Domingo, Agosto 11, 2002






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Iniciaram obras na Rua do Espanto. Esburacaram a rua para arranjar a conduta de água que só dava problemas quando chovia. Chovia e cessava a água nas torneiras, era sempre a mesma história. O buraco era grande e algumas vizinhas afiançavam que quem tivesse a má sorte de lá cair arriscava-se a conhecer o diabo em pessoa.

A chatice é que, mal aberto o buraco e começadas as reparações, houve que parar tudo. Porquê? Encontraram-se vestígios arqueológicos. Um esqueleto, para se ser mais preciso. Ao princípio ainda julgaram que fora vítima de macabro crime, mas mal a polícia chegou ao local viram que aquilo não era crime, coisa nenhuma. Nunca tinham visto um tipo ser morto e enterrado com pratos, tijelas, bilhas e outros objectos. Aquilo era caso para os tipos que andavam sempre a cavar na terra. Como é que era o raio do nome? Qual agricultores, qual quê! Arqueólogos, isso.

Contactada a Câmara Municipal chegou prontamente o arqueólogo Aristides, para clarificar as coisas. Sim, tratava-se realmente de um esqueleto. Mortíssimo, mais que morto: defunto. E ele não morrera lá muito satisfeito, a fazer juízo pelas repetidas marcas de flechas e lanças na caixa toráxica, umas mais recentes que outras e uma enorme e profunda que certamente fora a última e lhe cortara o pio. A julgar pelos objectos que o acompanhavam o senhor esqueleto era mouro, morrera aí há seis, sete séculos e numa batalha, provavelmente contra os cristãos. Era bem alto, mais de um metro e oitenta. Os miúdos da rua concentravam-se, ávidos, à volta do buraco ouvindo a explicação que o arqueólogo debitava lá do fundo.

Removeu-se o achado arqueológico para o museu, para posteriores e mais aturadas investigações. Os putos aprenderam que quando as coisas já são muito, muito velhas deixam de ser pessoas mortas para passarem à condição de achado arqueológico. Sendo maus que nem cobras andaram a semana inteira com esta na boca, como o credo, invectivando todo o pobre desgraçado de bengala de achado arqueológico.
No dia seguinte regressaram os trabalhadores para o prosseguimento das obras. Mas aquilo parecia enguiço, problema atrás de problema. Juraram, a pés juntos e em asgares de pânico, ouvir uma voz árabe, vinda das lonjuras (e funduras) do tempo, entoando cânticos tristes, melancólicos. Soturnos. Aguentaram o primeiro e o segundo dia, mas ao terceiro, ala que se faz tarde!, pernas para que vos quero! Não, brincas! Vieram outros, mas sem as ganas dos primeiros, pisgaram-se ao fim de duas míseras horas. De maneira que a Rua do Espanto, cada vez mais atónita, se viu subitamente adornada com um buraco no meio dela e que talvez desemboque no outro lado do mundo, segundo algumas almas menos bem informadas.

O arqueólogo Aristides, alheio a tudo, regressou com o intuito de prosseguir as investigações. Queria saber a época exacta do senhor defunto, o esqueleto desepultado do passado e que tinha vindo à tona do presente. De dedo mindinho em riste desatou a percorrer rua e arredores na certeza de achar montanhas de sítios arqueológicos, carregadinhos de achados arqueológicos com montes de artefactos!, afirmava, exclamativo. Rúben acompanhava-o nessas deambulações patrimoniais, não entendia metade do parlapié do tipo, todo intelectual e cultural e essas coisas chatas, considerava o miúdo, divertindo-se, contudo, com a figura do arqueólogo despistado e, verdade seja dita, até se interessando pelas coisas que ele dizia. O arqueólogo, ao ar interrogador do puto quando ele se punha a falar de temas incompreensíveis, explicava:

- Artefactos são os objectos que acompanham os achados arqueológicos. Por exemplo, pratos vasos, bilhas que acompanham as campas e são lá postos quando a pessoa morre. Mas os mesmos objectos podem ser encontrados nas casas, no espaço doméstico, que é como quem diz a cozinha. Também chegam a nós pontas de seta, que são a prova da existência de flechas, mas só nos chega a ponta porque o resto perde-se com o tempo, já que é feito de materiais facilmente deterioráveis como a madeira e outras fibras vegetais. E madeira, roupa e coisas frágeis não duram séculos debaixo da terra.
- Então quer dizer - concluía Rúben - que a minha fisga é um artefacto?
- Sim! Exactamente! Porque é um objecto que tu usas.
- Fixe! Então eu quero ser enterrado com a minha fisga!

O arqueólogo sorriu com a tirada do puto e lá continuou o trabalho. Tratava-se de alguém um pouco aluado, em permanente despiste com o mundo. Se lhe aterrasse uma nave espacial na carola - não a veria. Certa manhã chegou à Rua do Espanto carregando em cima do capot do jipe um gigantesco vaso. A planta de ondulantes folhas verdes impedia a visibilidade, mas mesmo assim não a viu. E ainda por cima em tão estranho sítio. Desceu do carro, os vizinhos a olharem-no boquiaberto, fumou um cigarro na maior das tranquilidades, encostado à porta do jipe, saboreando a frescura do dia. Depois esmagou a ponta no interior do vaso - e continuava sem vê-lo.

Rúben aproximou-se dele e perguntou-lhe porque tinha um vaso em cima do jipe. "Qual vaso?", replica Aristides aluado. Rúben aponta, ele arregala os olhos, leva a mão à testa e diz, suspirando resignadamente à sua palermice, que o comprara para a mãe. Até tinha ido a casa dela de propósito só para lho oferecer. Mas, lá chegado, não sabia onde tinha posto o raio da planta.
Arrumou-a e foi dar uma volta pela rua, acompanhado, como sempre, por Rúben. O arqueólogo Aristides fazia uso de um método bem particular na descoberta de sítios arqueológicos. Antes convém definir o próprio conceito de sítios arqueológicos. Tanto se trata de um lugar habitado há muito tempo atrás, como de um lugar onde ninguém tivesse vivido, mas onde as populações tivesse enterrado os seus mortos ou ainda lugares que nem era uma coisa nem outra, mas apenas locais de passagem, onde as pessoas houvessem deixado artefactos. Perdendo-os, por exemplo, depois de passarem a noite em redor da fogueira. Enfim, um sítio arqueológico era qualquer local que registasse vestígios humanos antigos. Ora o método normal para tentar encontrar tais sítios era a prospecção.

- O que é isso? - inquiriu Rúben.
- É, basicamente, olhar para o chão e ver se se encontra alguma coisa antiga. Por exemplo telhas romanas que são diferentes das que se usam agora. Se encontrarmos telhas romanas no terreno, à superfície, que dizer que existiu por aqui, há muito tempo atrás, uma villa romana.
- Uma villa? Assim uma rua como a nossa?
- Não. Era mais uma quinta muito grande.
- Ahhh!...

No seu método particular não fazia uso dos olhos. Como um médium apontava o crânio para o céu (quiça numa tentativa de receber vibrações cósmicas iluminadoras), cerrava os olhos - e caía de trombas no chão. Depois começava a apalpar o terreno, sempre de vista firmemente cerrada, cheirando-o à maneira de um cão perdigueiro. Rúben deliciava-se com a cena e imitava-o, divertidíssimo. Então o arqueólogo detinha-se, apontava um dedo para o solo e gritava: "Aqui!", constituindo este "aqui", sempre, um sítio arqueológico. Certa vez desatou numa sangreira de "aquis", ao topar com um a estourar de artefactos de diferentes épocas. Aquele local fora habitado por gentes do paleolítico, neolítico, calcolítico, idade do ferro e por aí adiante até aos dias actuais. Um vizinho, mal soube, logo afiançou serem os presentes habitantes da Rua do Espanto os ilustres descendentes de gloriosos antepassados neandertais. Mas exagerava. Aristides pôs as coisas no seu devido lugar explicando que os neandertais se extinguiram e os homens actuais pertencem a uma outra linha de evolução humana, completamente diferente da deles. O seu sonho era encontrar, algures, exemplares vivos dessa espécie. Mas sabia ser impossível. Haviam morrido há milhares e milhares de anos atrás.