sorriso de entendida), estava internada no hospital por causa de uma apendicite aguda.

- E não me perguntes porque não a tratei eu. Posso ser feiticeiro, mas não sou médico! Para cada coisa há especialistas.
Evidente, redarguiu Nia, isso nem se colocava em questão. Mas, prosseguiu ele, visitara a neta após a operação e ao lado dela viu uma garota, dormindo. No móvel que partilhavam estava pousado um envelope. E na gaveta estava a carta. Mas o envelope já fora fechado, com endereço posto e remetente. Ia para corrigir a situação quando entra, apressadíssimo, um enfermeiro que pega na carta e desaparece a galope pelo corredor.

- Ora eu estou velho, não tenho pernas para nada, já mal posso andar e...e...
- E?
- E...atchim! Ai, malditos pólens...bem, o único remédio foi lançar um sortilégio à carta.
- Olhe que resultou às mil maravilhas. A minha mãe contou-me.
- Eu sei! Cá para nós, podia ter resolvido aquilo doutra maneira, mas assim foi mais engraçado!
Ela sorriu e pela primeira vez alegrou-se por a propensão de Beta em demorar horas na escolha de uma simples peça de roupa finalmente funcionar a seu favor. Podia conversar à vontade com Barnabé sem medo de interrupções. Respirou fundo e viu as horas. Arregalou os olhos.
- Já passa da meia-noite...! Vou ouvir dos meus pais. Já os ‘tou a ver a desatinar! Lindo...era para estar em casa às onze.
Como comentário escutou apenas estridente espirro.

«Tô mêmo a imaginar a cena toda...: nós aqui aflitos, ao menos podias ter telefonado, quando sais com a Beta é sempre a mesma coisa e não venhas com ideias de saíres no próximo mês. Ah, o livro ‘tá cancelado.» Suspirou fundo. Com o livro não se incomodava, nem com as as saídas. Mas não gostava de dar preocupações desnecessárias aos pais. «De certeza que o pirralho não vai perder a chance de me moer o juízo. Bem feita, toma lá que já aprendeste por não me teres levado, é o que ele vai dizer.» Mas não se importava verdadeiramente. Temia muito mais Malazon. Malazon...recordou-se da primeira vez em que o vira. Tinha sido no museu onde fora com Beta. E depois aquela algazarra toda, o pandemónio geral, a contradança das figuras pintadas. Fartou-se de o procurar no fim, mas não o viu em lado nenhum. Tinha-se dissipado por entre as moléculas do ar. Afinal de contas para onde é que ele teria ido? Pôs a questão a Barnabé que foi rápido a responder: para o sítio óbvio. Metera-se num dos quadros, de certezinha, a observar escarninhamente o nervosismo de Nia, enquanto maquinava naquela mente diabólica uma visita à sua mãe com o mais seguro dos disfarces: vendedor de enciclopédias. Mas, uma coisa continuava a não entender, porque tinham os quadros parado subitamente? E naquela desordem, naquela desarrumação...Ele cansou-se, respondeu Barnabé. Ele é como uma semente do caos, de balbúrdia e confusão. Os poderes extraordinários são contrabalançados, postos em cheque, digamos, devido à fatiga que advem rapidamente. «Só por aí temos alguma hipótese de o vencer», diz Barnabé. Mas o irmão não é parvo e é paciente. Sabe que não vale a gastar energias se nada ganhar com o seu dispêndio. Prefere esperar a altura certa, concentrar o poder e desferi-lo num único e fatal momento. O rio e os quadros constituiram uma espécie de jogo mental, uma demonstração de poderio para instituir pânico que conduzisse à desorganização, à paralização completa da pessoa.

- Se nos mostrarmos como gigantes, mesmo sem o sermos, o mais provável é as pessoas atentarem nessa imagem exterior...e acreditar nela. Não acredites, Nia. Ela corresponde à realidade, sim, mas só em parte. A fraqueza, o seu calcanhar de Aquiles, ele esconde. Mas nós sabemos que existe, e é por aí que atacaremos.
- Mas...disse-me que os vossos poderes são em tudo equivalentes, isto é, a sua força. Então, na fraqueza, no cansaço súbito não serão também iguais?
- Sim, é verdade. Mas eu conto contigo, Nia. Não tenhas medo, vamos vencer.
Sorriu. Vencer, sim, bem o queria, mas quando? Para quando o ataque? O elemento de surpresa pertencia ao seu irmão e não a eles.
- Também é verdade. Não sei, de facto, por onde ele pára. Como possui a capacidade de ocultamento um género de «véu» mágico desce sobre ele e é-me impossível encontrá-lo. Mas a parte boa é que sou igualmente capaz de me esconder da mesma maneira.
- Então...como é que vai saber, quando ele atacar?
- Ele é capaz de esconder-se, mas é incapaz de dissimular o mal que pratica. Quando o meu irmão agir, não te preocupes: estarei por perto. Confia em mim como eu confio em ti.

Esse é que era o problema. Ou, como a avó dizia, aí é que a porca torce o rabo. Não tinha confiança nenhuma em si. Não via como poderia auxiliar a fada, sobretudo contra um mago tão poderoso. Franziu o sobrolho, preocupada. Barnabé compreendeu o que se passava no íntimo dela e deu-lhe uma palmada no ombro, sorrindo. Nesse instante Beta sai da loja, envergando uma blusa magnífica que, se correctamente ajustada, se transformava num curto vestido de noite.
- Epá...estás toda elegante!
- Eu sei...- suspira Beta languidamente - é um dom...