Sexta-feira, Agosto 02, 2002
53
Nia não se enganara. Em casa os pais ralharam com ela. O pai tinha andado às voltas pelo recinto, sem a descobrir. Desencontraram-se. Resultado: sair, nem pó, nem ao cinema, nem à geladaria com os amigos, nem fosse ao que fosse durante um mês. Ah, e nada de livro também. Nia acatou. Que remédio. Jaime começou a gozar com ela, mas o pai calou-o rapidamente afirmando que se continuasse a gozar com a má sorte alheia lhe dobrava o castigo.
Sem poder sair lia no quarto os livros solicitados à estante mágica. Bom, ao menos sem livros é que não ficava! O problema é que só se podia encontrar com Beta na escola, uma vez que o castigo incluía também a proibição de visitas. Não que isso incomodasse Beta. Tinha arranjado novo namorado e como de costume nessa situação não ligava pevide à amiga. A fada acompanhava o senhor Figueira e não a visitava, de modo que se encontrava um bocado sozinha. O que até não a chateava muito, verdade seja dita. Dava-lhe tempo para pensar no que fazer quando Malazon decidisse dar as caras. Nos entretantos entretinha-se a observar Jaime a pôr o barco do senhor Figueira em cima da tartaruga, enquanto ela sumia pela janela. O rosto alumiava-se num sorriso. Contudo o semblante de novo retornava às núvens do costume recordada a segurança da Fadinha posta em risco. Estava, no entanto, mais descansada por saber poder contar com Barnabé. Há-de tudo correr bem, dizia-se, numa fraca tentativa de auto-convencimento. Pois, há-de tudo correr bem...
Uma noite adormeceu em cima de um livro e acordou com os puxões da Fadinha no seu cabelo. Vê-a satisfeitíssima, contente, a exultar de gaúdio. Conta que acompanha o Alfredo, viajando incógnita nos sonhos dele, e os outros pescadores quando vão para o mar-alto em faina. Diz que adora o cheiro da água, do sal e da brisa marinha, por entre cabriolas de regozijo. «Ah! É inebriante!», exclama. E depois desaparece, novamente sem sequer se despedir. Nia nem lhe pôde contar acerca de Barnabé.
Mas tudo isso, o medo e a alegria entrelaçados, os perigos futuros, tudo se distanciava à medida que os olhos se fechavam vencidos pelo sono.

