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Caíra numa cidade, antiga - e era dia. O sol ia alto no firmamento azul claro. Pouco a pouco uma pequena multidão foi-se chegando perto e encarou-a sem pasmo, na verdade exibia uma indolente resignação que a desconcertava. Notou que todos vestiam à antiga romana, com túnicas que enrolavam à volta do corpo, caindo em pregas, e calçavam sandálias. Um jovem, talvez de dezasseis anos, segurava a tartaruga que, pelos vistos, já não era assim tão voadora.
- Outro - comentou um velho com toda a aparência de snob, - outro - repetiu - que cai do céu - e afilou os lábios numa linha cortante ao mesmo tempo que suspirou aborrecido.
À pergunta de onde está respondem-lhe que se encontra em Atucauca. «Raio de nome tão escanifobético», diz de si para si.
Indaguam seguidamente da sua proveniência, mas com uma cara de enfado que não enganava nem um ceguinho. Queriam lá saber! Estavam-se nas tintas! Perguntavam por perguntar. Isto irritou Nia, irritação que se veio juntar ao sentimento crescente de abandono, acabando por se transformar em raiva miudinha. Dionísia informa vir de Lisboa. Bom, não morava exactamente na cidade, ficava lá perto. As pessoas emaranhadas em túnicas olham umas para as outras e dizem desconhecer o sítio. Ela, então, arrisca uma pergunta: «E Olissipo? Conhecem?» Evidentemente que conheciam! Os rostos deles clarearam e, pela primeira vez, sorriram-lhe. Mas o maior desejo de Nia é dar corda aos andantes e pirar-se dali. Com a tartaruga. Quando inquere sobre a forma de sair dali, afirmam-lhe ser tal impossível, pelo menos de uma forma deliberada e consciente.
Explicam-lhe que há pessoas a cair constantemente do céu, de dia ou noite, e nos locais por vezes menos apropriados. Não é que ontem tinha caído um mesmo em cheio nas águas termais? O pior não era isso: o pior é que tinha trazido o camelo! Mas, mal arribou, partiu. Ao sair da água (com o camelo), num ápice o espaço sugou-o e tudo o que dele restou foi uma enorme poça de água. «Não é que nos incomodemos por tão, digamos, inesperadas visitas. O problema é que, os que ficam durante algum tempo, não se adaptam aos nossos hábitos. Mas logo que se acostumam: Puff! Desaparecem sem deixar rasto. Ah, é uma chatice...», afirmou o homem velho de ar snob, a erguer constantemente o cenho à medida que lhe avaliava as...roupas? Aquilo seriam roupas? Uma cidade civilizada certamente não admitiria que uma cidadã se vestisse daquela...forma! A fúria de Nia aumentava a cada nova medição do velho. Como sair dali, era a sua questão principal. Mas a pequena multidão que a rodeara há instantes escasseava, escoando-se pelas frinchas do tédio que a sua aparição significava. O velhote cheio de triques repete que não sabe, aliás, ninguém sabe. O mais que pode fazer é esperar que o espaço a sugue e a devolva ao sítio de onde vem. Fora isso... De resto, notou, não estavam dispostos a ajudá-la. De mais a mais era sempre uma perda de energia inútil. Isto rebentou de vez com os fusíveis de Dionísia.
Perdeu as estribeiras e arrebatou a tartaruga ao jovem que a segurava e se entretinha numa observação demorada das suas estranhas vestimentas. Nia larga a correr e ele, atabalhoado pelo inesperado roubo, segue-a, mas com pouca convicção. Outros vão igualmente no seu encalço, mas desistem pelo caminho. Quando se vira repara que não a perseguem já. Pára perto de um riacho, ofegante da corrida, e coloca a tartaruga no chão. Enquanto recupera o fôlego ouve um zumbido perto de si. Eufórica vira a cara e recebe uma valente ferroada no rosto. Pensara ser a Fadinha, afinal era uma abelha. A arder de dor ajoelha-se e molha a face dorida, enquanto cerra os olhos. Quando os abre descobre a Fadinha ao seu lado, inclinada de modo a ver-se reflectida na água. «Oh, que belo!», afirma e voltea sobre si mesma como um fuso. «A água é um material mágico. Reflecte as variações da nossa alma em líquido. Não é como um espelho, estupidamente estático, mas percorre a imagem com ondas nunca iguais. Muda e no entanto a imagem percebe-se sempre como a mesma entidade», explicita. Dionísia, porém, não estava virada para filosofias. Doía-lhe terrivelmente a face, que comprimia o que apenas lhe aumentava a vermelhidão e o ardor. «O que foi?», indagou. «Uma abelha usou a minha bochecha direita como pista de aterragem», esclareceu Nia. «Oh, a malandra!» A Fadinha colocou as mãoszinhas azuis sobre o seu rosto, em forma de concha. Nia sentiu o calor e o espigão saiu de imediato. «Obrigada», disse.

