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Jaime andava de cabeça perdida. Porquê? Porque a tartaruga se perdera. Ao princípio Dionísia julgou andar mãozinha maléfica de Malazon por detrás do assunto, mas logo descartou a ideia pois nem a fada nem Barnabé a haviam contactado. Forçosamente o motivo devia ser outro. Não se tratava do primeiro desaparecimento da tartaruga voadora. Galdéria como era cultivava o boémio hábito de passar uma noite fora, retornando no dia a seguir. Para tal deixavam-lhe sempre a janela da sala aberta. Portanto não ligaram quando falhou em aparecer na primeira noite. À segunda porém a preocupação cresceu e instalou-se definitivamente no seio da família cinco dias passados sobre o seu esvanecimento. Jaime soluçava pelos cantos, não havia nada nem ninguém que o tirasse daquele desamparo. De modo que se decidiu optar por solução drástica. Contactou-se a polícia, informando sobre o desaparecimento misterioso de uma tartaruga voadora. Sinais particulares: carapaça verde.
A polícia fartou-se de gozar e fez questão em inquirir se acaso não andaria ela em farra com o coelhinho da Páscoa a caçar gambuzinos. Como a recorrência às autoridades devidas não deu resultado, a família decidiu fazer uso dos seus próprios recursos. Nia elaborou cartazes no computador e andaram a colá-los nos arredores. Além disso procederam também a investigações simples, perguntando às pessoas se, por acaso, não teriam visto uma tartaruga voadora. A maioria desatava a rir, olhando muito em redor, tentando descortinar a localização das câmaras. Claro, aquilo só podia ser para os Apanhados! Outros, no entanto, arrepiavam caminho, julgando tratar-se de uma família de maluquinhos. O anúncio no jornal constituiu outro beco sem saída. Houve um único telefonema de um bando de engraçadinhos, afirmando que uma tartaruga voadora, não senhor, não tinham visto, mas se um bisonte com barbatanas, bexigoso e a supurar de sarna servia. O pai correu-os aos palavrões e desligou-lhes o telefone nas fuças. Isto já não há respeito!, resmungou entredentes.
Passada uma semana Dionísia despertou durante a noite, corroída por um pressentimento avassalador, daqueles que sucedem uma vez na vida e é impossível ignorá-los porque tudo em nós nos diz estar certo. Sem fazer barulho, abafando os ruídos, saiu de casa a meio da noite e dirigiu-se para o local das suas certezas e premonições: o campo de escavação. Estava deserto, se bem que o escuro da noite, encerrada num breu inabitual, pouco mais a deixasse ver. Até o céu escondera as estrelas, quem sabe numa súbita crise de ciúmes. Não descortinando um palmo à frente do nariz deu um passo mal dado e acabou por cair dentro da escavação. Sentiu-se cair durante um período largo de tempo, não fazia ideia que o buraco era daquele tamanho, até que, por fim, aterrou dolorosamente no solo.
O espanto fê-la estarrecer.

