58
A Fadinha estava com Alfredo quando de repente uma alteração alarmante se produziu no padrão de sonhos de Dionísia. Por ele soube igualmente do seu paradeiro e num eclipsar de olhos, num rebentar de bola de sabão, esvaneceu-se reaparecendo na dimensão onde ela e a tartaruga tiveram o infortúnio de cair.
- Não sou a primeira - informa. - Parece que aqui estão constantemente pessoas a cair do céu. Tantas que já nem lhes ligam, vê lá tu.
- Sim, eu sei. Só que provêem de outras dimensões. É raríssimo virem da tua.
Dionísia não entendia como raio é que semelhante coisa poderia ocorrer. A fada explicou-lhe que as duas dimensões eram paralelas e, por qualquer razão, se entrecruzaram. Fosse como fosse a fada iria ajudá-la a sair dali e a voltar para casa, juntamente com a tartaruga e a Albertina. Nia arrepiou os ouvidos. A Albertina? Ali?
- Sim, não sentiste o cheiro do pão?
- Não.
- É por estar longe. Mas espera aqui que eu já a trago - e puff! Desapareceu.
Poucos segundos decorreram e já ao longe descortinava uma figura, numa correria desenfreada em sacolejos de braços e pernas frenéticos, berrando o seu nome histericamente: «NIIIIAAAA!!» Mal a alcançou pôs-se a abraçá-la com sofreguidão, desconjuntando-lhe o esqueleto em vigorosos apertões. A Dionísia quase lhe saíram os bofes pela boca.
- Dona Al...ber...ti...na! Hunff! Dei...deixe-me...res...pirar!
- Ai desculpa! Como é que vieste parar aqui? Ai meu Deus...! Que situação...arranjaste cá um sarilho! Olha que eu caí num buraco esquisito há um mês e tal e vim parar a esta terra de doidos! Já reparaste como se vestem?! Ridículo, não é? Lençóis, é o que parece, lençóis! O pior é que está sempre a cair gente aos trambolhões do céu! No outro dia, estava eu a amassar a farinha do pão (já que estava aqui, o melhor que podia fazer era ocupar o meu tempo a trabalhar!), e caiu-me mesmo ao lado um tipo estranhíssimo, de olhos rasgados (oriental, sabes?), todo vestido de peles, baixote, a brandir uma espada e a perguntar pelo cavalo.
- Mongol - explicou ela.
- Não, não me chegou a dizer o nome do cavalo. Nem o dele. No instante seguinte desapareceu! É uma terra de doidos varridos! Vê lá tu que ninguém me ajudou! A minha única safa foi o meu ofício, se não fizesse pão bem que podia morrer de fome!
O pão! O pão! Do fundo do crânio uma ideia brilhante envolveu Dionísia num misto de crédula certeza e divino milagre antecipado. O pão poderia ajudá-las a pisgarem-se daquele antro de doidos, sem o mínimo senso de hospitalidade.
De súbito o sangue gelou-lhe nas veias. A fada sapateava, sem lograr tocar um só fio de cabelo, na cabeça de dona Albertina, numa imitação bem conseguida de Fred Astaire. (Ou seria Ginger Rogers?) Bailava em seu redor, desviando-se um momento antes de ser vista por ela.
Dona Albertina, notando Dionísia de faces congeladas e engolindo em seco, julgou ser por preocupação e responde à pergunta da miúda, temendo que a resposta lhe agravasse o sentimento de desespero, do medo de ficar para sempre retida em tão estranha terra.
- Infelizmente, aqui o pão não faz voar ninguém. Andam todos muito rentinhos à terra. Foi uma tremenda desilusão porque, no início, essa também foi a minha ideia.
Quedaram-se ambas mudas e sem consolação possível. Mas Dionísia esquecia-se de alguém muito importante e que acabou por tirá-las todas daquela alhada.
- Pega na tartaruga e coloca-a sobre a tua cabeça! Agarra nela como se fosse um chapéu - ordenou a fada.
- Estranho, Nia...ouviste um zumbido?
- Eu...? Não! Deve ter sido impressão sua!
- Faz como eu te disse! - repetiu a fada.
- Lá está ele outra vez! - insistiu dona Albertina.
Na altura Dionísia pensou que a Fadinha endoidara, mas enfim, fez o que ela lhe tinha mandado. A tartaruga não apreciou a brincadeira e começou a mexer freneticamente as barbatanas.
- Mas...o que é que tu estás a fazer?! - exclamava, incrédula, a padeira.
- É uma ideia que me veio de repente. Olhe, agarre-se a mim.
Estranhando aquilo, mas já estando por tudo, pôs-lhe as mãos ao redor da cintura e carregou o cenho, como que dizendo: «Vamos lá ver no qu’isto dá!»
A Fadinha ordenou:
- Agora voa!
- Eu devo estar a ouvir coisas! Lá está o zumbido de novo!
- Não ligue, deve ser do stress...
- Voa! - ordenava a fada. Mas como é que raio ela queria que Dionísia o fizesse?! Num microssegundo a resposta fez-se clara. Não era para ela que a Fadinha estava a falar: era para a tartaruga.
Num ápice a tartaruga elevou-se, levando Dionísia e a padeira. Esta gritava alto:
- Virgem Santííííísimaaaaaa...!!!
Entraram pelo céu azul e elevaram-se no ar até se distinguir um buraco acastanhado. Por fim pararam, sairam dele e poisaram ao lado da escavação. Já era dia. Os arqueólogos trabalhavam na altura. Ficaram um bocado surpreendidos.

