Quinta-feira, Outubro 31, 2002

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Nia, dona Albertina e tartaruga são recebidas com o espanto que é de prever tendo em conta que haviam saído das entranhas de um campo de escavação que, na aparência, não era assim tão fundo. De regresso a casa Jaime agarra-se à irmã, como uma lapa numa rocha banhada pelas ondas marinhas, beijando-a com sentido sentimento. Ela até pasmou com tanta emoção fraterna. De seguida amanda-se à tartaruga, apertando-lhe vigorosamente a carapaça, de lágrimas nos olhos. O ritual é imitado pelos pais que, na embalagem, o estendem a dona Albertina, a padeira desaparecida.

A princípio reticentes, creem por fim na veracidade da história contada pela primogénita, secundada em cada pormenor por dona Albertina. Em relação à cara inchada Nia responde, roseando ligeiramente a bochecha que não fora picada, com a explicação de uma ferroada de abelha. A mãe insiste em pôr manteiga, Nia refila, mas ela refuta os seus protestos. Enquanto besunta a cara da filha, dona Albertina expõe ao pai pormenores do seu desaparecimento. Caiu num buraco, diz, pouco após o término do percurso da carreira que liga Lisboa a Évora. Anoitecera suavemente, o horizonte deixava ainda adivinhar flagrantes laivos de cores vermelha e laranja, enquanto se alongava por cima num profundo azul progressivamente mais negro. Ia em busca de táxi que a transportasse ao seu destino final e - catrapumba! - caiu num buraco. Ainda por cima esquisitíssimo! Parecia que levara meia-hora a cair. Ao atingir o solo notou o desaparecimento do crepúsculo e da noite. Era dia e o céu exibia-se em azul claro, pontoado aqui e além por farrapinhos de núvens, caminhando ao sabor de brisas suaves. O pai questiona-a àcerca da aldeia para onde supostamente se dirigira. Informa-a de que um dos vizinhos da rua, inconformado com a sua partida, fora lá de propósito em busca dela. Regressou com a notícia de que lá ninguém a conhecia. Dava a impressão que a padeira se desmaterializara. Dona Albertina replicou que o provável era que «o moço se tinha enganado na aldeia». Existindo duas com o mesmo nome, diferenciando-se uma da outra como «a de baixo e a de riba», ele se calhar fora à de riba quando a sua era a de baixo. Era um engano comum. Findas as explicações a padeira levantou-se num movimento ágil, batendo ambas as mãos nos joelhos, e informou-os não ser já sua intenção reformar-se. Pelo contrário, queria retomar o ofício. A estada naquela «cidade de doidos, onde as pessoas se enrolavam em lençóis» fê-la aperceber-se que a sua identidade se firmava no ofício de padeira. Sempre se nomeara a si própria primeiro como padeira e só depois como Albertina.Portanto ficaria. E a morte que a reformasse. Em jeito de agradecimento, num gesto de gratidão pura, decidiu presentear a família da sua salvadora com pão grátis enquanto habitassem na Rua do Espanto. O pai, numa visão, viu de novo os portões do Paraíso abrirem-se de par em par.

O sapateiro, furioso por ter perdido tanto dinheiro no negócio, concorda em vendê-lo à padeira. Dona Albertina, de modo a evitar que as pessoas desatassem a voar descontroladamente, institui a regra de que a cada pessoa seria apenas vendida uma quantidade máxima de pão. A maioria refilou, mas calaram os resmungos à sua ameaça de se mudar para outra freguesia. Mas quem se mudou mesmo foi o sapateiro, ao notar que, mais uma vez, os sapatos não resvalavam nem num grãozinho de pó. Empacotou família e trabalho e ala que se faz tarde.

Na noite da vinda de Nia a fada dos sonhos foi ter com ela, já todos dormiam. Explicou-lhe que a tartaruga não voara porque com o tombo, o susto fora tanto e o medo crescera-lhe, impedindo-a de regressar por vontade própria.
«Mas», disse Nia baixinho «uma coisa que eu continuo a não compreender é o facto de eu e as pessoas da outra dimensão nos entendermos tão bem. Não houve problemas de comunicação, parecia que estávamos a falar a mesma língua.»
«Ah», retorquiu a Fadinha, executando uma pirueta no ar, «isso é porque pessoas de dimensões diferentes entendem-se sempre. É o que acontece que connosco.»
«Compreendo...» Baixou os olhos e brincou com as mãos, sem saber onde as pôr, envergonhada com a pergunta que estava prestes a fazer.
«Quanto tempo mais vais ficar com o senhor Figueira?» e as colinas planas da face remorejaram em ondas escarlate (uma mais do que a outra). Estava embaraçada com os ciúmes que se viam à distância e que a fada, com certeza, adivinhara. «Oh...», respondeu, «tenho de estar perto dele, para melhor o ajudar. Mas tu sabes que podes sempre contar comigo.» De facto a fada notara a ciumeira, sem sequer ter recorrido ao padrão dos sonhos, e por isso dera uma resposta doce, tentando fazê-la compreender que tanto a ela como a Alfredo votava estima igual. Mas não era isso que estava em jogo e sim a necessidade. Por enquanto era Alfredo quem mais precisava da sua presença.

«Desculpa», disse Nia. «Estava com ciúmes», admitiu, o que fez diminuir o vermelhar denunciador do rosto. O corpo, por vezes, mais sábio, revela o que nós escondemos. «Há tanto tempo que tu não aparecias que eu senti saudades. E além disso existe Malazon...», mas aqui foi interrompida furiosamente pela Fadinha que, cortando o ar num bater rápido e ríspido das asas libélula rosa-pálida, declarou num tom de voz que não admitia dúvidas:

- Oh! Preocupas-te demasiado! Ele não me apanhará! Estou farta de to dizer! - afirmou, cruzando os braços azuis. À explosão da fada Nia emudeceu. Notando-o a amiga alada envergonhou-se. Que culpa tinha ela! Nenhuma! A fada escondia o medo naquela falsa encenação de fortaleza, de indómita vontade férrea, de ser isento de receios e dúvidas. Nada mais errado. Mas se o medo transparecesse Dionísia ficaria em grandes cuidados. Não podia permiti-lo. O medo, qual perfume invisível, atraía Malazon. Tornava-se imperativo escondê-lo. Dionísia, porém, acreditava que quanto mais cedo ela o admitisse, mais cedo poderiam fabricar estratégias convenientes para combater de forma eficaz o feiticeiro maquiavélico. Esconder as coisas, na sua opinião, só as tornava piores e, com o tempo, ficavam entulhadas por debaixo de capas de coragem falaciosas, capas que era necessário destruir antes que essas mesmas mentiras contribuíssem para sua própria destruição. Mas isso despendia energia e, sobretudo, tempo de que cada vez a Fadinha dispunha menos. Ela não o veria?! Não estaria consciente do perigo?!
A fada pôs um ponto final ao melindroso tema mudando de assunto. Pairou até às sobrancelhas de Nia e disse:
- Quando o Alfredo tiver o barco vamos passar mais tempo juntas. Prometo. Até lá juro que te venho visitar.
Nia sorriu e respondeu:
- Está bem.

Então a fada despediu-se e avançou para a janela do quarto em velocidade supersónica, desaparecendo antes de a trespassar. Sem sono, Dionísia pediu um livro à estante mágica, porém não lograva ultrapassar a primeira linha. Devolveu-o à estante, fazendo ambos esvanecerem-se mercê de um sopro. Deitou-se, vestida, na cama, por cima das cobertas e rezou a um Deus incógnito. «Protege-a», rogou. Protege-a.