Quinta-feira, Fevereiro 28, 2002
6
Estava vazio. Não descortinou o vulto da fada em qualquer parte. Só então se lembrou que não lhe perguntara o nome. «Como será o nome das fadas? Terão nomes como Teresa, Beatriz ou Sónia, nomes normais e não como o meu, Dionísia, estrambólico até dizer chega?», indagava-se. Dirigiu-se para o espaço vazio ao lado do armário onde guardava os livros. Sentou-se no chão. Nada sentiu excepto a maciez da alcatifa. Nada ocupava aquele espaço, nenhum objecto sólido, pelo menos. Nada, a não ser o seu corpo. Ergue-se e dá dois passos para trás. Sopra. A estante mágica materializa-se. Sorri satisfeita. Decide pedir o último livro de Alice Vieira, aquele que os pais lhe prometeram comprar no fim do mês. Aparece, devagarinho, ao princípio como um nevoeiro, uma fina névoa que engrossa até corporalizar um livro completo, real. Material. Pega nele, senta-se na cama, encosta-se à almofada, cruza as pernas e folheia-o.
Passa as folhas com cuidado, como se manejasse algo frágil e houvesse o perigo dele se esfarolar por entre os dedos, como farinha ou areia. Mas não, continua sólido e concreto, tanto como a cama onde está sentada ou como a porta à sua frente. Meu Deus, a porta! Corre a trancá-la, a fechá-la à chave. Um nó na garganta, uma angústia no corpo manifesta-se. Se os pais entrassem de repente, ou a peste, como explicá-la? Como responder às inevitáveis perguntas: «O que é isso? Donde veio? Alguém to deu? E como puseste o móvel aqui?». Podia mentir, claro. Mas não gostava de o fazer porque apanhavam-na sempre (Nia gaguejava e o rosto ficava vermelho como um pimentão) e também porque detestava mentir. Preferia omitir, o que não é bem dizer a verdade, mas também não é mentir. É esconder, pronto.
De repente, sem aviso, a Fadinha aparece-lhe à frente do nariz, como uma bola de sabão que, depois de rebentar, torna a nascer. Assusta-se com o seu aparecimento repentino.
- Olá! E aqui estou como prometido! Eu não te disse? Oh, vejo que já pediste um livro! Hoje de manhã não deu para conversarmos como deve ser.
A Fadinha parou de falar ao gesto de Nia colocar o dedo à frente dos lábios.
- Chiu! Fala baixinho. Os meus pais e o meu irmão podem ouvir-te!
- Duvido muito, estou a falar só para ti - respondeu. - Não notaste um ligeiro zumbido cada vez que falo?
- Sim, mas não liguei. Porquê? É importante?
- Bom, eu falo directamente para o teu cérebro, enquanto que os humanos falam para os ouvidos uns dos outros. Assim, ninguém me ouve, apenas tu. E quando eu digo qualquer coisa há um zunido. Digamos que é ele que põe as palavras na tua cabeça.
- Que giro!
Passaram o resto da noite a conversar. De manhã Nia só pensava em dormir, mas era impensável perder outra aula de matemática. Arrastou-se para a paragem e, na escola, a rapidez graciosa do professor, escrevendo formúlas incompreensíveis na ardósia, levavam-na à recordação da dança etérea da sua nova amiga.
Quarta-feira, Fevereiro 27, 2002
Acabei de acrescentar um link que dá acesso a um cartoon diário, mas não sei se mantenho, se tiro... :|
Yesssssssssss! Já consegui pôr o contador!!!!!! Hehehehehe. Com o tempo isto vai tudo ao sítio... ;)
5
Nia corre e vê, ao lado da outra estante, uma nova, simples, sem adornos, sem enfeites. De facto assemelhava-se a uma normal estante de madeira, não denotando qualquer qualidade mágica.
- Experimenta-a - disse a fada. Ela hesitou por momentos e depois fez um pedido em voz alta. O livro, mal acabou de o nomear, materializou-se à sua frente. Nia desatou aos gritos e aos saltos, a bater palmas.
- É o máximo! É o máximo! Agora vou experimentar ao contrário!
Colocou-o de volta na estante e soprou nele. Esvaneceu-se de imediato. Soprou, em seguida, na própria estante e repetiu-se a maravilha. Esticou o braço. Não sentia nada. Não estava lá coisa nenhum!
- Isto é fantástico! Incrível! Onde é que estás?
A Fadinha observava atentamente o relógio-alarme electrónico em cima da mesa de cabeceira.
- O que é isto? - inquiriu.
- Um relógio. Nunca tinhas visto um?
- Já, mas não era assim. Este é diferente...não tem ponteiros.
- Não precisa, mas dá horas à mesma.
- Porquê dá? Os relógios não dão, tiram. É ridículo e estapafúrdio esse vosso hábito de contar o tempo - uma coisa que nem existe - e depois andam todos muito atarefados a ver as horas que o relógio dá, quando, na verdade, o que faz é tirar-vos tempo! Oh, mas isto é complicadíssimo para mim porque, se o tempo não existe, o que é que afinal os relógios vos tiram?
Nia ria-se à gargalhada com o raciocínio dela.
- O tempo não existe? - inquiriu. - Então o que é que existe?
- O espaço. O espaço é infinito, logo, não se pode contar. Se não se pode contá-lo não andamos a perder tempo a contá-lo, simplesmente divertimo-nos!
- Tu és um ponto! - disse, sorrindo.
- Um quê?
- Um ponto, alguém com graça.
De repente arregala os olhos e leva as mãos à cabeça. Já passava das oito.
- Meu Deus! Estou atrasadíssima! E a primeira aula é matemática! Vou perdê-la!
- Matemática?
- Números! Uma quantidade infinita de números e, ao contrário de ti, o meu professor considera que se podem e devem contar! Bolas, estou atrasada!
- Vocês não mudam! - disse a fada. - Sempre a correr de um lado para o outro.
- Desculpa, tenho de me ir embora. Quero agradecer-te pelo magnífico presente que me deste!
- De nada.
- Eu torno a ver-te?
- Naturalmente que sim! Não esperei tanto para chegar aqui e ir-me embora, assim, sem mais nem menos!
- À noite regresso. Estás cá?
- Conta comigo.
- Por volta das...
- Oh, horas de novo, não! Não te apoquentes, eu sei encontrar-te! - e dito isto desapareceu em pleno ar.
Nia perdeu a primeira aula e esteve quase para contar o que lhe sucedera à melhor amiga, Beta, mas achou preferível ficar calada. Quem é que ia acreditar nela? Uma fada, essa agora! «Tu estás bem?», diriam. «Não bateste com a cabeça em algum lado?»
Esperou pelas seis horas com os nervos à flor da pele, apanhou a camioneta e chegou a casa às sete. Jantou o mais rapidamente que pôde e, com a pressa, quase se ia engasgando na colher. Depois despediu-se:
- Até amanhã.
- Já te vais deitar? Nem sequer são sete e meia. Não vais ver os Simpsons?
- Não, mãe. Tenho de estudar, preciso de levantar a nota a matemática.
- Mas já? - estranhou o pai. - Tu não vais ter um teste amanhã, pois não?
- Não. Mas quero estar preparada. Quero tirar um cem!
Aqui Jaime desata a casquinar.
- Tu? Um cem?! Deves estar passadinha da tola, completamente choné, chalupa de todo!
- Jaime, não fales assim à tua irmã! - ralhou o pai. Ela deitou-lhe a língua de fora (gesto por ele imitado na perfeição) e depois foi para o quarto.
Nia corre e vê, ao lado da outra estante, uma nova, simples, sem adornos, sem enfeites. De facto assemelhava-se a uma normal estante de madeira, não denotando qualquer qualidade mágica.
- Experimenta-a - disse a fada. Ela hesitou por momentos e depois fez um pedido em voz alta. O livro, mal acabou de o nomear, materializou-se à sua frente. Nia desatou aos gritos e aos saltos, a bater palmas.
- É o máximo! É o máximo! Agora vou experimentar ao contrário!
Colocou-o de volta na estante e soprou nele. Esvaneceu-se de imediato. Soprou, em seguida, na própria estante e repetiu-se a maravilha. Esticou o braço. Não sentia nada. Não estava lá coisa nenhum!
- Isto é fantástico! Incrível! Onde é que estás?
A Fadinha observava atentamente o relógio-alarme electrónico em cima da mesa de cabeceira.
- O que é isto? - inquiriu.
- Um relógio. Nunca tinhas visto um?
- Já, mas não era assim. Este é diferente...não tem ponteiros.
- Não precisa, mas dá horas à mesma.
- Porquê dá? Os relógios não dão, tiram. É ridículo e estapafúrdio esse vosso hábito de contar o tempo - uma coisa que nem existe - e depois andam todos muito atarefados a ver as horas que o relógio dá, quando, na verdade, o que faz é tirar-vos tempo! Oh, mas isto é complicadíssimo para mim porque, se o tempo não existe, o que é que afinal os relógios vos tiram?
Nia ria-se à gargalhada com o raciocínio dela.
- O tempo não existe? - inquiriu. - Então o que é que existe?
- O espaço. O espaço é infinito, logo, não se pode contar. Se não se pode contá-lo não andamos a perder tempo a contá-lo, simplesmente divertimo-nos!
- Tu és um ponto! - disse, sorrindo.
- Um quê?
- Um ponto, alguém com graça.
De repente arregala os olhos e leva as mãos à cabeça. Já passava das oito.
- Meu Deus! Estou atrasadíssima! E a primeira aula é matemática! Vou perdê-la!
- Matemática?
- Números! Uma quantidade infinita de números e, ao contrário de ti, o meu professor considera que se podem e devem contar! Bolas, estou atrasada!
- Vocês não mudam! - disse a fada. - Sempre a correr de um lado para o outro.
- Desculpa, tenho de me ir embora. Quero agradecer-te pelo magnífico presente que me deste!
- De nada.
- Eu torno a ver-te?
- Naturalmente que sim! Não esperei tanto para chegar aqui e ir-me embora, assim, sem mais nem menos!
- À noite regresso. Estás cá?
- Conta comigo.
- Por volta das...
- Oh, horas de novo, não! Não te apoquentes, eu sei encontrar-te! - e dito isto desapareceu em pleno ar.
Nia perdeu a primeira aula e esteve quase para contar o que lhe sucedera à melhor amiga, Beta, mas achou preferível ficar calada. Quem é que ia acreditar nela? Uma fada, essa agora! «Tu estás bem?», diriam. «Não bateste com a cabeça em algum lado?»
Esperou pelas seis horas com os nervos à flor da pele, apanhou a camioneta e chegou a casa às sete. Jantou o mais rapidamente que pôde e, com a pressa, quase se ia engasgando na colher. Depois despediu-se:
- Até amanhã.
- Já te vais deitar? Nem sequer são sete e meia. Não vais ver os Simpsons?
- Não, mãe. Tenho de estudar, preciso de levantar a nota a matemática.
- Mas já? - estranhou o pai. - Tu não vais ter um teste amanhã, pois não?
- Não. Mas quero estar preparada. Quero tirar um cem!
Aqui Jaime desata a casquinar.
- Tu? Um cem?! Deves estar passadinha da tola, completamente choné, chalupa de todo!
- Jaime, não fales assim à tua irmã! - ralhou o pai. Ela deitou-lhe a língua de fora (gesto por ele imitado na perfeição) e depois foi para o quarto.
Terça-feira, Fevereiro 26, 2002
Desisto. É impossível. Sou uma iletrada cibernética. Como é que raio se põe a porcaria de um contador de estatísticas na página?! Já tentei, quase lixei a template (para variar). Que sá lixe! Consegui por a tal caixinha para os comentários de -eventuais- leitores e já não é nada mau. Irra, por hoje chega!
4
Nia acorda com sede. Normalmente, para evitar levantar-se, deixa um copo de água à beira da cama, em cima da mesinha de cabeceira. Mas hoje esquecera-se de o fazer. Sai da cama, esfregando os olhos e a abrir a boca de bocejos. É noite e está escuro. Vê qualquer coisa a mover-se à sua frente, na estante onde guarda os livros. Dirige-se a ela e encontra uma fada azul, de uns quinze centímetros de altura, com o cabelo curto e dourado, apresentando os olhos a mesma cor do cabelo, e com asas de libélula rosa-pálidas, transparentes. A fada debatia-se, presa por uma asa no meio de um livro, incapaz de soltar-se. Sem dizer nada e a bocejar Nia solta-a e a fada fica-lhe bastante agradecida. Tão agradecida que lhe quer dar um presente. Dionísia, sentindo a sede crescer-lhe na garganta e o sono a fechar-lhe os olhos, responde com delicadeza:
- Estou com um sono enorme. Amanhã falamos nisso.
A Fadinha concorda e, dando um salto para trás, desaparece diante os seus olhos. Estremunhada, não achou estranheza em nada do que acabara de presenciar. De facto, comportava-se como se a visita de uma fada ao seu quarto às quatro da manhã constituísse a coisa mais natural do mundo. Depois de beber água voltou para a cama e adormeceu de imediato. No dia seguinte tem reminiscências de um sonho envolvendo uma fada azul, de olhos dourados e asas cor-de-rosa transparentes. Um sonho, julgava, e não qualquer coisa de verdadeiro, de real.
Naquela manhã saía às sete e meia de casa para apanhar a camioneta, já que as aulas começavam às oito e um quarto. Jaime tinha sempre boleia dos pais porque a escola dele ficava no caminho do trabalho e como os pais saíam, pontualmente, às sete e um quarto, Nia encontrava-se sozinha em casa, a comer uma tijela de cereais com leite e pedacinhos de maçã no topo.
Quando a Fadinha se apresentou à sua frente para terminar a conversa e decidir da oferta, Nia apanhou o susto da sua vida, deixando tombar a tijela para o meio do chão que ficou todo sujo e peganhento. Com o queixo descaído e os olhos arregalados e fixos na figura a pairar à frente do seu nariz pensava em frenesim: «Não foi um sonho! Não foi um sonho! Foi de verdade! Foi de verdade! Uma fada, meu Deus, uma fada!» A Fadinha não tinha acesso a tais pensamentos porque só as fadas dos desejos possuíam o dom de ler a mente das pessoas, e ela era uma fada dos sonhos. Como Nia não proferia palavra, apesar de no cérebro as ideias lhe correrem aos trambolhões, tropeçando umas nas outras, a Fadinha decidiu iniciar o diálogo.
- Aqui estou, como te disse ontem! Então, já decidiste o que queres?
Ela estava muda e os olhos esbugalhados traíam a confusão que lhe ia no interior. A fada, permanecendo Nia emudecida, achou por bem dar uma ideias.
- Que tal uma cesta sempre cheia de comida, de toda a comida que tu quiseres?
Dionísia nada replicou.
- Não? Então deixa cá ver...ah!, já sei! Em vez de comida, ouro! Os homens adoram ouro! Para as fadas não tem valor nenhum, mas os homens adoram-no! Tu não?
Dionísia continuava sem fala.
- Se calhar não...e que tal uma flauta de encantar? Com ela os animais, ferozes ou gentis, seguir-te-ão para onde quer que fores: basta tocar a flauta! Não dizes nada! Como poderei saber o que queres! Fala! Diz qualquer coisa! Oh, o teu mutismo é irritante!
Nia levanta-se da mesa e toca na barriga da fada com o dedo mindinho.
- Oh! Não me faças cócegas! - e desatou a rir-se. O riso das fadas parecem trinados de golfinho e trespassam-nos de lado a lado, dando-nos cócegas e uma vontade tremenda de rir. Nia começou a contorcer-se, agarrando o estômago com ambas as mãos até não aguentar mais. Quando pararam as duas de rir encararam-se.
- És uma fada, uma fada a sério? - perguntou-lhe.
- Sou uma fada dos sonhos.
- E o que é isso?
- É uma fada que ajuda na concretização dos sonhos, na realização das quimeras mais fantásticas e que parecem irrealizáveis. Mas são sempre realizáveis.
Um silêncio miudinho encheu a cozinha e Nia exclamou de repente:
- Oh! - e saiu a correr para a despensa. O chão da cozinha estava todo sujo. Voltou com um balde e uma esfregona.
- Então! O que queres que eu te dê? - insistiu.
- O quê? Ah...já me esquecia...quer dizer que o sonho de ontem à noite foi verdadeiro? - perguntou, limpando o chão da cozinha e recolhendo os cacos da tijela.
- Sim.
Dionísia pousou a cabeça na esfregona, pensativa, e replicou depois:
- Uma cesta com oiro não quero porque o ouro, em geral, só traz problemas. E de comida muito menos porque ando a fazer dieta. Uma flauta para encantar animais é melhor não porque o Jaime ainda lhe mete a unha e traz um elefante ou um urso cá para casa e depois deixa de a tocar só para ter a satisfação de me ver atrapalhada a fugir deles. O que eu queria mesmo...era...
- Sim?
- Livros. Uma estante mágica que me desse todos os livros do mundo sem eu ter de os comprar. És capaz de fazer isso?
- Ora! Absolutamente!
- Espera!
- O que foi?
- Como é que eu vou explicar a estante e os livros aos meus pais?
- Não há problema! A estante será invisível e, nesse estado, ninguém a poderá tocar. Quanto aos livros é só soprares neles que de imediato desaparecem. Para reaparecerem dizes o nome do livro e do autor. Para tornares a estante invisível basta fazeres uso do mesmo estratagema: soprar! Tanto para aparecer como desaparecer. E pronto! Já está!
- Já está?!
- Vai ao teu quarto!
Nia acorda com sede. Normalmente, para evitar levantar-se, deixa um copo de água à beira da cama, em cima da mesinha de cabeceira. Mas hoje esquecera-se de o fazer. Sai da cama, esfregando os olhos e a abrir a boca de bocejos. É noite e está escuro. Vê qualquer coisa a mover-se à sua frente, na estante onde guarda os livros. Dirige-se a ela e encontra uma fada azul, de uns quinze centímetros de altura, com o cabelo curto e dourado, apresentando os olhos a mesma cor do cabelo, e com asas de libélula rosa-pálidas, transparentes. A fada debatia-se, presa por uma asa no meio de um livro, incapaz de soltar-se. Sem dizer nada e a bocejar Nia solta-a e a fada fica-lhe bastante agradecida. Tão agradecida que lhe quer dar um presente. Dionísia, sentindo a sede crescer-lhe na garganta e o sono a fechar-lhe os olhos, responde com delicadeza:
- Estou com um sono enorme. Amanhã falamos nisso.
A Fadinha concorda e, dando um salto para trás, desaparece diante os seus olhos. Estremunhada, não achou estranheza em nada do que acabara de presenciar. De facto, comportava-se como se a visita de uma fada ao seu quarto às quatro da manhã constituísse a coisa mais natural do mundo. Depois de beber água voltou para a cama e adormeceu de imediato. No dia seguinte tem reminiscências de um sonho envolvendo uma fada azul, de olhos dourados e asas cor-de-rosa transparentes. Um sonho, julgava, e não qualquer coisa de verdadeiro, de real.
Naquela manhã saía às sete e meia de casa para apanhar a camioneta, já que as aulas começavam às oito e um quarto. Jaime tinha sempre boleia dos pais porque a escola dele ficava no caminho do trabalho e como os pais saíam, pontualmente, às sete e um quarto, Nia encontrava-se sozinha em casa, a comer uma tijela de cereais com leite e pedacinhos de maçã no topo.
Quando a Fadinha se apresentou à sua frente para terminar a conversa e decidir da oferta, Nia apanhou o susto da sua vida, deixando tombar a tijela para o meio do chão que ficou todo sujo e peganhento. Com o queixo descaído e os olhos arregalados e fixos na figura a pairar à frente do seu nariz pensava em frenesim: «Não foi um sonho! Não foi um sonho! Foi de verdade! Foi de verdade! Uma fada, meu Deus, uma fada!» A Fadinha não tinha acesso a tais pensamentos porque só as fadas dos desejos possuíam o dom de ler a mente das pessoas, e ela era uma fada dos sonhos. Como Nia não proferia palavra, apesar de no cérebro as ideias lhe correrem aos trambolhões, tropeçando umas nas outras, a Fadinha decidiu iniciar o diálogo.
- Aqui estou, como te disse ontem! Então, já decidiste o que queres?
Ela estava muda e os olhos esbugalhados traíam a confusão que lhe ia no interior. A fada, permanecendo Nia emudecida, achou por bem dar uma ideias.
- Que tal uma cesta sempre cheia de comida, de toda a comida que tu quiseres?
Dionísia nada replicou.
- Não? Então deixa cá ver...ah!, já sei! Em vez de comida, ouro! Os homens adoram ouro! Para as fadas não tem valor nenhum, mas os homens adoram-no! Tu não?
Dionísia continuava sem fala.
- Se calhar não...e que tal uma flauta de encantar? Com ela os animais, ferozes ou gentis, seguir-te-ão para onde quer que fores: basta tocar a flauta! Não dizes nada! Como poderei saber o que queres! Fala! Diz qualquer coisa! Oh, o teu mutismo é irritante!
Nia levanta-se da mesa e toca na barriga da fada com o dedo mindinho.
- Oh! Não me faças cócegas! - e desatou a rir-se. O riso das fadas parecem trinados de golfinho e trespassam-nos de lado a lado, dando-nos cócegas e uma vontade tremenda de rir. Nia começou a contorcer-se, agarrando o estômago com ambas as mãos até não aguentar mais. Quando pararam as duas de rir encararam-se.
- És uma fada, uma fada a sério? - perguntou-lhe.
- Sou uma fada dos sonhos.
- E o que é isso?
- É uma fada que ajuda na concretização dos sonhos, na realização das quimeras mais fantásticas e que parecem irrealizáveis. Mas são sempre realizáveis.
Um silêncio miudinho encheu a cozinha e Nia exclamou de repente:
- Oh! - e saiu a correr para a despensa. O chão da cozinha estava todo sujo. Voltou com um balde e uma esfregona.
- Então! O que queres que eu te dê? - insistiu.
- O quê? Ah...já me esquecia...quer dizer que o sonho de ontem à noite foi verdadeiro? - perguntou, limpando o chão da cozinha e recolhendo os cacos da tijela.
- Sim.
Dionísia pousou a cabeça na esfregona, pensativa, e replicou depois:
- Uma cesta com oiro não quero porque o ouro, em geral, só traz problemas. E de comida muito menos porque ando a fazer dieta. Uma flauta para encantar animais é melhor não porque o Jaime ainda lhe mete a unha e traz um elefante ou um urso cá para casa e depois deixa de a tocar só para ter a satisfação de me ver atrapalhada a fugir deles. O que eu queria mesmo...era...
- Sim?
- Livros. Uma estante mágica que me desse todos os livros do mundo sem eu ter de os comprar. És capaz de fazer isso?
- Ora! Absolutamente!
- Espera!
- O que foi?
- Como é que eu vou explicar a estante e os livros aos meus pais?
- Não há problema! A estante será invisível e, nesse estado, ninguém a poderá tocar. Quanto aos livros é só soprares neles que de imediato desaparecem. Para reaparecerem dizes o nome do livro e do autor. Para tornares a estante invisível basta fazeres uso do mesmo estratagema: soprar! Tanto para aparecer como desaparecer. E pronto! Já está!
- Já está?!
- Vai ao teu quarto!
Segunda-feira, Fevereiro 25, 2002
Bom, aqui segue a continuação da história. Os capítulos são demasiados grandes, por isso optei por dividi-los. Estes três capítulos são, na verdade, apenas um. Escrevi «A Fada dos Sonhos» há uns anitos. Não consigo publicá-lo da forma ortodoxa, as cartas de rejeição acumulam-se, de modo que resolvi optar pela internet. De uma maneira ou de outra, hei-de partilhar o livro. ;)
3
Nia tem doze anos e gosta muito de ler. A melhor amiga, Beta, diz que ela é uma taradinha por livros. Nia replica que Beta é taradinha por roupa. Depois as duas lançam para o ar um «Oh!» e ficam-se por aí, nunca se zangando verdadeiramente. Nia tem um irmão, Jaime, de nove anos. Trata-o carinhosamente por «pestinha» ou, para encurtar, «peste». Às vezes também o chama de «pirralho» ou «puto». Gosta dele, mas não o confessa, senão seria impossível aturá-lo. Os dois irmãos andam geralmente às turras um com o outro, o pai exaspera-se de os ver assim e farta-se de ralhar:
- Parem! Vocês não são capazes de se dar bem? Pára! Larga a tua irmã! Não puxes o cabelo ao Jaime! Dei-deixa-o! Larguem-se ou eu dou-vos uma palmada!
Os miúdos defendem-se com a argumentação mais velha do mundo:
- Foi ele (ou ela) que começou! - dizem, apontando o dedo furiosos e a ofegar da luta.
A fixação na leitura obriga Dionísia a cravar livros à mãe sempre que vão às compras. A mãe diz-lhe que não tem dinheiro, que tem de esperar pelo fim do mês, quando receber o salário. Ela compreende e não insiste. Para o desejo que tem de ler os livros a que consegue deitar a mão são pouquíssimos. Onde vive, na Rua do Espanto, não existe uma biblioteca. Nem nos arredores. E a da escola está eternamente ocupada por professores em reuniões e não permitem levar livros para casa. Ou sequer lê-los lá uma vez que a biblioteca nunca está disponível «por se estar a realizar uma reunião». De maneira que tem de contentar-se com os poucos que lhe emprestam (ninguém da sua turma lê como ela e os livros que possuem são todos aos quadradinhos) ou com o livro mensal que os pais lhe compram quando recebem o ordenado.
A Fadinha, pelo padrão de Nia, não tem acesso a este rol de informações, mas soube logo que ela tivera uma má notícia nesse dia. Recebera o teste de matemática, disciplina detestada, e tinha tido a nota miserável de quarenta por cento. Não chorou porque achava parvo derramar lágrimas só por causa de uma nota negativa. Por partir um braço tudo bem, mas não por uma nota negativa, era o que faltava! A chatice era que, por mais que estudasse, só alcançava os cinquenta por cento naquela disciplina em particular! Odiava matemátiva! Se pudesse abolia-a por decreto. Seria heroína nacional. Mas devaneios não a levavam a lado nenhum. Tinha de subir a nota se queria ter o livro no fim do mês.
A Fadinha observou Nia de perto. Dormia profundamente. Inspeccionou-lhe a orelha e os olhos, que se mexiam. Achou graça e por momentos acompanhou-os nessa dança ritmada, balançando-se de um lado para o outro. Depois cansou-se e começou a revirar o quarto de cima a baixo. É uma mexilhona! Mexe em tudo. Mas, logo que acaba de observar um objecto, torna a pô-lo no devido lugar. Na verdade, a fada arruma as coisas melhor do que as encontra, acabando por arrumar o quarto inteiro. Quem não gostava de ter uma amiga assim?
Quando chegou à estante onde Nia guardava os livros, não os da escola, mas os outros, os que lia por pura diversão (e isto depois de revirar por completo os armários e as gavetas - deixando-os organizadíssimos), a fada dirigiu a sua atenção para os livros. Eram grandes e pequenos, pesados e leves, as capas apresentavam um ramalhete de cores e as páginas tanto eram finas como grossas. Tirou um ao acaso, sem ser preciso tocar nele - limitou-se a esticar o braço e a chamá-lo com o dedo que ele saiu, voando, parecendo ter vontade própria. Parou no meio do quarto, no ar, sem cair no chão, parecendo seguro por invisíveis fios. E a um gesto gracioso da Fadinha abriu-se e as folhas foram passando uma a uma. Considerando tudo magnifíco a fada deu uma reviravolta sobre si mesma e começou a folhear o livro com a sua mão - tocando nele. Subitamente sentiu-se cansada e fraquejou. O livro cessou de pairar e quase tombou no chão. Mas, a um gesto da fada, tornou a subir devagarinho e recuperou o seu lugar na estante. Mas, sem se dar conta, distraída talvez, além daquele cansaço súbito, ficou com a asa presa no meio das folhas. Não era capaz de soltar-se. Estava fraca, não tinha forças para se desprender sozinha, nem sequer para se eclipsar como uma bola de sabão, reaparecendo noutro sítio. Estava perdida. Se alguém, outro que não a Nia, a surpreendesse em tal estado, podia facilmente apoderar-se dela. Começou a soluçar baixinho, de desespero. Lágrimas pequeninas, douradas, como pó de oiro, escorriam-lhe pela face azul, ficando a pairar no meio do quarto, semelhando poeira banhada pelo sol matinal.
É nessa altura que Nia desperta, bocejando. Tinha sede. Decide levantar-se para ir à cozinha beber um copo de água. Eram quatro da manhã. E então vê a fada.
Nia tem doze anos e gosta muito de ler. A melhor amiga, Beta, diz que ela é uma taradinha por livros. Nia replica que Beta é taradinha por roupa. Depois as duas lançam para o ar um «Oh!» e ficam-se por aí, nunca se zangando verdadeiramente. Nia tem um irmão, Jaime, de nove anos. Trata-o carinhosamente por «pestinha» ou, para encurtar, «peste». Às vezes também o chama de «pirralho» ou «puto». Gosta dele, mas não o confessa, senão seria impossível aturá-lo. Os dois irmãos andam geralmente às turras um com o outro, o pai exaspera-se de os ver assim e farta-se de ralhar:
- Parem! Vocês não são capazes de se dar bem? Pára! Larga a tua irmã! Não puxes o cabelo ao Jaime! Dei-deixa-o! Larguem-se ou eu dou-vos uma palmada!
Os miúdos defendem-se com a argumentação mais velha do mundo:
- Foi ele (ou ela) que começou! - dizem, apontando o dedo furiosos e a ofegar da luta.
A fixação na leitura obriga Dionísia a cravar livros à mãe sempre que vão às compras. A mãe diz-lhe que não tem dinheiro, que tem de esperar pelo fim do mês, quando receber o salário. Ela compreende e não insiste. Para o desejo que tem de ler os livros a que consegue deitar a mão são pouquíssimos. Onde vive, na Rua do Espanto, não existe uma biblioteca. Nem nos arredores. E a da escola está eternamente ocupada por professores em reuniões e não permitem levar livros para casa. Ou sequer lê-los lá uma vez que a biblioteca nunca está disponível «por se estar a realizar uma reunião». De maneira que tem de contentar-se com os poucos que lhe emprestam (ninguém da sua turma lê como ela e os livros que possuem são todos aos quadradinhos) ou com o livro mensal que os pais lhe compram quando recebem o ordenado.
A Fadinha, pelo padrão de Nia, não tem acesso a este rol de informações, mas soube logo que ela tivera uma má notícia nesse dia. Recebera o teste de matemática, disciplina detestada, e tinha tido a nota miserável de quarenta por cento. Não chorou porque achava parvo derramar lágrimas só por causa de uma nota negativa. Por partir um braço tudo bem, mas não por uma nota negativa, era o que faltava! A chatice era que, por mais que estudasse, só alcançava os cinquenta por cento naquela disciplina em particular! Odiava matemátiva! Se pudesse abolia-a por decreto. Seria heroína nacional. Mas devaneios não a levavam a lado nenhum. Tinha de subir a nota se queria ter o livro no fim do mês.
A Fadinha observou Nia de perto. Dormia profundamente. Inspeccionou-lhe a orelha e os olhos, que se mexiam. Achou graça e por momentos acompanhou-os nessa dança ritmada, balançando-se de um lado para o outro. Depois cansou-se e começou a revirar o quarto de cima a baixo. É uma mexilhona! Mexe em tudo. Mas, logo que acaba de observar um objecto, torna a pô-lo no devido lugar. Na verdade, a fada arruma as coisas melhor do que as encontra, acabando por arrumar o quarto inteiro. Quem não gostava de ter uma amiga assim?
Quando chegou à estante onde Nia guardava os livros, não os da escola, mas os outros, os que lia por pura diversão (e isto depois de revirar por completo os armários e as gavetas - deixando-os organizadíssimos), a fada dirigiu a sua atenção para os livros. Eram grandes e pequenos, pesados e leves, as capas apresentavam um ramalhete de cores e as páginas tanto eram finas como grossas. Tirou um ao acaso, sem ser preciso tocar nele - limitou-se a esticar o braço e a chamá-lo com o dedo que ele saiu, voando, parecendo ter vontade própria. Parou no meio do quarto, no ar, sem cair no chão, parecendo seguro por invisíveis fios. E a um gesto gracioso da Fadinha abriu-se e as folhas foram passando uma a uma. Considerando tudo magnifíco a fada deu uma reviravolta sobre si mesma e começou a folhear o livro com a sua mão - tocando nele. Subitamente sentiu-se cansada e fraquejou. O livro cessou de pairar e quase tombou no chão. Mas, a um gesto da fada, tornou a subir devagarinho e recuperou o seu lugar na estante. Mas, sem se dar conta, distraída talvez, além daquele cansaço súbito, ficou com a asa presa no meio das folhas. Não era capaz de soltar-se. Estava fraca, não tinha forças para se desprender sozinha, nem sequer para se eclipsar como uma bola de sabão, reaparecendo noutro sítio. Estava perdida. Se alguém, outro que não a Nia, a surpreendesse em tal estado, podia facilmente apoderar-se dela. Começou a soluçar baixinho, de desespero. Lágrimas pequeninas, douradas, como pó de oiro, escorriam-lhe pela face azul, ficando a pairar no meio do quarto, semelhando poeira banhada pelo sol matinal.
É nessa altura que Nia desperta, bocejando. Tinha sede. Decide levantar-se para ir à cozinha beber um copo de água. Eram quatro da manhã. E então vê a fada.
Domingo, Fevereiro 24, 2002
Bom, esta é a continuação do capítulo. Espero que os (escassos) leitores gostem... ;)
Tive aqui uns problemitas com o piruças (nick do meu pc), está mais lento do que um caracol artrítico, mas lá consegui colocar outra entrada.
Tive aqui uns problemitas com o piruças (nick do meu pc), está mais lento do que um caracol artrítico, mas lá consegui colocar outra entrada.
2
Mas, como referi atrás, para cada regra há inúmeras excepções. Uma delas chama-se Fadinha (bom, o seu verdadeiro nome consiste num círculo amarelo ao qual se junta, no meio, uma bola vermelha, saindo os dois objectos da boca da Fadinha quando alguém lhe pergunta: «Como te chamas?» Mas como me é impossível fazer esta habilidade julgo mais fácil tratá-la por Fadinha.)
A Fadinha é uma fada dos sonhos. Mas diferente das suas irmãs. É irrequieta, traquinas, descuidada, adora fazer travessuras e pregar partidas. Ri-se quando lhe falam de segurança e lhe fazem advertências aos riscos a evitar. E ri-se ainda mais quando a avisam, repetidamente, para não visitar o mundo dos homens.
- É perigoso demais, - dizem - os humanos são criaturas imprevisíveis - repetem. - Sem dares por ela cais numa armadilha, és feita prisioneira e morres! E nenhuma de nós te poderá ajudar! - finalizam.
A Fadinha ri às gargalhadas e contrapõe a todos os argumentos os motivos que a levam a comportar-se desprevenidamente:
- Eu adoro a imprevisibilidade humana! De todos os seres de todas as dimensões são eles que têm os sonhos mais belos! Gosto de brincar com eles, gosto de divertir-me! Adoro o seu ar de espanto quando me apresento! Não me aborreçam com os vossos avisos infantis! De nada valem! Já esperei tempo demais! Hoje a liberdade é minha!
E dito isto eclipsa-se como uma bola de sabão em pleno ar.
A Fadinha, devido à sua natureza irrequieta, metera-se em sarilhos séculos atrás. Fora apanhada por um feiticeiro maligno que tencionava roubar-lhe o poder dos sonhos, o poder que dá à fada a possibilidade de tocar no padrão dos sonhos e de o moldar como plasticina ou barro. Ora, se lhe conseguisse meter a unha, o feiticeiro ficaria poderoso o suficiente para poder controlar os homens e submetê-los à sua vontade pelo tempo que desejasse. Mas a sua missão fracassou quando as irmãs da Fadinha acorreram em seu auxílio livrá-la daquele aperto. Como castigo (pois já fora avisada vezes sem conta do perigo que corria na dimensão humana, não só dos homens como também de outras criaturas que aí a podiam capturar facilmente) proibiram-na de visitar o nosso mundo por séculos e séculos. Contudo as fadas não contam o tempo da mesma maneira que nós. De facto, para elas o tempo não existe. Não existe nem dia nem noite, nem mês nem semana, nem anos nem décadas. Num mundo assim, e ainda por cima sendo as fadas imortais, dá a impressão que se devem aborrecer imenso, lançando contínuos suspiros de tédio para o céu. Pelo contrário. Muito sucede no seu mundo e as coisas lá nunca permanecem iguais.
Assim, para discutirem a punição a dar à sua irmã Fadinha, reuniram-se em conselho e decidiram que só deveria visitar novamente a dimensão humana quando a Flor Multicolor se abrisse jogando para o alto raios de som e de luz. Um acontecimento raro no mundo das fadas. A Flor Multicolor desabrochava apenas de meio em meio milénio. No entanto quinhentos anos nada significam para as fadas porque elas têm o dom da imortalidade e por isso não se impacientam e sabem esperar. Menos a Fadinha. Sendo irrequieta como era a notícia caiu-lhe como uma bomba. Ficou infelicíssima e até a cor azul da pele empalideceu de desânimo. As irmãs sentiram imensa pena, mas não revogaram o castigo pois era mais do que merecido. De modo que ela não teve outro remédio senão esperar. As outras dimensões, os mundos, os universos que existem para além do nosso, não lhe estavam no entanto vedados. Mas que lhe importava a ela! Isso em nada lhe aligeirava a tristeza.
Finalmente, no dia em que a Flor Multicolor se fendeu e dela brotaram cores estriadas de música, todas as fadas se juntaram para assistir ao glorioso e raríssimo espectáculo. A Fadinha pulou de alegria e mal terminaram os avisos e conselhos das irmãs esvaneceu-se no ar como uma bola de sabão que rebenta.
E materializou-se no mundo dos homens. Era noite. Todos dormiam. Deu cabriolas e saltos de intensa felicidade e, da variedade de padrões que lhe chegavam, escolheu um. Estranhou que existissem tão poucos. Da última vez que estivera cá eram numerosos. Porque seria? Notou também que os poucos existentes demonstravam uma vitalidade inaudita. Não querendo demorar-se em perguntas (sempre preferira a acção às perguntas), seguiu o padrão escolhido como as abelhas seguem uma rota para determinada flor.
O padrão conduziu-a a um prédio. A Fadinha desapareceu e tornou a reaparecer já no interior dele. Estava dentro de um quarto e alguém dormia. Era Dionísia. Embora todos a tratassem por Nia porque ela detestava o nome de Dionísia, mas eu acho que é um nome muito bonito.
Mas, como referi atrás, para cada regra há inúmeras excepções. Uma delas chama-se Fadinha (bom, o seu verdadeiro nome consiste num círculo amarelo ao qual se junta, no meio, uma bola vermelha, saindo os dois objectos da boca da Fadinha quando alguém lhe pergunta: «Como te chamas?» Mas como me é impossível fazer esta habilidade julgo mais fácil tratá-la por Fadinha.)
A Fadinha é uma fada dos sonhos. Mas diferente das suas irmãs. É irrequieta, traquinas, descuidada, adora fazer travessuras e pregar partidas. Ri-se quando lhe falam de segurança e lhe fazem advertências aos riscos a evitar. E ri-se ainda mais quando a avisam, repetidamente, para não visitar o mundo dos homens.
- É perigoso demais, - dizem - os humanos são criaturas imprevisíveis - repetem. - Sem dares por ela cais numa armadilha, és feita prisioneira e morres! E nenhuma de nós te poderá ajudar! - finalizam.
A Fadinha ri às gargalhadas e contrapõe a todos os argumentos os motivos que a levam a comportar-se desprevenidamente:
- Eu adoro a imprevisibilidade humana! De todos os seres de todas as dimensões são eles que têm os sonhos mais belos! Gosto de brincar com eles, gosto de divertir-me! Adoro o seu ar de espanto quando me apresento! Não me aborreçam com os vossos avisos infantis! De nada valem! Já esperei tempo demais! Hoje a liberdade é minha!
E dito isto eclipsa-se como uma bola de sabão em pleno ar.
A Fadinha, devido à sua natureza irrequieta, metera-se em sarilhos séculos atrás. Fora apanhada por um feiticeiro maligno que tencionava roubar-lhe o poder dos sonhos, o poder que dá à fada a possibilidade de tocar no padrão dos sonhos e de o moldar como plasticina ou barro. Ora, se lhe conseguisse meter a unha, o feiticeiro ficaria poderoso o suficiente para poder controlar os homens e submetê-los à sua vontade pelo tempo que desejasse. Mas a sua missão fracassou quando as irmãs da Fadinha acorreram em seu auxílio livrá-la daquele aperto. Como castigo (pois já fora avisada vezes sem conta do perigo que corria na dimensão humana, não só dos homens como também de outras criaturas que aí a podiam capturar facilmente) proibiram-na de visitar o nosso mundo por séculos e séculos. Contudo as fadas não contam o tempo da mesma maneira que nós. De facto, para elas o tempo não existe. Não existe nem dia nem noite, nem mês nem semana, nem anos nem décadas. Num mundo assim, e ainda por cima sendo as fadas imortais, dá a impressão que se devem aborrecer imenso, lançando contínuos suspiros de tédio para o céu. Pelo contrário. Muito sucede no seu mundo e as coisas lá nunca permanecem iguais.
Assim, para discutirem a punição a dar à sua irmã Fadinha, reuniram-se em conselho e decidiram que só deveria visitar novamente a dimensão humana quando a Flor Multicolor se abrisse jogando para o alto raios de som e de luz. Um acontecimento raro no mundo das fadas. A Flor Multicolor desabrochava apenas de meio em meio milénio. No entanto quinhentos anos nada significam para as fadas porque elas têm o dom da imortalidade e por isso não se impacientam e sabem esperar. Menos a Fadinha. Sendo irrequieta como era a notícia caiu-lhe como uma bomba. Ficou infelicíssima e até a cor azul da pele empalideceu de desânimo. As irmãs sentiram imensa pena, mas não revogaram o castigo pois era mais do que merecido. De modo que ela não teve outro remédio senão esperar. As outras dimensões, os mundos, os universos que existem para além do nosso, não lhe estavam no entanto vedados. Mas que lhe importava a ela! Isso em nada lhe aligeirava a tristeza.
Finalmente, no dia em que a Flor Multicolor se fendeu e dela brotaram cores estriadas de música, todas as fadas se juntaram para assistir ao glorioso e raríssimo espectáculo. A Fadinha pulou de alegria e mal terminaram os avisos e conselhos das irmãs esvaneceu-se no ar como uma bola de sabão que rebenta.
E materializou-se no mundo dos homens. Era noite. Todos dormiam. Deu cabriolas e saltos de intensa felicidade e, da variedade de padrões que lhe chegavam, escolheu um. Estranhou que existissem tão poucos. Da última vez que estivera cá eram numerosos. Porque seria? Notou também que os poucos existentes demonstravam uma vitalidade inaudita. Não querendo demorar-se em perguntas (sempre preferira a acção às perguntas), seguiu o padrão escolhido como as abelhas seguem uma rota para determinada flor.
O padrão conduziu-a a um prédio. A Fadinha desapareceu e tornou a reaparecer já no interior dele. Estava dentro de um quarto e alguém dormia. Era Dionísia. Embora todos a tratassem por Nia porque ela detestava o nome de Dionísia, mas eu acho que é um nome muito bonito.
Sábado, Fevereiro 23, 2002
Esta é a minha segunda entrada...não sei se deu para reparar, mas não faço a mínima ideia de como isto funciona! Ai... estou perdida! Como é que se acrescenta uma janelinha para os comentários dos leitores? Se calhar é mais simples deixar o e-mail: dunyazade@aeiou.pt
A FADA DOS SONHOS
1
Por natureza as fadas não apreciam a companhia humana. Julgam os homens mais como predadores do que amigos em quem se pode confiar. Acautelam-se e não dão mostras da sua presença perante nós. É esta a única forma de se sentirem seguras. As fadas, por hábito e ofício (sim, até as fadas trabalham, mas mais por gosto do que por obrigação), deambulam por dimensões, realidades paralelas à nossa. Visitam-nas, passeiam, conversam com os seres que as habitam e ajudam-nos. Mas evitam o nosso mundo. Sabem que, uma vez vistas, serão caçadas e perseguidas pelos homens, cujo único intento é o das exibirem em circos, jardins zoológicos ou até centros comerciais. Como o Colombo. Assim tornam-se raras as visitas das fadas à nossa dimensão. Para garantir a sua segurança preferem não fazê-lo. E quem pode criticá-las? Mas é uma pena porque sem elas estamos condenados cada vez mais a um a caminho que desemboca na tristeza total e irrevogável.
No entanto... no entanto... para cada regra existe uma quantidade infinda de excepções. Uma dessas excepções é a Fada dos Sonhos.
As fadas dos sonhos são entes que ajudam quem quer que seja que albergue no íntimo um sonho a realizá-lo. Por mais impossível que pareça a sua concretização estas fadas dão-nos a força e aguçam-nos o engenho de modo a ultrapassarmos obstáculos que, à primeira vista, se assemelham a montanhas tão altas e intrasponíveis como os Himalaias, mas que na realidade não passam de colinas. Por vezes nem isso, apenas montículos de poeira que se nos entranham nos olhos, dificultando a visão correcta das coisas. Mas só pela força da vontade e da coragem, enfrentando o medo, é que tais montes minúsculos são reconhecidos pela sua verdadeira grandeza. Contudo frequentemente o medo é grande e é nessas alturas que as fadas dos sonhos intervêm. Às vezes basta só falarem connosco ou estarem perto de nós para nos tranquilizarem. Nem precisamos vê-las. A sua presença é tão benéfica como um raio de sol primaveril em neve, derretendo-a em água. As fadas dos sonhos são como pequeninos focos de luz que nos derretem os receios e fortalecem-nos a valentia. A coragem, o brio, as ganas!
Mas mesmo estas fadas não gostam de se evidenciar perante a vista humana, mesmo àqueles que ajudam. Não que temam que estes as aprisionem ou denunciem. De modo nenhum! As fadas dos sonhos só ajudam os sonhadores e sabem que estes seriam incapazes de as atraiçoarem. Temem, sim, os que não sonham e que, por vezes, rodeiam os sonhadores. Desses têm medo. Mas como são elas capazes de distinguir uns dos outros? Através do padrão dos sonhos possuído por todos os sonhadores. É como uma aura multicolor (invisível para nós) rodeando o corpo, como um arco-íris albergando todas as cores do universo, um padrão onde elas lêem os estados emotivos da pessoa, os seus receios e temores mais secretos, os ideais e as fantasias. Um código secreto a que só elas têm acesso, que só elas sabem tocar, como se toca numa harpa ou num piano, arracando-lhes sons de melodia celeste e que animam qualquer um, por mais taciturno que se sinta. Trata-se de um padrão tão complexo que é impossível descrevê-lo por inteiro. Devido à dificuldade em entendê-lo as fadas, para se tornarem fadas dos sonhos, passam por rigorosos testes, provas e avaliações, de modo a comprovarem a sua competência. Até as fadas vão à escola e mesmo a elas é requerido o transpor de obstáculos de maneira a conquistarem o que desejam. Por isso sabem exactamente como nos ajudar.
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Por natureza as fadas não apreciam a companhia humana. Julgam os homens mais como predadores do que amigos em quem se pode confiar. Acautelam-se e não dão mostras da sua presença perante nós. É esta a única forma de se sentirem seguras. As fadas, por hábito e ofício (sim, até as fadas trabalham, mas mais por gosto do que por obrigação), deambulam por dimensões, realidades paralelas à nossa. Visitam-nas, passeiam, conversam com os seres que as habitam e ajudam-nos. Mas evitam o nosso mundo. Sabem que, uma vez vistas, serão caçadas e perseguidas pelos homens, cujo único intento é o das exibirem em circos, jardins zoológicos ou até centros comerciais. Como o Colombo. Assim tornam-se raras as visitas das fadas à nossa dimensão. Para garantir a sua segurança preferem não fazê-lo. E quem pode criticá-las? Mas é uma pena porque sem elas estamos condenados cada vez mais a um a caminho que desemboca na tristeza total e irrevogável.
No entanto... no entanto... para cada regra existe uma quantidade infinda de excepções. Uma dessas excepções é a Fada dos Sonhos.
As fadas dos sonhos são entes que ajudam quem quer que seja que albergue no íntimo um sonho a realizá-lo. Por mais impossível que pareça a sua concretização estas fadas dão-nos a força e aguçam-nos o engenho de modo a ultrapassarmos obstáculos que, à primeira vista, se assemelham a montanhas tão altas e intrasponíveis como os Himalaias, mas que na realidade não passam de colinas. Por vezes nem isso, apenas montículos de poeira que se nos entranham nos olhos, dificultando a visão correcta das coisas. Mas só pela força da vontade e da coragem, enfrentando o medo, é que tais montes minúsculos são reconhecidos pela sua verdadeira grandeza. Contudo frequentemente o medo é grande e é nessas alturas que as fadas dos sonhos intervêm. Às vezes basta só falarem connosco ou estarem perto de nós para nos tranquilizarem. Nem precisamos vê-las. A sua presença é tão benéfica como um raio de sol primaveril em neve, derretendo-a em água. As fadas dos sonhos são como pequeninos focos de luz que nos derretem os receios e fortalecem-nos a valentia. A coragem, o brio, as ganas!
Mas mesmo estas fadas não gostam de se evidenciar perante a vista humana, mesmo àqueles que ajudam. Não que temam que estes as aprisionem ou denunciem. De modo nenhum! As fadas dos sonhos só ajudam os sonhadores e sabem que estes seriam incapazes de as atraiçoarem. Temem, sim, os que não sonham e que, por vezes, rodeiam os sonhadores. Desses têm medo. Mas como são elas capazes de distinguir uns dos outros? Através do padrão dos sonhos possuído por todos os sonhadores. É como uma aura multicolor (invisível para nós) rodeando o corpo, como um arco-íris albergando todas as cores do universo, um padrão onde elas lêem os estados emotivos da pessoa, os seus receios e temores mais secretos, os ideais e as fantasias. Um código secreto a que só elas têm acesso, que só elas sabem tocar, como se toca numa harpa ou num piano, arracando-lhes sons de melodia celeste e que animam qualquer um, por mais taciturno que se sinta. Trata-se de um padrão tão complexo que é impossível descrevê-lo por inteiro. Devido à dificuldade em entendê-lo as fadas, para se tornarem fadas dos sonhos, passam por rigorosos testes, provas e avaliações, de modo a comprovarem a sua competência. Até as fadas vão à escola e mesmo a elas é requerido o transpor de obstáculos de maneira a conquistarem o que desejam. Por isso sabem exactamente como nos ajudar.
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