Domingo, Março 31, 2002


33

Nia levantou-se tarde. Sem o periquito como despertador levantava-se cada vez mais tarde porque se desabituara do seu despertador normal, menos barulhento e menos eficaz que Azur. Além de sentir a estafa no corpo devido à correria do dia anterior a moê-la. Os músculos doíam-lhe e custava-lhe movimentar-se. Tomou banho e só teve tempo de agarrar na mochila e numa pêra, largando a correr pelas escadas abaixo. É nessa altura que topa com o vizinho da frente.
- Então? Ainda por aqui? Pensei que, por esta altura, estivesse a arrebatar todas as medalhas de natação no campeonato europeu ou no mundial - disse, sem sequer a sombra de um sorriso lhe aflorar ao rosto. E Nia sempre considerara o hábito dele nunca a tratar por tu ou pelo nome próprio extremamente irritante. - Ou está a poupar-se para as olimpíadas? - finalizou.

- Ah-ah. O senhor tem muita graça - o vizinho nem se deu ao trabalho de fingir acreditar na tão por demais óbvia e insípida mentira social. Não que desse para notar. Nem que ele estivesse exultante, cheio de alegria, Dionísia desconfiava que desse para notar. As emoções que, porventura, albergasse não se viam à flor da pele. O sorriso pálido gelou-lhe no rosto. «Ou mais provavelmente fugiu de susto», considerou ela mais tarde. - Bem, estou atrasadíssima! Tenho de ir senão chego tarde à escola. Até logo.
E pirou-se, dando corda às canetas, como um virús fugindo da vacina garantindo a sua imediata extinção. «Aquele homem tem sonhos? Seria a última a suspeitar disso.»
À noite perguntou à Fadinha em que pé é que estavam as coisas com o vizinho da frente.
- Ah! Estou a adorar! Ele não me vê! Ponho-me muito próxima dele e ele sabe que há qualquer coisa diferente, vira-se e eu desapareço logo! Vai demorar tempo até que me decusbra.
- Cá para mim estás a arriscar-te demasiado...
- Não! Ele é muito divertido! Tem um animal todo esquisito numa caixa de vidro. Como se chama? Ah!, iguana. É verde e muito lento.
Uma iguana. O vizinho tinha uma iguana. Deveria ser por compatibilidade de carácteres, supôs.

- Divertido? Bem, tu lá sabes.
- Oh! - exclamou, desatando a desenhar hélices e espirais pelo quarto inteiro, freneticamente, com tal rapidez que só se vislumbrava uma mancha azul cruzando os ares. De súbito parou à sua frente, perto da testa. Nia teve de erguer os olhos para a ver.
- Tens usado a estante mágica que te ofereci?
- Sim, imensas vezes. Adoror ler. Mas para disfarçar continuo a pedir livros aos meus pais de quando em vez.
A fada arrebitou as minúsculas orelhas azuis, declarando de seguida:
- Ele acaba de chegar! Vai dar de comer à iguana! Vou brincar às escondidas com ele. Até logo!
E desapareceu. Dionísia aproveitou e foi dormir.
Mas o irmão decidiu aparecer nesse exacto momento, com o tamagotchi. Parecia ter ultrapassado por completo o desgosto do periquito. Demonstrou perante a irmã uma vez mais o funcionamento do bicharoco virtual.

- Carrega-se aqui e ele come, neste damos festas. Precisa também de dormir, de ir passear. Mas não pode comer nem dormir muito.
Nia bocejou.
- É giro Jaime. Mas estou como sono. Amanhã mostras-me melhor.
O puto ficou um bocado parado, a olhar par os sapatos, de ar modorrento.
- Que foi? - perguntou a irmã.
- A tartaruga. Achas que vai acordar algum dia?
- Claro que vai! - tentava dar às palavras um tom eufórico, mesmo que falso. - Vais ver, mais dia menos dia já a temos a voar por aí, por tudo quanto é sítio!
- Achas? - insistiu, de ar tristonho.
- Claro que acho.
Jaime apertou os lábios, deu um suspiro grande, esboçou um sorriso, disse boa-noite e saiu.
«O trabalho de uma irmã mais velha nunca está terminado», disse para si, satisfeita pela boa acção praticada.

Sábado, Março 30, 2002

Bom, vou ficar sem net em casa, de modo que demorarei mais tempo até colocar novos textos no blog. Feliz Páscoa a todos. Que o Espírito do Coelho esteja convosco! ;P

32

Uma girafa-bébé comia com movimentos vagarosos a sua sandes mista. Prostrava-se diante dela sem demonstrar qualquer sinal de medo. Comeu até à última migalha e depois encarou-a directamente nos olhos, como que dizendo: «Há mais?» Era preciso ter lata! Mas que país surrealista! Donde tinha vindo a girafa, de que dimensão, de que nave espacial? E o que raio faria num centro comercial - a rapinar comida a gente respeitável? Antes de fazer qualquer gesto Nia apercebeu-se da chegada de Beta, carregada de sacos. Típico: na dúvida decidia-se por tudo. E o mais certo era o pai cortar-lhe a mesada outra vez quando visse o buraco negro deixado por ela na sua conta bancária. Beta estacou, tão surpreendida quanto Nia por ver um animal exótico num lugar, no mínimo, pouco habitual. A girafa-bébé dirigiu-se a ela, cheirou-lhe o cabelo, mordiscou-o e depois voltou a sua atenção para os sacos de compras. Sem lhe dar oportunidade de reagir agarrou em dois com a boca, largando a correr pelo contro comercial. As pessoas paravam de pasmo e olhavam bem para os lados, para terem a certeza de não se encontrarem na savana de África e serem surpreendidas pelo súbito aparecimento de um leão, de extensa juba ondulante, em perseguição do almoço renitente. Em vez disso observaram após a passagem da girafa duas miúdas na sua peugada. E ninguém com a câmara a jeito para mandar para o «Isto só vídeo»!

A girafa não largava os sacos e dava cabriolas no ar. Era evidente estar a apreciar a brincadeira. Quando Nia e Beta estacavam o passo, de modo a recuperar o fôlego, a girafa parava também, observando-as com olhos cheios de curiosidade. Mal estas recomeçavam a corrida a girafa-bébé retomava o trote, coquette, bamboleando-se com graciosidade e toda satisfeita. Certa altura pousou os sacos por instantes, quando as duas davam mostras de não conseguirem aguentar mais, só para tornar as coisas interessantes e levá-las ao retomar do, na sua óptica, jogo.
A certa altura, porém, a girafa acabou por ser detida, a contragosto, pelo tratador que a conduzira do aeroporto rumo ao jardim zoológico de Lisboa. Não sabia de que maneira ela se escapara do camião quando ele parara para ir beber uma bicazinha rápida. De volta reparou que a fechadura se encontrava aberta - ainda estava para saber como é que ela tinha feito o serviço! - e de girafa nem o cheiro. Entrou em pânico e perguntou aos transeuntes se a tinham visto. Indicaram-lhe o centro comercial do fundo da rua. Dirigiu-se para lá e deu de caras com um quadro humorístico, digno das fitas de Charlot. Não conseguiu reprimir o riso ao ver a aflição das garotas. Ao fim de algum tempo a apreciar o espectáculo travou serenamente a girafa brincalhona. Não deixou, contudo, de se desfazer em desculpas perante as miúdas, lamentando o incidente. Perguntou-lhes o nome e disse que da próxima vez que visitassem o zoo teriam duas entradas grátis. Seguidamente despediu-se e levou a girafa. Beta fez uma vistoria rápida aos seus pertences notando com alívio que nada se danificara. Não havia marcas de dentes nem rasgões. As roupas estavam apenas um pouco amarrotadas. De súbito Nia desatou a rir. Ao princípio devagar, depois mais alto até que não aguentou e explodiu numa gargalhada.

- Mas o que é que tu tens?! - indagou Beta, não achando graça a nada do que tinha acontecido.
- Uma girafa com mania de modas. Achas que quer ser modelo quando for grande?
Aqui Beta desatou a rir, depois de uma expressão momentaneamente cerrada. Regressaram as duas a casa, a rir e a rir, como tolinhas. Jaime afirmou:
- Raparigas... quem é que as entende? São todas doidas.

Quinta-feira, Março 28, 2002

Yuko, caso estejas a ler isto... olááááááá! ;)

31

Beta obrigou Nia a acompanhá-la ao centro comercial, paga por ela a ter arrastado a um museu assombrado pelos próprios quadros. Conhecia a amiga e sabia que detestava as constantes «peregrinações», como as chamava em jeito de gozo, às «catedrais do consumo» para comprar roupa, desporto favorito de Beta. Ainda lhe parecia impossível darem-se tão bem, duas pessoas que primavam pela diferença: uma taradinha por livros, outra taradinha por roupa. Conheceram-se na primeira classe, aos seis anos. Dionísia, no recreio, encolhia-se a um canto com um livro. Já sabia ler desde os cinco e parecia absorvida na leitura, o que despertou o interesse de Beta. Curiosa, aproximou-se e sentou-se ao seu lado. Dionísia, no entanto, apenas fingia ler. Estava aterrorizada com o primeiro dia de escola e só muito a custo conseguiu conter as lágrimas. «O que lês?», perguntou-lhe. «Joana vai à festa», respondeu. Foi tiro e queda. Sem saberem como entabularam um diálogo que persistia até hoje. Na verdade, poucos entendiam a amizade de duas pessoas tão dissemelhantes: uma era extrovertida e faladora, vaidosa e exuberante; a outra metia-se mais consigo, meditabunda, não tinha pachorra para modas e primava pela reserva. Apesar de tudo davam-se às mil maravilhas.

- Não me vou demorar muito - assegurou Beta. - Vou só comprar umas roupinhas que me fazem falta. Uns... dois pares de calça de ganga e um par de sapatos que combinem. E talvez um perfume. Com essência de jasmim.
- Vais demorar-te eternidades, que eu já te conheço de gingeira.
- Ora! Ao menos compro coisas de jeito, coisas que se usem! Tu não, só pensas em livros! E não te esqueças que és igualzinha a mim de cada vez que te aparece uma livraria à frente do nariz. De qualquer modo hoje não há desculpas, já tinhas dito que sim. Além do mais, a meu ver, acho que me deves dez saídas a outros tantos centros comerciais só pelo susto que apanhei naquele maldito museu.
- Livra! Está bem, está bem... não vou resmungar mais.
- Óptimo! Olha! Anda daí, vou começar por esta loja! - e sem demoras agarrou-lhe o antebraço com força, arrastando-a literalmente para dentro da loja pejada de calças de ganga, todas simetricamente dobradas nos armários, organizadas por cores e tamanhos. Beta interpelou a empregada, que devia rondar os dezoito anos, com a familariedade que lhe era característica. Começou logo por experimentar cinco pares diferentes de calças, demorando-se a observar a silhueta de cada vez que ensaiava novo par de jeans, enchendo Nia de perguntas quanto ao seu aspecto. «O que achas? Está bem? Sim? Mas podia estar melhor, não é? Não? Ó rapariga, quando é que aprendes! Pode sempre estar melhor! Não quero estas, vou experimentar aquelas. Que fazes? Vê! Olha práqui! Então? São melhorzitas, não são? Mesmo assim não é ainda bem o que eu andava à procura... e não faças essa cara de enjoada, ajuda-me a escolher.»

Dionísia, ao décimo segundo par de calças, não aguentou e saiu para forrar o estômago.
- Vai, vai lá. Eu não me devo demorar muito mais.
«Vai uma aposta?», pensou Nia para si. Farta de estar de pé dentro da loja minúscula a olhar para os sucessivos pares de jeans que Beta ia envergando, numa escolha tardada, já que a amiga insistia em ser a mais bem vestida do liceu, Dionísia sentou-se no snack-bar ao lado e pediu um galão e uma sandes mista.
- Aqueça a sandes, por favor - pediu. Apreciava o queijo morno derretido misturando-se com o fiambre do pão no céu da boca. Mastigava os pedaços pequenos, de forma a adiar até ao limite possível ir ter com a amiga. O ritual dela exasperava-a! «Bolas, eu experimento dois pares de calças e tô despachada! Ela não, leva horas!» Embrenhada nos pensamentos e deleitando-se com um pequeno-almoço tardio não notou uma figura subrepticiamente aproximar-se por detrás de si. De repente a sandes foi-lhe arrebatada com brusquidão e sentiu no cachaço uma respiração húmida e pesada. Gelou de pavor. Devagar, lentamente, virou-se. E o que viu fê-la arregalar os olhos de espanto.

Quarta-feira, Março 27, 2002


30

A mãe andava a perder as estribeiras com o periquito. Ultimamente lançava olhares de ódio cada vez mais frequentes ao pássaro azarento do sono alheio. Certa altura preparava a salada e quase que acabava com a bancada da cozinha devido à força empregue no cutelo. O pássaro começara nova cantoria e a mãe ia retalhando sincronizada a cebola, embora Dionísia soubesse bem o que ela preferia estar a cortar. Jaime notara o comportamento da mãe em relação ao malfadado pássaro. Na verdade, era difícil escondê-lo. Nia suspeitava que, mais tarde ou mais cedo, ela acabaria por arranjar uma desculpa para o pássaro se ir embora. Até o pai não aguentava mais a toada estridente de Azur todas as manhãs. Certa vez ouviu-o resmungar entredentes: «Não falha a porra de um dia...» Quando notou a presença da filha aclarou a garganta, como se se tivesse engasgado com alguma coisa. Nia sorriu e ficou contente por saber não ser a única que já estava pelos cabelos.

- Hoje fui ao médico - fungou a mãe à hora do jantar. Ultimamente andava a fungar muito, uma constipação, dizia. O facto é que andava constipada para aí à três semanas. «Nem a gripe dura tanto», pensou Nia. - Sou alérgica a aves, às penas das aves, quero dizer - disse, olhando Jaime pelo canto do olho. Ele não se manifestou.
- Vamos ter de dar o pássaro a alguém - finalizou. Aí Jaime parou de comer e gritou um furibundo e determinado «NÃO!». E foi a correr de novo enfiar-se no quarto. O pai levantou-se da mesa e foi ter com ele. Ao fim de um minuto nova recusa categórica ecoou pela casa: Não! A mãe, tentando persuadir o filho, obteve idêntico resultado. Nia nem se deu ao trabalho de tentar.
Durante dias não se mencionou o assunto e a mãe resolveu ensaiar outra via: a chantagem emocional. Andou a fungar e a chorar e a espirrar (são tais os sintomas das alergias) dias a fio, até que Jaime concordou finalmente em oferecer o piriquito ao tio Antunes, que fazia criacção. Remédio santo, a mãe curou-se da alergia e o resto da família da falta de sono.
E quando Jaime lhe perguntou porque é que era alérgica a Azur e não ao melro ela engasgou-se, gaguejou, até o pai vir em sua salvação:
- É uma alergia desenvolvida recentemente.

Com a ajuda da pimenta, pensou Nia com os seus botões. Estranhava não haver pimenta em casa ultimamente, embora não se atrevesse a acusar ninguém. Contudo Jaime não ficou satisfeito com a resposta da mãe, não sendo parvo de todo. Fingiu acreditar uma vez que as olheiras matinais da família estavam a fazer cada vez mais parte da rotina. Apercebeu-se que não poderia continuar a sacrificar o descanso dos outros só por causa de um piriquito. E, além disso, não era como se Azur tivesse morrido, estava bem vivo na casa do tio e ele poderia ir visitá-lo sempre que o desejasse. Os pais, roídos de remorsos, compraram-lhe outro tamagotchi. Jaime ficou eléctrico. E esse já durou mais tempo.
No meio da crise familiar a tartaruga não despertou, nem com o barulho do piriquito, que era capaz de sobrepôr os seus guinchos a uma peça de Beethoven. Dionísia perguntava-se se dormiria para sempre e se a tartaruga teria de ser passada de testamento em testamento, ao longo de gerações. Beta replicou que se calhar ela estava à espera de um príncipe encantado que a despertasse com um beijo.
- É uma tartaruga macho - elucidou, não fosse haver enganos.
- Oh...bem, aí já é mais difícil.
- Ora não que não é. Não acho que a tartaruga fosse gostar lá muito da conversa - rematou Dionísia.

Segunda-feira, Março 25, 2002


29

Enquanto Jaime se entretinha com Azur, ocupação que lhe distraíu o pensamento da recente perda, a Fadinha dava contas à irmã de um novo interesse: o vizinho da frente.
Nia contraiu-se involuntariamente e de súbito veio-lhe à memória um incidente envolvendo ambos.
Certo dia, tinha ela acabado de limpar o hall da entrada, abriu a porta e por mero descuido entornou o balde de água suja em cima dos sapatos do vizinho da frente. Ele não deve ter ficado muito satisfeito, mas o facto de apresentar sempre a mesma cara, a mesma expressão, dificultava a Dionísia intuir o que sentia. E, além de nunca sorrir, usava óculos com lentes grossíssimas e os olhos pareciam minúsculos, alfinetes, de maneira que era impossível saber o que se passava por detrás deles. Vendo os pés molhados, declarou:
- Está a construir uma piscina em casa? Planeia treinar aqui para os mínimos europeus? E pelos vistos quer incentivar o resto do prédio a fazê-lo. Ou está a fazer pesquisas prévias para um furo?
O tempo que demorou a tirada não mexeu nem um músculo. Dionísia, especada, com cara de parva, não sabia o que dizer ao raio do homem. Talvez a verdade.

- Desculpe...foi sem querer...eu nem o vi...- sorriso amarelo. - Para a próxima terei mais cuidado - sorriso amarelo a murchar.
- Faça isso.
E afastou-se a passo normal. Dionísia pelava-se de medo do homem.
E era por esta estranha personagem que a Fadinha demonstrava tanto interesse.
- O das lentes da grossura do fundo de garrafa?! - perguntou, abismada.
- Sim! Oh, se pudesses ver a maravilha dos seus sonhos, belos, belos!
- Aquele homem sonha?!
- Sim! E são sonhos fantásticos, lindos! Incríveis...
- Sim, sim, já ouvi. Não acredito é muito.
- Oh, e porquê?
- Sei lá...ele parece tão...diferente, assim à primeira vista.
- Mas tu sabes que uma coisa não está relacionada com a outra! Oh, quem me espanta agora és tu! - redarguiu, cruzando os braços azuis pequenos e virando a cara zangada.
- Não sejas assim! Ok, desculpa...eu...eu não fazia a mínima ideia.

- Está bem, eu desculpo. Oh, gostaria de falar com ele como faço contigo, mas ainda não!
- Ele não é lá muito simpático, está sempre de trombas...
- Isso nada significa. Os sonhos que tem são magníficos!
- Podes, portanto, confiar nele?
- Absolutamente.
- Incrível. Sempre foi outra a imagem que tive do homem. Não fazia a mínima ideia. Ainda não falaste com ele?
- Não.
- Porquê?
- Gosto de jogar às escondidas! Às vezes estou tão perto do seu rosto que basta ele levantar os olhos que me vê! Mas eu fujo e escondo-me sempre um momento antes disso!
- Porquê?
- Ora!...Porque é divertido! Era o que eu teria feito contigo se não tivesse sido aquela confusão do livro.
- Pareces uma criança.
E a Fadinha desatou a rir com as peculiares gargalhadinhas frescas e cheias de energia. Redopiou à volta de Nia, em espirais, depois parou subitamente perto da sua orelha e disse: «Vai dormir! Até logo!» E desapareceu. Dionísia sabia perfeitamente que o seu «até logo» tanto podia ser amanhã como daqui a uma semana. O sentido temporal da fada não coincidia em definitivo com o seu. Encostou-se na almofada, fechou os olhos e acordou na manhã seguinte com os berros de Azur.

Domingo, Março 24, 2002


28

A tartaruga ficou a pairar, virada para a parede da sala, próxima do tecto, tantos dias que a mãe perguntou com preocupação:
- Será que está morta?
- Não, se estivesse não continuaria a pairar - redarguiu Nia.
- Se calhar o que paira é a carapaça e não ela...- ajuntou o pai, a medo, olhando de soslaio o querubim. Habituara-se ao ser marinho voador a entrar e a sair pela janela da sala às horas mais impróprias. A família emudeceu à resposta do pai. Nia decidiu pedir ajuda à fada. Numa madrugada em que todos dormiam, a Fadinha entrou pela carapaça da tartaruga e observou-a demoradamente. No fim disse:
- Está a dormir. Foi a sua forma de reagir ao desgosto.
- E quando é que acorda?
- Não sei.
De manhã Dionísia amandou a ideia para o ar, como se lhe pertencesse: «E se ela está apenas a dormir? A hibernar?»

- A hibernar! - repetiu logo a mãe muito depressa, dando uma estalada na testa. - Como é que a gente não se lembrou disso!
O fim-de-semana seguinte passaram-no na terra da avó onde o melro foi enterrado ao lado do tamagotchi, com todas as honras. O pai proferiu novamente palavras condignas e desta vez Nia não achou a cerimónia ridícula. Apetecia-lhe chorar, mas conteve-se. De volta a casa, no carro, Jaime seguiu calado, sem sequer se dar ao trabalho de arreliar a irmã com puxões, como era seu costume. Adoptara a expressão facial do pai aquando do fim do pão mágico: olhava através das coisas, sem reparar em nada. O pai assustou-se com a emoção do filho que não achava meios de extravasar e, chegados a casa, pela segunda vez disse-lhe:
- Vai buscar o teu casaco. Vamos sair.
E regressaram a casa trazendo um piriquito azul, hiper barulhento e refilão. A tartaruga não pôs a cabeça de fora nem deu sinal de vida. Nem um pio.

Jaime passou a dedicar-se de corpo e alma a Azur, nome que lhe deu por causa da cor. Nia, com algodão nos ouvidos nas manhãs em que ele desatava a guinchar histericamente antes das seis da manhã, reprimia a vontade latente de um «pariquiticídio» lembrando-se do estado em que o irmão estivera antes. Mordendo a almofada de raiva perguntava-se se aquele berreiro todo não teria o condão de acordar os mortos. E a resposta que se dava era sim, provavelmente teria. Não se admirava nada se uma delegação dos ditos cujos lhes viesse bater à porta, com justificadas queixas de lhes estarem a «perturbar o descando eterno». O algodão, em geral, não funcionava e Nia várias vezes foi acometida de breves episódios psicóticos, tendo a súbita vontade de esganar o bicho. Novamente recordava a expressão de Jaime, olhando o Nada de frente, e continha os ímpetos homicidas. Com a almofada por cima da cabeça tentava adormecer até às seis e meia, hora a que costumava levantar-se. Sem resultado.

Sábado, Março 23, 2002

Vim agora do casamento do meu primo Luís. Ai a minha cabeça, ai os meus pezes ... :(

Sexta-feira, Março 22, 2002


27

Os pais de Edgar, vendo o filho na televisão, ficaram orgulhosíssimos e não pararam de comentar o assunto dias a fio. Pela mesma altura o vizinho que tinha ido à procura de dona Albertina regressou dizendo que ela desaparecera, como se se tivesse esfumado em pleno ar. O pai não se incomodou.
Nia, quando tudo corria na normalidade, baixou a guarda e o irmão quase a viu a falar com a Fadinha.
Durante a noite, já todos se haviam recolhido, Dionísia conversava com a fada, quando esta decidia aparecer. Mas não contou com a imprevisibilidade do irmão. Este, uma noite, levantou-se com sede e dirigiu-se à cozinha. No quarto da irmã escutou um bichanar suspeito. Estranhou e pôs o olho bisbilhoteiro na fechadura. Viu a irmã, aparentemente a falar sozinha. Não descortinou a fada pois esta encontrava-se fora do seu alcance visual. Julgou que Dionísia endoidara, perdera os pirulitos de vez. No dia seguinte puxou conversa:

- Com quem é que tu estavas a conversar ontem à noite no quarto?
Dionísia sentiu um arrepio na espinha.
- Eu?
- Sim, tu. Eu ouvi-te. Era com quem, Nia?
- Com ninguém.
- Pois era, com ninguém. Estavas a falar sozinha que eu vi.
- Não sejas parvo! Viste? Viste como?!
- Espreitei pelo buraco da fechadura.
- Devias levar já uma lambada por causa disso. Eu digo aos pais que tu agora armaste em coscuvilheiro!
- Pois diz! E eu digo que tu andas a falar sozinha! Ainda te internam no hospital dos maluquinhos!
- Quem te interna sou eu! Anda cá!
E pôs-se a correr atrás do irmão, como de costume. Apanhou-o, lançou-o por terra e disse-lhe:

- Fica a saber que estava a falar alto, sim senhor, mas era a declamar poemas, estúpido!
- Larga-me senão eu digo à mãe!
- Então chama-a lá, vá, chama-a! Mariquinhas pé de salsa!
- MÃÃEEE!
A mãe entrou e viu os dois no chão, à porrada outra vez e gritou-lhes:
- Párem com essa chinfrineira! O melro não está bom, tem um ar murcho.
Dirigiram-se à cozinha onde de facto o pássaro apresentava uma expressão, pelo menos assim o parecia, agoniada.
- Parece que está enjoado... olhem como ele leva a asa ao estâmago...
- Pois é... - concordou o irmão, completamente esquecido da luta. - Esquisito.
- Não façam mais barulho para não o incomodar - aconselhou a mãe.
Jaime levou o que ela disse à letra e esteve o dia todo a fazer-lhe companhia. Tencionava manter-se acordado a noite inteira de modo a «mantê-lo sob observação», segundo declarava, contudo o sono surpreendeu-o e na manhã seguinte encontrou a ave ao seu lado - incontestavelmente morta.

Ninguém chegou a saber como. No mesmo dia, porém, o pai notou notável diminuição do uísque velho. Não se lembrava de o ter consumido, mas explicou o facto como sendo algo que fizera aquando do seu estado de pedra. Aliás, dessa altura não se lembrava de coisíssima nenhuma a não ser a recorrente cor branca.
Jaime ficou de coração partido e aconchegou a avezita de encontro ao peito, tentando reavivá-la. Massagou-lhe o peito e as penas, bateu-lhe as asitas devagar, várias vezes, e nada. Até que teve de se resignar e aceitar a morte irrevogável do pássaro. A chorar foi buscar uma caixinha, pôs o melro dentro dela e guardou-a no quarto. Seria enterrado na próxima ida à terra.
Mas quem apanhou maior desgosto foi a tartaruga. Dos olhos ramosos nasciam ninhos de
água. Lacrimejava e abria muito a boca perto da caixa onde Jaime pusera o melro. Um dia após a sua morte encontraram-na a pairar perto do tecto, com a cabeça e as barbatanas enfiadas dentro da carapaça. Jaime foi buscar o escadote, trepou-o, espreitou para dentro da carapaça. Disse:
- Não vejo nada - desceu, arrumou o escadote e foi meter-se de novo no quarto, a afagar a caixinha.


Quinta-feira, Março 21, 2002


26

Com o fim do pão mágico quase toda a Rua do Espanto entrou em depressão simultânea. Os habitantes sentiam a carência a nível físico e emotivo, como se parte da alma lhes tivesse sido arrebatada de supetão, como se tivessem sido expulsos do Paraíso por um ente divino nada satisfeito por lhe terem ido à macieira. Num minuto vogavam acima da terra, não só literal como psicologicamente, no outro caíam estrondosamente no chão, ficavam sujos de poeira, sentiam-se pesados. A anterior alegria abandonara-os, de novo as manápulas das coisas terrenas os puxavam para si e sorviam-lhes os ossos e a pele no quotidiano, nas trivialidades. Com o tempo habituaram-se, mesmo se a nostalgia do «pão encantado» de dona Albertina caminhasse um passo atrás, sussurrando-lhes ao ouvido antigas ternuras. Apenas o pai de Nia ficou completamente de rastos e andou às aranhas durante uns tempos. Passava os dias em casa, de chinelos e robe, com um olhar perdido e vazio, o cabelo esguedelhado e a expressão de quem já nada espera do mundo. Ou já está fora dele. Semelhava uma estátua de pedra, a única diferença residia no facto de, quando em vez, caminhar. Mas apenas para ir ao balcão onde se guardavam as bebidas, servir-se de uísque puro, sem gelo. Abominava água ou qualquer outro líquido no uísque, referindo-se a tal prática como uma «heresia», um desvirtuar propositado da bebida, da essência que a compunha. Servido o uísque, contudo, não chegava a bebê-lo, limitando-se a levá-lo para o sofá onde consumia os dias numa só actividade: olhar para a parede. Desfiava as horas nisso. O uísque, esquecido ao lado, de quando em vez pegava nele, levava-o aos lábios, mas nem uma gotinha lhe trespassava a boca. Ao invés pousava o copo de novo. Se a tartaruga calhasse voar por ali punha-lhe, distraído, o copo em cima da carapaça e ela lá ia, nas suas vagabundagens, com o melro e o copo a acompanhá-la. Certa vez o melro regressou de uma excursão zonzo, entoando um piar rouco e lento, arrastado, parecendo um motor velho que demora a arrancar. Andou com as asas caídas o resto do dia e a tartaruga afastava-se do bico dele com um asgar agoniado.

A mãe, muito a custo, ultrapassou a fase da «ressaca» do pão mágico, regressando à vida normal. Não percebia muito bem como é que, ao marido tão exacto, tão sem subjectividade nenhuma, o fim do pão encantado lhe pudesse correr pior do que à maioria das pessoas. Tentava falar com ele, dialogar. Debalde, o marido, atarefadíssimo na acção de olhar para a parede, não lhe respondia nem com murmúrios ou sequer comia. Durante semanas foi preciso alimentá-lo. Na verdade, tratando-se de alguém tão factual, tão objectivo, tão da matéria palpável e cogniscível, a experiência de um outro lado da vida, de um novo modo de ser e de rever as coisas marcara-o de forma indelével. Foi por isso que demorou mais tempo do que os outros a regressar ao normal. Quando enfim despertou do transe místico, do estado marmóreo, nem a notícia de que um dos vizinhos, quase tão afectado quanto ele, fora em busca de dona Albertina, a ver se a convencia a regressar ao antigo ofício - o afectou minimamente. Tinha ido ao Paraíso, vira a macieira, colhera o fruto e trincara a maçã. Depois a violenta e brutal expulsão do Edén lançou-o nos abismos da confusão interna, da petrificação, da quase-loucura. Mas subira a pulso os abismos, as ravinas. Voltara à superfície e observava do lado de fora os portões do Paraíso com pena e pesar - mas só. Era hora de voltar à vida.

O despertar ocorreu num Domingo. Desta feita o pai desistira de olhar para as paredes e encarava, de ar vazio, a televisão, que transmitia um programa sobre natureza e vida selvagem. Passava-se na Amazónia. Um grupo de cientistas pluridisciplinar conduzia um estudo de impacto ambiental antes da construção de uma barragem.
Edgar liderava o grupo. A transformação do pai deu-se num ápice, num átomo de tempo.
O pai inclinou-se no sofá para a frente e ainda mais para a frente, de sobrolho carregado. A pedra do rosto movera-se. Depois desligou a televisão, tomou banho, vestiu-se e ia já para sair sem dizer palavra a ninguém quando a mulher o interpelou, indagando para onde ia.
- Vou para o emprego.
- Mas é Domingo, homem!
- Não faz mal, é para adiantar trabalho.
E lá foi. Regressou à meia-noite, a mãe de Nia até pensava que lhe tinha acontecido alguma coisa, um acidente. Mas tinha estado a trabalhar o tempo todo.

Quarta-feira, Março 20, 2002

Consegui pôr a imagem de fundo com estrelinhas. Num é çiro? Hum, num é? ;)

25

Nia terminava sempre aquele tipo de conversas da mesma forma - com um suspiro resignado. Pedia silenciosamente a Deus que a amiga tivesse razão e que Malazon se tivesse fartado de esperar. E todavia...um arrepio agoirento arranhava-lhe a pele das costas. Sacudia-o com um tremer rápido. E depois continuavam o diálogo. Muitas vezes eram interrompidas, altas horas da noite, pela tartaruga, que batia à porta com pequenas marradinhas da cabeça, pedindo para entrar. A Fadinha adorava-a. Conseguia comunicar com ela. As duas juntas, no quarto de Nia, envolviam-se numa competição amigável, dando voltas e reviravoltas sobre si próprias. A fada cruzava a divisão de uma ponta à outra e convidava a tartaruga a imitá-la. Dionísia, cansadíssima, só tinha vontade de dormir. Quando estava prestes a cair no sono, a Fadinha zumbia alto aos seus ouvidos, zangada, declarando:
- Oh, outra vez a dormir?! Só pensas nisso?!
- Estou com sono. Amanhã tenho de me levantar cedo.
- Os humanos estão sempre a dormir! Oh, é irritante!

E lá cruzava de novo o espaço, seguida pela tartaruga que não voava com a rapidez da fada. Quando os olhos de Nia sucumbiam e se submetiam ao sono ela puxava-lhe as pálpebras para cima, chamando-lhe a atenção para uma acrobacia.
- Vê!
Executava saltos mortais repetidos e a tartaruga imitava-a na perfeição, embora primando pelo vagar.
O sono acabava por vencer e Dionísia adormecia. A última imagem bailando-lhe no olhar era a dança acrobática sincronizada entre uma fada e uma tartaruga voadora.
O chato das visitas da fada, além de serem escassas, era a duração. Em aparecendo exigia a imediata atenção dela, obrigando-a a estar acordada praticamente a noite inteira. Muitas vezes vinha artilhada de perguntas intermináveis sobre tudo e mais alguma coisa e exigia respostas que nunca lhe satisfaziam a curiosidade. Por vezes andava à roda do computador, coçando o cabelo curto dourado, à rapazinho, franzindo a testa e rebentando depois em perguntas furiosas:

- Mas para que serve isto afinal?! É tão...quadrado! Tão ridiculamente quadrado! Já notei que os humanos, em vez de olharem o ceú ou apreciarem as flores e as árvores, passam horas e horas (e tu também) - disse, apontando o dedo minúsculo azul numa acusação enquanto Dionísia se ria - especados, completamente parados, a olharem para esta coisa, e a única actividade a que se dedicam é feita com os dedos! Mas o que é isto?!
- Chama-se computador. O nosso mundo, hoje, é completa e inteiramente dominado por eles. Sem eles seria o caos, a desorganização total. Sem eles estaríamos perdidos. Trabalhamos com os computadores, tomamos decisões importantes com a sua ajuda e comunicamos com pessoas do outro lado do planeta através dele. E também brincamos com eles. Quando me vês a mexer os dedos e a olhar para o écran é porque estou a jogar ou a fazer os trabalhos de casa. Ou a escrever uma carta a alguém.
- Tu...«jogas» com essa máquina?

Olhou surpreendida para ela e para o computador, como se a noção de «brincar» com uma máquina fosse ela mesma uma brincadeira, tão inconcebível o era para o seu entendimento de fada. Esfregou a mão na cara, tornou a olhar para o computador, em jeito de desafio, e exclamou por fim:
- Ensina-me!

Que remédio, lá teve de a ensinar. O problema de Nia não era ter de aturar as suas infindáveis questões àcerca de coisas que toda a gente sabe como funciona e para que serve («E este botão? Então carregamos nele e o bonequinho vai para cima? Oh, fantástico! E se carregarmos para baixo ele vai para baixo! Espantoso! E ele não se cansa de andar para cima e para baixo, constantemente? E este botão desliga? E é só preciso carregar uma vez? Só uma? E depois de fazermos assim?»); nem residia na confusão que lhe provocava nas órbitas oculares voando em frenesim do écran para o teclado e rato, pondo-lhe a cabeça a latejar pois não conseguia acompanhá-la com a vista. O problema, o que realmente a chateava um bocadinho era que ela ganhava-lhe sempre! Claro que não ficava de trombas! Bom, se fosse com Jaime talvez ficasse, mas não ia zangar-se com a amiga fada só por causa de perder um jogo! Bom, na verdade perdeu todos. Ok, ok, ficou um bocadinho aborrecida. Afinal, sempre o comprara meses atrás e ainda não passara do nível cinco, enquanto que a Fadinha ao fim de duas escassas tentativas terminara-o! Era de ficar de cabelos em pé!

Mas a fúria era de pouca dura e Nia escondia-a bem. A Fadinha, contudo, lia-lhe os sentimentos no padrão dos sonhos e deixava-a ganhar um jogo, para lhe levantar a moral. Depois partia, a arrebentar de entusiasmo, sem a mais pequenina olheira debaixo dos olhos, para outras paragens, indo provavelmente incomodar o sono de alguém. Nia suspirava de alívio por poder, enfim, dormir. Mas, em simultâneo, sentia saudades e medo, tentando afastar do horizonte uma núvem negra que teimava em formar-se. E essa núvem carregava sempre o mesmo nome: Malazon.
Malazon.

Terça-feira, Março 19, 2002


24

No entanto, tudo o que é bom nem sempre dura. O pão levitador de dona Albertina produzia cada vez maior e continuado efeito sobre as pessoas. Não só demorava mais tempo a passar (as pessoas demoravam horas até tocarem com os pés no chão, o que se revelava uma chatice tremenda quando queriam dormir - planavam a escassos centímetros do colchão e, a meio da noite, caíam com um baque, acordando de supetão), como o seu efeito se intensificava. Em vez de permanecerem a poucos centímetros do solo a distância aumentou gradualmente para metros.
Desde que tudo começara não podiam levar os carros para o emprego porque os pés não chegavam aos pedais. Utilizavam os transportes públicos. Mas a sua presença, ao princípio ligeiramente perturbadora, foi-se tornando cada vez mais incomodativa para o resto dos passageiros uma vez que, com a distância que os separava do solo a aumentar a cada dia, começaram a atafulhar o tecto das camionetas e dos autocarros. As senhoras que traziam decotes eram as que menos gostavam da brincadeira.

Porém a intensidade do pão não diminuiu a gula dos que o comiam, antes lhe aumentava o louvor e a fama. De modo que a pobre da dona Albertina se via resumida a trabalhar cada vez mais, e não obstante o sacrifício o pão que cozia não chegava para as encomendas. Até que um dia o sapateiro lhe fez uma proposta irrecusável: comprar-lhe o negócio por um balúrdio. Ela, exausta, aceitou, reformou-se e foi viver com uma irmã longe dali, no Alentejo. O sapateiro desconhecia a arte de cozer pão, mas contratou padeiros de propósito. Ao princípio a farinha ainda tinha presente a figura da padeira, o seu plasma, via-lhe oculta a presença, sentia eivos dela nos nós dos dedos que batiam a massa - por isso o antigo sapateiro ainda fez bastante dinheiro. Mas, logo desfeito o engano, murchou dentro da farinha a alma, o espírito que a animava, a magia que apenas as mãos da padeira sabia tocar, moldar, modelar - e ao fim de alguns dias as pessoas começaram a cair disparadas do céu, sem aviso prévio, sem que tivesse havido aparente diminuição do levitamento. Tombavam que nem tordos dos tectos dos autocarros e das camionetas (justamente em cima das senhoras de decote generoso, que afastavam o evidente assédio sexual à estalada), caíam do ar, estatelando-se dolorosamente no solo. Ficou claro não serem os ingredientes utilizados na feitura do pão o segredo do seu encantamento. O ingrediente especial, o elemento essencial consistia na dona Albertina que amassava a farinha. Era ela que o tornava tão encantatório, mágico. O sapateiro acabou por perder dinheiro no negócio e voltou ao antigo ofício.

A tartaruga, não se sabia porquê, é que nunca mais perdeu a habilidade de voar.
Dionísia não chegou a provar o pão encantado com a firme convicção de que nem ele a faria adorar a odiada disciplina de matemática - e, se o fizesse, tinha medo de que, tal como a tartaruga, o gosto permanecesse crivado em si como uma estaca.
Dionísia conversou com a Fadinha quando ela finalmente decidiu aparecer àcerca dos estranhos eventos ocorridos na sua ausência. Novamente voltou a sacudir com total despreocupação uma fonte maligna para tais fenómenos inexplicáveis, nomeadamente Malazon.
- Ele já se esqueceu de mim! Foi há tanto tempo! Aposto que se cansou de esperar!
Nia arrebitou as orelhas.
- Disseste...esperar?

- Oh, jurou que iria esperar pelo fim do meu castigo, que arrancaria a sua vingança das minhas entranhas, que esperaria acordado o dia em que eu finalmente pudesse regressar à dimensão humana. Sabes, esse tipo de coisas que os feiticeiros maus costumam dizer...mas sabes como são os Magos...- não, Nia desconhecia-o - uns esquecidos! E o castigo durou tanto que ele há muito deve ter, como dizem aqui, «partido para outra»! Realmente, o vosso século tem com cada expressão mais particular! Deliciosas!
Desviava-se do assunto propositadamente. Dionísia brevemente a fez regressar à realidade:
- Mas...porque é que ele não te procurou na tua dimensão?
- Não pode, tal como tu. Se fosse jamais regressaria. E o que ele quer é poder para governar em todas as dimensões. Não apenas na minha. Oh, mas que assunto mais aborrecido!
- Acho que devias tomar precauções. Para tua segurança. Mas não, estás-te nas tintas!
- Oh, o que eu quero é divertir-me! Não me maces!

Segunda-feira, Março 18, 2002

Hoje não me apetece pôr nenhum capítulo, pronto ;P

Domingo, Março 17, 2002


23

Não foi preciso grande esforço para convencer os habitantes da Rua do Espanto uma vez que a ocorrência se multiplicou por todos os lares. O pai de Nia, à primeira trincadela do «pão encantado», exibiu no rosto uma expressão de patetinha que ela nunca lhe vira e saiu de casa - sem que as solas dos sapatos roçassem a alcatifa. Planava acima do solo. Em pouco tempo praticamente toda a gente da rua do Espanto, e arredores uma vez que a fama do pão encantatório se espalhara, ia trabalhar num estado de felicidade estampada no rosto, os pés sem tocar no chão, como andorinhas celestes.
O efeito do pão tinha a benesse de não atrapalhar os deveres profissionais de quem o consumia. O único verdadeiro problema consistia em que, sentados, se tornava necessário amarrar os pés à secretária.
Mas fora esse pequeno contra o facto é que o seu efeito não ia além do levitar - o melhor dele era o estado de imediata e interior satisfação atingida. Ninguém se queixava de coisíssima nenhuma, todos andavam de bom humor.

Excepto o sapateiro que perdera a clientela. Em represália recusava ingerir uma grama que fosse do pão de dona Albertina. Argumentava que ela lhe andava a tirar, literalmente, o pão da boca dos filhos, pois prejudicava-lhe o negócio. Ninguém já gastava solas, meias-solas, capas ou tacões. Ninguém tocava com os pés no chão! Como é que podia gastar os sapatos! O sapateiro não ganhava para as despesas e foi pedir explicações à padeira, autora directa da sua má sorte, ainda que inconsciente. A pobre da mulher, atarantada do trabalho a triplicar, já que todos lhe queriam o pão, nem tinha forças para responder aos desmandos dele.

No meio da felicidade geral e desgraça de poucos, como a do sapateiro e a da própria dona Albertina, Jaime ensaiava novas experiências dando o pão encantado à tartaruga, com a secreta esperança de que o efeito fosse semelhante ao provocado nos bípedes humanos. À primeira vez ela mordiscou um pedaço e recolheu-se na carapaça. Nada aconteceu. A segunda tentativa produziu resultados que ultrapassaram as expectativas dele. A tartaruga largou a voar pela casa, percorrendo os cantos do tecto e depois saiu janela fora, abandonando Jaime debulhado em lágrimas, arrependidíssimo da sua acção. Julgava que ela partira para não voltar, como um balão largado aos céus. Contudo à tardinha regressou. Cumprimentou o melro com pancadinhas ternurentas da cabeça, a abrir e a fechar a boca, fazendo de conta que o ia comer. Jaime, que passara o dia inteiro a chorar, mal a viu ofereceu-lhe morangos frescos - o seu manjar favorito. Estes foram prontamente devorados. A partir daí não foi preciso dar-lhe outro naco de pão uma vez que ela voava sem ele, mexendo as barbatanas como se estivesse na água a nadar. O melro via-a partir nas suas excursões diárias, saindo pela janela fora, e saltitava em sua perseguição. Não conseguia voar apesar de já ser adulto. Jaime ao princípio tentara remediar a situação dando-lhe migalhas do pão milagroso, mas nada acontecera, o melro continuava com problemas na descolagem inicial, e por mais que desse às asas o mais que se afastava do solo era distância de um polegar. A tartaruga percebia que a avezita albergava um desejo imenso de voar, como qualquer outro pássaro, quando o via, assim, a bater as asas desesperadamente, sem obter resultados visíveis. Saltitava pelo chão da cozinha, dos quartos, da sala, do corredor e da casa-de-banho de modo que a família adoptara o hábito de ver onde punha os pés, não fosse espezinhá-lo. E redobravam a atenção após o encantamento do pão desaparecer. A tartaruga certa vez pôs-se a dar-lhe pancadinhas mais fortes com a cabeça e a virar-lhe o flanco encarapaçado, até que o melro compreendeu. Saltou-lhe para cima e lá foram os dois, voando pela rua, exibindo a tal amizade improvável, mas não impossível. Desde aí que a tartaruga minorava o sofrimento à ave levando-a pelo céu, e o melro estendia muito as asas, sentindo a brisa no peito e fazendo de conta que era ele que voava. Alguns garotos da rua, armados ao pingarelho, acharam aquilo demasiado esquisito e manifestaram a estranheza lançando pedras e paus aos dois companheiros. Mas eles iam demasiado altos no firmamento para serem atingidos. Um dia Jaime assistiu a isso e perdeu a cabeça. Avançou, com o seu corpo de nove anos, em direcção à canalha e desatou a distribuir socos, murros e pontapés à discrição. Miúdos mais velhos e de maior envergadura acabaram por se pirar, a ganir como cachorrinhos, choramingando. Jaime regressou a casa ostentando os troféus gloriosos do combate: dois dentes partidos, um olho roxo, nódoas pelos braços e pernas, um fio de sangue a escorrer-lhe pelo nariz e queixo abaixo e a maravilhosa sensação de vitória. O pai, furibundo, queria ir pedir satisfações aos progenitores de quem lhe fizera «aquele trabalho» ao filho, mas a mulher convenceu-o a ficar-se quieto. Fora uma luta dele, não era bom os pais imiscuírem-se sobretudo quando ela já terminara e, para mais, a favor do filho. Desde então Jaime ficara mais forte. Ninguém se atrevia a meter-se com a tartaruga ou o melro e quando brincavam a algum jogo e não havendo concordância com as regras ou uma falta, a decisão, no que tocava a Jaime, calhava-lhe sempre para seu lado. Mesmo nos casos em que não tinha razão nenhuma. Foi remédio santo.

Sábado, Março 16, 2002


22

Desgraçadamente o bicho electrónico pifou. Jaime, desconsolado, pediu aos pais um funeral condigno. Digital. Na Net. Na internet existe um site para onde se manda os dados do tamagotchi, morto este. Os pais redarguiram que não, não senhor, não podia ser. Notando o rosto do filho adquirir laivos vermelhuscos que se transformavam em roxos, consequência de ele não respirar, acabaram por chegar a um consenso. O tamagotchi foi enterrado na aldeia da avó, num fim-de-semana, e o pai proferiu palavras dignificadoras da ocasião. Jaime colocou o «gotchi» num caixãozinho, na verdade uma caixa de fósforos e adornou a campa de flores.
Os dias seguintes passou-os triste, suspirando pelos cantos. Vendo-o em tal estado, o pai disse-lhe:
- Vai buscar o teu casaco. Vamos sair.
Voltaram para casa trazendo uma tartaruga. Das grandes.
Jaime andou esfuziante durante dias, mexendo-a e revirando-a de todos os lados. Ela, parecendo desgostar do tratamento, enfiava-se nos recantos mais escondidos da casa. Um dia foram-na encontrar dentro do fogão, perto da botija de gás.
- A tartaruga tem taras suicidas - comentou Dionísia.

- Não sejas parva - retorquiu Jaime. - Já sei! Ela sente-se mas é sozinha. Pai, acho que ela quer um namorado, um «tartarugo».
O pai espirrou o café e quase se ia engasgando no pão da dona Albertina. A mãe deu uma estalada na testa e Dionísia desatou a rir.
- Ai que estúpido! Um «tartarugo»! Onde já se viu! É tartaruga que se diz, fêmea ou macho, chico-esperto. Um «tartarugo»!
- Estúpida! E não estava a falar contigo, estava a falar com o pai.
O pai, evidentemente, não concordou. Não podia ser: duas tartarugas em casa! Jaime sacou da expressão mais desafiadora que possuía (a do «espera-que-já-vais-ver-eu-hei-de-ter-as-coisas-à-minha-maneira»), não disse nada, agarrou na tartaruga, pô-la no ninho que lhe fizera no quarto e foi-se embora com os pais. Ao sair ainda ouviu o motejo da irmã:
- Um «tartarugo»!

No dia seguinte regressou a casa trazendo no bolso do casaco um melro bébé que encontrara caído perto da estrada, a piar tanto que tinha ficado rouco. A tartaruga engraçou de imediato com o bicho. Espiava-o dentro da carapaça com os olhos e depois distendia o pescoço vagarosamente. Abria e fechava a boca para a ave, numa atitude lúdica que nada tinha de agressivo. Brincava com o melro e este saltitava pelo chão da cozinha, piando, enquanto ela, lenta, o ia seguindo.
«Amizade mais improvável», pensava Nia com os seus botões.
- Ora, o que é improvável não é forçosamente impossível! - redarguia a Fadinha, destrinçando bem os termos.
Entretanto o quotidiano normal da Rua do Espanto foi interrompido mercê de nova ocorrência fantasmagórica e sem explicação aparente. A Rua do Espanto merecia, enfim, o nome.
O delicioso pão de dona Albertina a certa altura ganhou capacidades que ninguém lhe conhecia e que, aliás, não coincidiam com o restante pão existente no mundo inteiro. Pelo menos, não que alguém o soubesse.

Certa manhã o senhor António, morador lá da rua, abriu a janela, resmungando contra o emprego que o fazia acordar a hora tão matinal e de súbito, como em todas as outras manhãs, fareja o odor contagiante do pão. Mas naquele dia o cheiro era diferente, ganhara uma especificidade, quase diria...mágica. Sim, que de outro modo poderia explicar a sensação de leveza, de uma alegria injectada no coração? Saiu de casa, em robe, desgrenhado e descalço e sem se importar. Dona Albertina quando o viu interpelou-o:
- Ó homem, olhe que assim ainda apanha alguma coisa! Com este tempo!
Ele não ligou, de facto, o rosto semelhava a expressão budista de «Nirvana» - parecia ter entrado em transe, em êxtase místico. Não resistiu e mordeu uma das carcaças. Ao sair da padaria os presentes juraram a pés (calçados) juntos que o senhor António se elevara uns cinco centímetros do solo. Levitara.

Sexta-feira, Março 15, 2002


21

Por mais que abrisse os tímpanos Dionísia não ouviu coisíssima nenhuma. Mas depois, devagarinho, escutou uma melodia suave que pouco a pouco se avolumou. Pôs as mãos em concha nas orelhas. Tirou-as. A origem da música não era definitivamente da sua mente enlouquecida. Piscou os olhos. Cerrou-os com força. Ao olhar de novo para o quadro viu que os músicos se mexiam! Rapidamente aumentaram o som da melodia e desataram aos pulos lá dentro, frenéticos! Pareciam ter sido mordidos por uma matilha de pulgas famintas. A música num ápice contagiou o resto das telas e as figuras começaram, por sua vez, a bailar. Pulavam dentro dos quadros, algumas até cantavam, e os cães acompanhavam a orgia sinfónica aos uivos! Parecia um desfile de Carnaval. E, não fartos disso, deram em saltar de pintura em pintura, compondo desenhos surrealistas: egípcios antigos guiando uma motoreta da primeira Grande Guerra, composições abstractas ao lado de damas medievais, praias supostamente do século passado, com banhistas hipervestidos, atravessadas por iates do fim deste século. Os guardas, com tanto barulho, vieram a correr verificar o que se estava a passar, algum ataque terrorista, devem ter pensado, e encontraram a galeria mergulhada no mais puro silêncio. A única substancial diferença residia nos quadros: as figuras estavam todas trocadas, a senhora do cãozinho de trela passeava um violoncelo e o violinista tinha o cão ao ombro, agarrando com a outra mão o arco, como se o pretendesse tocar. Os egípcios antigos tinham desmontado da motoreta e alinhavam o perfil tal qual se via nas pirâmides. Beta era capaz de jurar que um deles quase se desiquilibrou, uma vez que se colocaram de maneira a manter o veículo de pé. Aproximou o nariz e engoliu em seco. Piscou os olhos repetidamente. O museu estava imerso em silêncio espectral. Nenhuma das telas se tornou a mexer ou a falar.

Pelo canto do olho Dionísia julgou distinguir um homem de cabelo grisalho, de ar suspeito, a observá-la. Virou-se e desaparecera. A atmosfera parecia no entanto diferente...amarelada. Não tendo bem a certeza de ter visto alguém omitiu o caso a Beta. Entretanto os guardas coçavam e recoçavam a cabeça, olhavam para tudo esfregando os queixais, viam que algo não estava exactamente correcto...agora o quê...olharam para Nia e Beta, elas caladas, recoçaram a carola e decidiram ir chamar o responsável, o director do museu. Ao virarem as costas ouviu-se um barulho, algo a cair e partir-se. Num dos quadros uma menina que antes segurava uma jarra de flores tapava a boca e arregalava os olhos para os cacos da jarra quebrada. Um dos guardas jurou que ela olhara para ele. O tipo saiu a correr, esgazeado, parecia uma locomotiva. Nia e Beta aproveitaram e foram na embalagem. A velhota não se via em lado nenhum e o rapazito batia na tela dos músicos, a ver se eles estavam lá dentro. Beta, no meio da confusão, saiu-se com esta:

- E não vi rapaz giro em lado nenhum. Tu tens a mania dos museus, para a próxima vens comigo ao centro comercial.
Em casa Dionísia esteve quase para referir a estranha experiência ao irmão, dar a mão à palmatória e dizer sim, ele estava certo. E ela nunca mais voltaria a duvidar dele. Mas o puto sai-lhe disparado pelo quarto com um porta-chaves na mão, cheio de entusiasmo, a dizer-lhe:
- Nia, Nia, olha!, olha! - quando era pequeno era incapaz de pronunciar Dionísia, só Nia, desde então que a tratavam assim. - Saiu-me numa rifa! É um tamagotchi! É como se fosse um animal de estimação! A gente tem de cuidar dele, dar-lhe comida, levá-lo a passear e fazer-lhe festas! Lá na turma ninguém tem, só eu. Olha!

Isto, pensou, deve ser as consequências do trauma provocado pelos pais quando lhe negaram o cão que ele tanto queria: um serra da estrela, daqueles enormes, os que parecem póneis. Como vivem num apartamento, sem jardim ou varanda, seria impossível manter um cão daqueles. Jaime andou inconsolável durante semanas. Até choramingou. Dionísia sabia que os «gotchis» só duravam cerca de vinte e oito dias. Adivinhava nova crise para daí a um mês.
- É giro. Já mostras-te aos pais?
- Não. O pai ainda não chegou, vou mostrar à mãe!
E lá saiu ele outra vez disparado em direcção à sala. Considerando que já devia ter esquecido o incidente no museu achou por bem não tornar a mencionar o assunto. E, como ele tinha razão, andaria meses e meses a repetir-lho.
Calou-se, em virtude da paz fraternal. As irmãs mais velhas sempre têm de ter umas certas manhas a lidar com os caçulas.

Quinta-feira, Março 14, 2002


20

Jaime regressou à noite da excursão com uma história mirabolante, de pôr os cabelos em pé a qualquer um. Durante dias chagou a paciência à irmã afirmando peremptório que os quadros do museu onde tinha ido se mexiam sem ninguém lhes tocar. Mas não as telas e sim o que nelas se encontrava representado, isto é, as figuras, as imagens. O que estava dentro do quadro. As figuras moviam-se, coçavam a cabeça ou o nariz, tiravam um lenço do bolso ou da manga e assoavam-se, bocejavam e espreguiçavam-se. Algumas chegaram a arrotar. Até que, não contentes com isso, viravam-se para os miúdos e começavam a fazer caretas. Os putos, aterrados, apontavam os quadros aos professores aos berros, clamando alto que eles se mexiam sozinhos. Contudo, ao indicarem-nos, as figurinhas estacavam de repente e mantinham a pose de propósito. Após os professores virarem as costas lá voltavam as senhoras de chapéu antigo e de cãezinhos farfalhudos pela trela a porem a língua de fora ou as mãos nos olhos, compondo caretas assustadoras e cómicas. Os miúdos desatavam a gritar outra vez pelos professores e estes, fartos da brincadeira, não lhes prestavam atenção, convencidos que os estavam a gozar. Aqui as imagens dos quadros ainda se riam. Era preciso ter lata!

Ninguém acreditou, apesar de jurarem a pés juntos que fora isso o que sucedera. Mas quem é que ia acreditar numa cambada de miúdos de nove anos? Jaime andou um mês a insistir no assunto, fazendo a cabeça em água à irmã. Ela já andava com as orelhas em brasa.
- Ó pá, tu cala-te com essa porcaria! Livra, não sabe dizer mais nada!
- Mas é verdade! É ver-da-de - dizia ele, separando com cuidado as sílabas como se assim acrescentasse maior veracidade dramática ao facto. Dionísia não sabia se havia de acreditar ou não, afinal os últimos eventos eram tão estranhos (o rio, Edgar e até o facto da sua recente amiga ser uma fada) que ela não estava em condições de afirmar que a história do irmão não passava de uma mentira cabeluda. Podia muito bem ser verdade. Para tirar as coisas a limpo resolveu ir ao museu com Beta. Foram praticamente necessárias tácticas guerrilheiras de modo a convencer a acompanhá-la, visto que Beta detesta museus, prefere discotecas e fica danada por a não deixarem entrar nas da moda uma vez que é ainda muito novinha. Resmunga frequentemente:
- Eu sou precoce, velha para a minha idade. Maturidade não me falta! Porque é que os porteiros não vêem isso?!

Nia lá conseguiu convencê-la a ir com ela. O argumento ganhador foi o de que, provavelmente, encontrariam uma data de rapazes giros, universitários, já se sabe que os tipos têm a tara dos museus. Mentiu, claro. Não toparam com ninguém do estilo. Viram apenas uma senhora idosa de muletas, exibindo várias camadas de maquilhagem, colar de pérolas (falsas) a rodear-lhe as pregas do pescoço, arrastando-se de quadro em quadro. Beta, mázinha, comentou:
- Provavelmente está a recordar os bons velhos tempos. Sabes que antigamente não haviam máquinas fotográficas...
Nia assentou-lhe uma cotovelada nas costas e lembrou-a de que era preciso respeitar os idosos.
- Au! Está bem, está bem...livra, aleijaste-me.
Lá cirandaram pelo museu todo, de olhos bem abertos, mas não descobriram quadro nenhum a deitar-lhes a língua de fora ou a presenteá-las com um sorriso sardónico ou a fazer gestos menos elegantes com as mãos, segundo afirmara Jaime.
- Eu sabia que ele estava a mentir!
- Então se sabias porque é que me arrastás-te para aqui?!

- Era só para ter a certeza. Quando chegar a casa leva nas trombas para aprender a não mentir.
Nessa altura um miudinho de uns quatro anos, desacompanhado (os pais deviam estar noutra sala), deu um grito esganiçado e pontou muito para certo quadro, o qual representava músicos do século dezoito.
- Eles ‘tão a tocá...- dizia o pequerrucho, de boca escancarada. - Eles ‘tão a mechei-se e a tocá...- repetiu.
Beta e Nia olharam e nada viram. Então Beta tocou ao de leve no ombro da amiga e declarou:
- Escuta...estás a ouvir?

Quarta-feira, Março 13, 2002


19

A Fadinha, nesse dia, observava com particular interesse uma frigideira de ferro, plantada no ar, fazendo o pino em cima da bancada da cozinha, o cabo separado em centímetros da pedra e girando sobre o seu eixo, devagarinho. A fada acompanhava a dança da frigideira num lento voltear sobre si própria, estacando de quando em quando e limitando-se a olhar. A certa altura estendeu a mão e tocou na frigideira. Nia, que nunca a vira manusear objectos de ferro directamente estranhou e interrogou-a:
- Pensava que as fadas não suportavam objectos de ferro. Aliás, não foi assim que Malazon te apanhou, com uma gaiola de ferro?
- Foi. Mas agora o ferro já não tem sobre mim o mesmo poder.
- Ah não? Então porquê?
- Ah, porque conheci um feiticeiro que me deu um sortilégio que me permite tocar em objectos de ferro.
- Quer dizer que agora é impossível apanharem-te com o que quer que seja que seja feito desse material?
- Sim! Bom, não exactamente. O sortilégio não funciona em certas condições.
- Quais?
- Com letras. Se, por exemplo, a gaiola for forrada com páginas escritas eu fico prisioneira.
- Por isso é que estavas tão atrapalhada na primeira vez que te vi, no meu quarto, presa por uma asa a um livro.
- Sim, é verdade. Não tive cuidado nenhum!
- Mas...não compreendo. Porque é que as letras, as palavras escritas numa folha de papel, produzem esse efeito.
- Bom, é que para eu ser imune ao ferro teria de abdicar de alguma coisa. Teria de existir um contrabalanço. Tudo no universo está em harmonia perfeita. De modo a manter essa harmonia não era possível, simplesmente, ter um ganho sem haver uma perda! Faz de conta que o universo é uma balança perfeitamente equilibrada, para tirar algo a um dos pratos tinha de pôr outra coisa no outro para conservar o equilíbrio. Entendes?

- Ah...percebi. Mas, diz-me cá, quando tinhas a asa presa no livro não te podias ter soltado sozinha?
- É como te disse: tinha imunidade em relação ao ferro, mas já não às letras. De facto, poderia soltar-me sem a ajuda de ninguém, mas iria demorar até de manhã e nessa altura estaria tão cansada, tão fraca, que se tornava fácil aprisionarem-me.
- Como? De repente tu desapareces! Num instante estás-me a zumbir à frente do nariz, no outro desapareces!
- Se estivesse cansada não seria capaz disso. A demasiada proximidade das letras dificulta-me esse tipo de acção.
Na altura executava o pino em cima do frigorífico, sem que um fiapinho dourado do cabelo (curto, «à garçonne», como dizem os franceses) roçasse ao de leve a pintura branca. Nia conversava com ela, ao mesmo tempo que comia e ia folheando um livro, obtido graças à estante mágica.
- Estás a gostar? - perguntou-lhe.

- A adorar! Os meus pais até estranham que eu já pouco os arrelie para me comprarem livros! Mas eu nunca li tanto na minha vida!
- Fico contente por saber isso.
Planou do frigorífico até ela e despediu-se:
- Vou-me embora. Volto noutra ocasião.
E começou a rodar em frenesim sobre si mesma, como um patinador olímpico sobre o gelo executando piões, e com tal rapidez que só se via uma mancha azul desenhada no espaço, até que desapareceu.
«É uma exibicionista», pensou Dionísia. Fechou o livro e colocou a malga de cereais vazia para lavar, tentando dar um ar desarrumado à cozinha, de forma a evitar mais perguntas da mãe.

Terça-feira, Março 12, 2002


18

No dia em que o rio voltou ao normal Edgar partiu para a Amazónia. Já antes a fada afirmara a Nia, taciturna, que o padrão de Edgar se estava a modificar. Antigamente tinha sonhos lindos, sonhava em ser útil, ajudar o próximo, mas repentinamente o seu padrão alterou-se, sem aviso prévio, e ela andava às aranhas, nada compreendendo.
Ao princípio Dionísia pensou tratar-se de um fenónemo passageiro, tal como o rio. Afinal, o rio voltara à normalidade. Logo Edgar também voltaria a ser quem era: um rapaz inocente albergando sonhos de ser médico e curar a humanidade inteira. Mas não. No dia exacto em que o curso do rio voltou a concordar com a natureza, partiu de casa deixando aos pais um bilhete incompreensível, informando apenas o local para onde ia e sem explicar razões, mas numa linguagem tão esmerada que eles se viram obrigados a ir buscar todos os dicionários e estiveram meia-hora a descodificar a mensagem. Beta disse «Hum!» de desprezo dando a entender que já ia tarde.

À noite, depois da avó telefonar a contar as peripécias dos estrangeiros, a Fadinha chegou num pranto, carpindo mágoas, as lágrimas douradas humedeciam-lhe os olhos e enchiam o quarto de Nia de pó dourado brilhante, semelhando minúsculas estrelas. Era tão bonito de ver como triste de sentir.
- Ele...ele já não tem padrão!
- O quê? O Edgar? Ele já não sonha? Perdeu os sonhos?
- Não...não sei. Os humanos sempre têm padrão de qualquer coisa: de sonhador, de euforia, de desejos, sempre o possuem. O Edgar perdeu o dele! Já nada tem! E deve ser o único ser humano à face da terra que é assim! Oh, estou tão triste! Queria tanto ajudá-lo e agora não sei o que fazer, ele já não tem padrão!
Dionísia sentiu no âmago de si a desconsolação profunda da fada e queria minorar-lhe a dor, consolá-la. Antes, porém, de proferir qualquer palavra de conforto, de afecto, a Fadinha volteou sobre si mesma, como um fuso, e desapareceu. Largando núvens de poeira dourada que pousaram nos móveis, até sobre a estante mágica, tornada visível mal o pó da fada a tocou. Instantes depois as lágrimas desapareceram, secaram...quem sabe, magicamente.
As férias passaram-se e nada mais se soube. E, a contragosto de Jaime e Dionísia, a escola recomeçou.

Numa manhã em que Nia entrava às dez horas a Fadinha visitou-a. Os pais haviam partido para o trabalho e Jaime fora numa excursão da escola a um museu, de modo que as duas puderam conversar à vontade sem a ameaça de serem surpreendidas.
Dionísia mastigava nas calmas a costumeira taça de cereais com leite e, desta vez, morangos no topo.
A Fadinha cirandava de um lado ao outro da cozinha, mexendo e revirando tudo, coscuvilheira e mexilhona como era. A curiosidade impunha-lhe a observação pormenorizada de cada objecto, dos mais pequenos aos de maior dimensão.

Abria as portas dos armários sem os tocar, bastava-lhe estender o indicador azul pequenino que elas se abriam, subjugadas à sua vontade. Então enfiava por eles com rapidez e desarrumava-os todos, produzindo um escarcéu dos demónios: os tachos batiam e os pratos e as canecas estiveram prestes a estatelarem-se no chão. A verdade é que, mal satisfazia a curiosidade, deixava tudo na mais impecável das arrumações, melhor do que estava ao princípio. Várias vezes a mãe perguntara à filha se lhe tinha dado, por acaso, uma súbita vontade de limpeza, deparando-se com a organização imaculada não só do quarto de Nia, como da cozinha, sala, restantes quartos e casa-de-banho. A mãe estranhava particularmente que o quarto da primogénita andasse um brinco nos últimos tempos, pois conhecia-lhe bem a desarrumação inata e a trabalheira que era preciso para convencê-la a arrumar o quarto. Dionísia corava ao ouvir as perguntas da mãe, baixava os olhos e, tentando gaguejar o menos possível, respondia que sim, fora ela a autora da limpeza e organização exemplares da casa. Depois, para evitar mais perguntas, escapulia-se para a rua afirmando ir encontrar-se com Beta.

Segunda-feira, Março 11, 2002


17

Na primeira parte da conversa derramou a litania de queixas. Que os turistas eram doidos, lunáticos, que já nem os da terra podiam ir lá ao rio tomar banho, lavar a roupa ou usar a água para regar as plantações, que assim morriam de fome; mas que os estrangeiros se estavam nas tintas, para eles tudo o que não fosse rezar de dia à noite, entoar cânticos de louvor do Divino, era heresia ou blasfémia. Enfim, o que por lá se passara fora uma tragédia. O rio para a população da terra da avó representava a própria vida e no entanto aqueles turistas filhos do diabo, para não lhes chamar outra coisa (e nem calculam a facilidade com que a avó de Nia chamava outra coisa a quase tudo), foram para ali, como se fosse donos do rio, a armarem em padres, que nem os padres fazem coisas daquelas, nunca ninguém se mostrara tão intolerante na terra. Foi preciso terem vindo estrangeiros para eles conhecerem o real significado da palavra «intolerância». O pai não fazia ideia que as coisas tivessem chegado àquele estado e começara, neste ponto da conversa telefónica, a avermelhar, a avermelhar... A avó, adivinhando a emoção do filho, acalmou-o e contou-lhe o resto da história, a parte «sumarenta». A parte em que eles «deram cabo dos “estranjas”».

Bem, fartos de rezas e de pedidos a Deus de que um milagre se desse e que o rio fosse rio outra vez, a ver se «aquela seita» lhes «desamparava a loja» duma vez por todas, os habitantes da aldeia, apesar da maioria ser velha, os novos estavam todos para Lisboa ou no estrangeiro («a ganhar a vida»), puxaram das enxadas, das gadanhas, das frigideiras, das panelas, dos tachos, de paus e vassouras e avançaram decididos contra eles. Estes, tudo paz, tudo paz, que é muito bonito de dizer, não ficaram quietinhos, a oferecer a outra face. Uma ova! Arrearam também, mas não tendo o benefício das armas ultra-modernas dos habitantes acabaram por perder. Ou isso ou muito pão-de-ló, comentava, que quando o fazia, fazia um grande, mas não andava a comer bolo todos os dias, era o que faltava! O certo é que, mal os estrangeiros se afastaram a correr, estrada fora, o rio voltou ao normal. Isso notou-se quando um dos atacantes, o velhote insociável que detesta multidões, mas que fez daquele dia uma excepção para o bem da terra, ao atirar um pau aos cámones já em debandada, não acertou e caiu na água e, ó espanto!, a água não se elevou no feitio de uma taça de champanhe, nem as ondas alastraram até às copas das árvores. Fez o que sempre fizera antes, ou seja, círculos concêntricos espraiando-se, alargando-se até às margens do rio. E, repararam também, deixara de correr ao contrário. O rio voltara ao normal. Claro que toda a gente ficou contente e nesse mesmo dia celebraram uma festa à sua beira, pois então!, festa que os estrangeiros, se a vissem, não poderiam deixar de apelidar de pagã, ímpia ou herege. Mas claro que ninguém os convidou.

Domingo, Março 10, 2002


16

A família regressou a casa, passadas as duas semanas na terra da avó, e retoma a vida qauotidiana. A voz do pai ouviu-se cansada, mal puxou o travão de mão e desligou o carro:
- Agora o que calhava bem era um lanchezito, ali com o pão da dona Albertina.
A mãe compreendeu e foi à padaria.
O pão da dona Albertina possuía a misteriosa capacidade de transfigurar o ânimo e o semblante de quem quer que o comesse. Para os habitantes da Rua do Espanto era como se uma quente núvem mágica os envolvesse mal partissem uma carcaça, bafejados pelo seu doce hálito. Nas segundas-feiras é que se via bem a transformação operada. Não há que não odeie a segunda-feira - a não ser que comece a semana à terça. Os pais de Dionísia acordavam exibindo a normal expressão do dia, a do «que-chatice-do-caraças-já-é-2ª feira-porra-tenho-de-ir-trabalhar-porra». Dionísia e Jaime só alteravam o vocabulário de «trabalho» para «escola». Mas, à primeira trincadela, o rosto dos pais alterava-se, a fisionomia ficava plácida e serena e partiam de casa como se fosse 6ª feira. Apenas Jaime e Dionísia se abstinham de tocar no pão. Jaime por hábito, aliás, era um castigo alimentá-lo. Ele recusava-se a comer sempre que podia. E Dionísia de manhã cingia-se aos cereais com leite aos quais juntava fruta. Por isso nem um nem outro tiveram oportunidade de conhecer o tipo de sentimento trazido pelo pão de dona Albertina.
Dona Albertina era, além da melhor padeira das redondezas, cozendo ela própria o pão (ajudada só pelas máquinas e mais ninguém), a maior bisbilhoteira e a mais enxerida da região. Tomava conhecimento de todas as novidades, muito antes dos seus directos interessados. Jaime dizia que era «por causa das antenas especiais que captam tudo antes de toda a gente». O pai admoestava-o, «isso não se diz», mas riam-se à mesma.

Ora mal arribaram a casa a primeira coisa que a mãe fez foi abastecer-se de pão. A padeira estava a par dos útimos acontecimentos passados na aldeia do pai de Nia e, aproveitando a embalagem de ocorrências estranhíssimas e para as quais ninguém encontrava explicação, informa-a:
- Isto anda cada vez mais esquisito! Há com cada história do arco-da-velha! Até aqui! Pois quer a vizinha saber que o Edgar, aquele rapaz que não é lá muito esperto, coitado, não tem culpa, nasceu assim, bem, dessemburrou totalmente?! Ora quer acreditar nisto?! Mas é mesmo verdade.
Edgar nunca tivera grande esperteza, o pobre. Os putos da Rua do Espanto gozavam-no, apelidando-o de atrasadinho e epítetos do género. Beta dizia que até era pena porque o rapaz era jeitosito. Ele tinha dezoito anos e Beta só se dignava olhar rapazes com mais de quinze. Mas a estupidez, continuava ela, em doses pequenas constitui certo encanto, mas em doses industriais o melhor é fugir.

Jaime também tinha o hábito de gozar com o tolo do rapaz quando o via. Dionísia considerava o tratamento cruel e recusava-se a imitar as acções dele.
Ora, coincidindo na exactidão as duas semanas passadas na terra, período em que o rio operou fantasmagórica transformação, de igual modo Edgar ia mudando de dia para dia, a olhos vistos.
Certa manhã a mãe descobriu-o a desmontar o rádio, estragado ia para tempos. Repreendeu-o porque julgou que assim é que nunca mais tinha conserto. Ao fim do dia viu o rádio, reluzente, em cima da mesa da cozinha. Parecia novo. Ligou-o. Trabalhava.
Os dias passavam-se e os exemplos da renovada inteligência de Edgar iam-se acumulando.
Agora só o viam transportando catervas de livros debaixo dos sovacos, de expressão arrogante plantada no rosto, nariz empinado e sem falar a ninguém. Beta já não o achava assim tão «jeitosito», mas «peneirento», «cheio de manias» e «piolhoso». Dionísia estranhava que com a inteligência tivesse desabrochado um ser antipático e suspeitava que a burrice tivesse levado com ela a antiga simpatia de Edgar.

E depois era assaz suspeito que duas transformações tão esquisitas e repentinas tivessem sido simultâneas.
Um nome atravessou-lhe o crânio, num movimento rápido e quase doloroso: Malazon.
Malazon.
Perguntou-se por onde andaria a fada. Não a via há mais de uma semana. «É uma galdéria», pensou. «Será que...ele...será que ele a apanhou?» O pensamento agoniava-a e arrepiava-lhe a espinha. Afastou-o prontamente. «Não, ela é demasiado esperta para se deixar capturar de novo. Garantiu-mo. Disse-me que ele não a pode apanhar da mesma maneira. Não, não pode.»
«Mas pode apanhá-la doutra», não conseguiu impedir-se de pensar. Tinha a pele como se fosse de galinha. Por onde andaria ela?
Poucos dias após o regresso a avó da terra telefonou, entusiástica do outro lado da linha, e transmitiu a novidade: o rio já era rio outra vez!

Sábado, Março 09, 2002


15

No exacto momento em que ela o vê o monge muda de adversário e aponta-lhe a espada. Está encurralada entre ele e o feiticeiro, sem escapatória possível. A um gesto rápido do mago uma gaiola de ferro nasce-lhe das unhas e cai certeira na Fadinha, encarcerando-a. Está presa, impossibilitada de desaparecer devido ao ferro. Malazon pega na gaiola e desaparece, largando atrás de si fiapos de névoa amarela que se desvanecem em pouco tempo. O monge acorda, empunhando a espada ainda, sem se recordar de coisa nenhuma, nem de como ali tinha vindo parar.
- Quem és tu? - pergunta a Martim. Não o reconhecera. Este, demasiado tarde, arrepende-se de não ter dado ouvidos à Fadinha e remói-se de culpa.

- E depois? E depois? - indaga Dionísia com sofreguidão.
- Tive sorte! O dragão branco soube do meu cativeiro e contactou o único ser que me poderia ajudar.
- Quem? Quem?
- Barnabé. Outro feiticeiro, mas bom. Ele e as minhas irmãs libertaram-me. E demos cabo de Malazon!
- Mas...e o rio? Será obra dele?
- Bem...talvez...Oh! Que aborrecimento! Julgava que me tinha visto livre daquele chato! Oh! Se queres saber não me vou preocupar, vou divertir-me! Ele que vá passear macacos!
- Mas...e se o tipo anda mesmo à tua procura? Como é que te safas?
A Fadinha emudeceu. A expressão fechou-se, alarmada. Durou pouco. Daí a pouco já afirmava:

- Dou cabo dele sozinha! Estou mais forte! Olha só para os meus músculos!
- Não tô a ver nada.
- Ora! Os humanos nunca vêem nada! Se queres saber aborreci-me! Vou conversar com as minhas amigas flores! Adeus! - e desapareceu, ostentanto uma expressão de amuo.
Dionísia sentiu um arrepio de medo pela amiga. Um aperto no coração. Era evidente que algo estava muito errado. A fada sabia-o e recusava-se a encará-lo e muito menos a tomar precauções.
Qualquer coisa lhe sussurrava no íntimo a certeza de que a próxima vez que Malazon capturasse a Fadinha - seria a última. E a definitiva.


Sexta-feira, Março 08, 2002


14

Com o orgulho magoado e perdida a espada apeia-se do cavalo e começa a soluçar. Mas lembra-se da Fadinha e abafa o choro - debalde. A fada tenta consolá-lo, no entanto Martim enxota-a como uma melga. Um cavaleiro andante não o é sem espada. Com a honra perdida segue para casa onde enfrentará a ira paterna e a vergonha de ter, não só, roubado a espada, bem como tê-la perdido - sem sequer ter para exibir uma solitária nódoa de sangue como explicação do desaparecimento. Não houvera luta. Não houve glória. Apenas um dragão gordo que o cobriu com um gélido manto de indiferença. Ó, vergonha!
Martim, no caminho, não quer ouvir a Fadinha. Repele-a. Mas tal não a impede de falar.
- Nem sabes a sorte que tiveste! Ele não te permitiu o combate porque sabia que lutarias até à morte. Oh, nem calculas o poder dos dragões, a sua sabedoria imensa! E o branco, o branco é o maior de todos! Tirou-te a espada para te salvar, oh, que casmurro, não compreendes?!
Martim estaca e clama em altos berros:

- Salvar-me?! Salvar-me?! Perdi a honra, não vês?! O que vou dizer ao meu pai? Roubei a espada que só me pertenceria aos vinte anos e acalentava no fundo a esperança do seu perdão se retornasse a casa com a carcaça de um dragão. Mas nem isso! E agora a espada perdi-a, jamais será minha! Mereço todos os castigos e aceitá-los-ei de cabeça erguida!
A fada desistiu de o tentar consolar ou de lhe fazer ver o favor que, na verdade, o dragão lhe prestara. Com aquelas ideias de «glória e honra» era impossível fazê-lo escutar o bom senso. Esvaneceu-se e acompanhou-o no seu estado invisível.
A meio do caminho Martim encontrou o pai e o escudeiro velho, seguidos de um grupo. Procuravam-no. O pai, mal o viu, abraçou-o de olhos humedecidos, feliz por o encontrar vivo e são, já que o acreditava doente ou moribundo em algum recanto imundo e desconhecido, abandonado pelo cavalo, coberto de chagas purulentas, a tiritar de frio e roído de fome. Quando o filho tentou contar-lhe a sua vergonha - a perda irremediável da espada (que o pai adivinhava, já que não a via com ele) -, impediu-o e disse que o importante era ele estar bem de saúde. Chegados a casa falariam.

A vergonha acompanhou Martim o resto do percurso. Mantinha a cabeça baixa por pejo. O pai adivinhava os sentimentos do filho, mas no íntimo alegrava-se por tê-lo encontrado. E o escudeiro estava em pulgas para o bombardear de perguntas, só que, mantendo-se mudo, apenas conheceu (parte) da história depois de regressarem ao castelo.
Contudo, aí, outra surpresa os aguardava. A espada encontrava-se, imaculada, no sítio donde Martim a havia retirado em segredo. Voltou o rosto surpreendido para o pai, interrogando-o mudamente. Este levou a mão às barbas da cor de azeviche e declarou:
- Sabes...és um bom filho. Valente, forte - e honrado. Levaste o teu cavalo e nada mais senão as roupas que tens no corpo. Mas se tivesses levado a espada...bom, aí o caso mudaria de figura. Seria obrigado a punir-te. Não sendo esse o caso impõe-se celebrar! Festa! Hoje há festa, vinho e comida a rodos! Avisem as cozinhas! O meu filho voltou!
Claro que o pai sabia muito bem que a espada tinha sido levada por Martim e não encontrava explicação para o seu súbito aparecimento. Mas vendo a magreza do filho, as faces encovadas, o cabelo sujo e as roupas esfarrapadas e a fome estampada no rosto macilento - percebeu que o castigo já ele o tivera.

E a espada...bom...se ela estava no sítio onde era suposto estar...para quê incomodar o espírito com perguntas que não conduziriam a lado nenhum?
Quando, uma semana depois, a festa terminou, a Fadinha apareceu a Martim e explicou-lhe ter sido o dragão a repor a espada.
Ele queria sentir raiva, cólera, mas do íntimo brotava-lhe um sentimento terno de gratidão. E silenciosamente agradeceu ao dragão branco. A partir daí abandonou o antigo e absurdo desejo de «chacinar dragões».
- Mas... - inquiriu Nia - de que forma é que esta história está relacionada com Malazon? Ele não entra nela!
- Entra sim, mais tarde. Vais ver. Eu explico tudo.

Anos depois, já Martim era adulto, casado, pai e senhor do castelo, recebe como hóspede o monge eremita que o abrigara uma noite, anos atrás, na sua juventude rebelde. No entanto desconhecia que o monge eremita vinha enfeitiçado por Malazon. Aliás, uma série de estranhos fenómenos tinham vindo a ocorrer desde há alguns dias sem que ninguém achasse explicação para eles, nem mesmo a Fadinha. Armaduras que, subitamente, se animavam de invisível espírito e começavam a dançar sozinhas; pássaros a voarem de pernas para o ar e a chocarem com as árvores; núvens de um enjoativo tom amarelado que, chovendo sobre as árvores, causavam o imediato encolhimento dos frutos, tudo eventos que ninguém sabia explicar. Pediam a Deus para retornar ao normal e natural curso das coisas e celebravam missas nesse sentido nas quais os sacerdotes estendiam fervorosamente e clementes as mãos para o alto, em súplicas. A Martim deixara de interessar tudo o que fosse estranho e pouco natural desde o episódio com o dragão e desde que conhecera a fada. Abdicara das suas anteriores ideias de que tudo o que pertencesse ao imaginário, à fantasia, fosse maligno. Aliás, nem a fada nem o dragão o haviam martirizado, pelo contrário. Ajudaram-no ambos. Não via mal na esquisitice súbita das coisas, considerando ser obra de um gnomo ou duende que se divertia a pregar partidas, mesmo que a Fadinha garantisse que não era e desconhecer o autor de toda aquela estranheza. Martim encolhia os ombros e prosseguia na lida de todos os dias.
No dia em que o monge eremita o visitou recebeu-o com uma lauta refeição. E após alguma conversa, pouca porque o monge não cessava de espirrar, cada vez com maior intensidade, mesmo durante o repasto, recolheram-se, o monge invocando uma «gripe súbita». Martim mantinha-se imune aos avisos da fada que o advertira repetidamente contra o ele. Não viera com boas intenções, dizia-lhe. Ele, contudo, com um gesto brusco afastava-a como um moscardo, replicando-lhe:

- O santo homem! Isso é ciumeira, senhora! Não me aborreças e deixa-me descansado!
A meio da noite, a coberto da escuridão, o monge penetra no quarto de Martim, dormindo só devido à ausência da esposa, mais os filhos, de visita a casa da mãe, descobre a espada, pega nela e prepara-se para desferir o golpe fatal quando a Fadinha o desperta gritando em desespero:
- Martim! Martim!
Salta da cama momentos antes da espada se lhe enterrar no peito. Mas o monge não desiste dos seus intentos homicidas e persegue-o. A fada nada pode fazer para detê-lo pois é-lhe impossível aproximar-se de qualquer objecto de ferro. Distraída com as tentativas de Martim em escapar-se do monge enfeitiçado não nota uma névoa amarela, formando-se atrás de si.
Malazon.

Quinta-feira, Março 07, 2002

Uma breve explicação sobre o livro. Anos atrás escrevi uma curta narrativa (cerca de 70 páginas), na primeira pessoa, e enviei-a para a Editorial Caminho. Telefonaram-me, num dia de chuva, para me informar do agrado que a história provocara. Fiquei eléctrica, não queria acreditar que me telefonassem de propósito só para dizerem que tinham adorado a história! Só que... se eu pudesse alterar umas coisinhas... Fiz mais do que isso: reescrevi a história inteira. Levou-me um ano. Alterei a perspectiva da primeira para a terceira pessoa, porque apesar da perda de uma certa espontaneidade, podia mostrar os pontos de vista de todas as personagens e não apenas de uma. Tornei a enviar a narrativa para a mesma editora. Até hoje espero uma resposta. Nem um não me foi dito. Para a maior parte das editoras para onde mandei a obra a resposta que me deram (muitas um ano após o envio) foi negativa.

Algum tempo depois concorri ao prémio literário instituído pela Câmara Municipal de Paredes, com este e outro livro. O outro livro ganhou e “A Fada dos Sonhos” mereceu uma Menção Honrosa, espécie de segundo prémio. Fiquei feliz. É tão bom que nos reconheçam o valor. Armada da Menção Honrosa tornei a mandar “A Fada dos Sonhos” para diversas editoras. A resposta manteve-se inalterável. Recusas atrás de recusas. De modo que desisti. Pelo menos da forma ortodoxa de publicar um livro. Decidi colocá-lo na Internet, à disposição do mundo inteiro. E pronto, é esta a história d’”A Fada dos sonhos”. :)

13

Malazon é das criaturas mais poderosas que conheceu. Usa o poder para o mal e em seu benefício. É um feiticeiro maléfico e o único que mete medo à fada. Com a sua capacidade de dissimulação extraordinária nunca sabe onde está escondido. Um véu de invisibilidade desce sobre ele e a Fadinha desconhece-lhe o paradeiro. A única forma de o vencer é não chegar a confrontá-lo, evitando-o totalmente. E, se não existir outro remédio senão defrontá-lo, a melhor táctica a empregar é o cansaço. Trata-se do seu único ponto fraco: senhor de poderes fabulosos, ao fazer uso da feitiçaria, cansa-se e tem de repor energias antes de avançar para novo combate. Só por aí é possível vencê-lo, mas mesmo assim as chances são mínimas.
Passado quase um mês, Martim encontra o que viera à procura.

Num pasto em campo aberto, numa clareira da floresta por onde o sol brilhava livremente, pejado de pedras de tons e feitios diversos, encontra um dragão quase tão grande como o castelo do pai. O dragão era branco e comia pacificamente uma pedra com as dimensões de um cavalo. Mas com modos, com finesse, com educação. Fazendo uso daquele tipo de delicadeza que Martim só conhecera às damas. Pelo facto considerou logo o dragão como um «mariquinhas-pé-de-salsa», não vendo grande dificuldade em abatê-lo.
A Fadinha, ao ver Martim esconder-se atrás de uma árvore e desembainhar a espada, o que já fazia sem a deixar cair e sem demoras porque treinava todos os dias, reapareceu-lhe perto da orelha e admoestou-o, zangadíssima:

- Mas tu estás doido?! É um dragão! E ainda por cima branco! É dos mais ferozes que conheço! Guarda a tua espada e sai daqui! Julgas que ele não sabe da tua presença? Não te deixes enganar pelo seu pacífico ar ruminante. Aquilo não é uma vaca! Nem sequer um touro! É um dragão e sabe que estás aqui, pronto a atacá-lo. E sabe igualmente que é impossível ganhares! Ó rapaz sem respeito! Como é possível ter-me enganado tanto? O teu padrão diz-me coisas completamente diferentes das que demonstras pelos actos! Tu não és assim! Pára! Não vás! Martim! Martim!
Mas não servia de nada. Ele estava decidido e já partia a galope, inchado de empáfia, empunhando a espada. Aproximou-se com vagar do dragão, que continuava a comer pedras. Estando a dez metros dele parou e desafiou-o:
- Dragão! Dragão!

O dragão branco, a pele reluzindo à luz que lhe embatia nos flancos, voltou para ele um magnífico par de olhos azuis celeste, um tom de cor mais claro que o da pele da Fadinha, pôs a mão à frente da boca e arrotou discretamente. O bafo que chegou ao nariz de Martim emanava o odor de flores campestres. O dragão cultivava o hábito de as mastigar de modo a manter um saudável e fresco hálito.
Se aquilo alguma vez era um dragão! Tão pacífico, tão cheio de manias e de tiques que só se viam nas mulheres! Aquilo um dragão...
- Dragão! - repetiu.- Desafio-te para um combate!
O dragão virou o corpo de maneira a olhar o estranho rapaz de frente. Sabia que os músculos lhe doíam do esforço prolongado de empunhar a espada e que tinha sede. E que o cavalo precisava de erva fresca. Encarou-o com docilidade e esperou.

Martim estranhava cada vez mais o comportamente dele. Não fazia nada! Não o atacava sequer. E, na verdade, não podia iniciar o combate se o outro não concordasse ou o atacasse primeiro. Seria pura covardia e desse tipo de acção não iria recolher qualquer tipo de glória. Aliás, seria atacar sem pretexto, sem razão, já que o estranho animal nada fizera. E ainda por cima o braço ameaçava sucumbir a qualquer instante devido ao esforço de manter a espada alta. E, maior vergonha, até o cavalo, seu companheiro, baixava a cabeça para comer. Interpelou-o de novo:
- Dragão! Desafio-te para um combate!
O dragão persistia em não responder às invectivas. Mas, subitamente, começou a abrir a bocarra enorme. Maior do que a caverna do monge eremita. Abriu-a e...pôs-lhe a mão à frente. Bocejava apenas. Os olhos azuis fechavam-se, devagar, sem ruído, e o dragão enroscou-se no atapetado verde das ervas para dormir uma soneca.
Martim estava pelos cabelos. Ainda por cima a Fadinha aparecera ao pé do animal adormecido e inspeccionava-lhe as pálpebras. Quando chegou às narinas um sopro lançou-a até Martim.

- Dorme - disse. - Está a dormir, não o chateies.
Martim não ia tolerar mais a situação. Contudo, antes que esboçasse um gesto, deixou cair a espada devido ao esforço. Desmontou com a intenção de a recuperar quando descobre a cauda gigantesca do dragão avançar contra si, como uma cobra. Enrola-se à volta da espada e, por mais que Martim puxe de um lado e puxe de outro, é incapaz de desprendê-la. Estava firmemente presa ao redor da cauda.
Sente-se humilhado. Perder a espada sem luta é a pior e das mais graves humilhações para um cavaleiro andante. Perde a paciência e pontapeia a cauda do dragão. Este não dá mostras de sentir seja o que for. Corre para a cabeça adormecida e invectiva-o com epítetos menos dignos. O dragão abre um olho azul, descerra a enorme bocarra, levanta-se, com a espada enrolada solidamente pela cauda, esta bem alta no céu de modo que, por mais saltos que dê, Martim não lhe pode sequer roçar a ponta dos dedos - e avança para o interior da floresta, sacolejando as ancas dinossáuricas num compasso modorrento. Mas os passos de dragão, por menores que sejam, são sempre maiores que os nossos. Martim corre para o cavalo e lança-se na sua esteira. Alcança a floresta e nada encontra - nem dragão, nem pegadas, nem sequer ramos partidos. Procura durante horas, noite dentro. A manhã clareia - e nada.

Quarta-feira, Março 06, 2002


12

Ao pai, no entanto, exasperavam-no as tolas noções do filho, de matar dragões, salvar donzelas, ser cavaleiro andante com uma armadura irisdicente e uma espada. Mas a armadura ficava-lhe larga e era três vezes o seu peso, a espada não a conseguia erguer do chão e donzelas já não havia nenhumas. A única coisa que fazia com perfeição era montar a cavalo. Aos treze anos domou o seu primeiro cavalo. Custou-lhe duas semanas e uma perna partida. Nesse dia o pai sentou-o no lugar de honra e deixou-o beber vinho pela noite fora. Passou os dias seguintes a vomitar. O que inflamou ainda mais o orgulho do pai.
- Temos homem! - dizia, vaidoso. - Ah! Vais ser igual a mim! Temos homem! - e desarticulava-lhe os ossos do esqueleto num vigoroso abraço.
Numa tarde em que o pai e o escudeiro não estavam e em que a maioria do castelo dormia a sesta, no pino do calor, levou o cavalo e a espada.
Partiu em busca de aventuras e dragões.
E encontrou a Fadinha.

A fada conhecia Martim e vigiava-lhe o padrão. No dia da sua partida esperou por ele na floresta decidida a revelar-se e a acompanhá-lo abertamente. Não esperava que ele, com aquelas ideias absurdas de que tudo o que pertencesse ao reino da fantasia - como dragões, fadas, gnomos, duendes - era obra do demónio e que por tal devia ser destruído para maior honra e glória de Deus, a recebesse de braços abertos. Não obstante arriscou-se e, estando ele embrenhado no mais escuro da floresta, as copas das árvores enfaixavam no cimo os ramos filtrando a luz do sol e o azul do céu, mergulhando o espaço num escuro de inverno, apareceu-lhe repentinamente, junto do nariz do cavalo e cumprimentou-o:
- Olá Martim! Vais para onde? Vou contigo!

O cavalo empinou-se assustado, derrubou o cavaleiro e largou a galope para a orla da floresta. Martim levantou-se do chão, dorido, e lançou mão à espada. Conseguiu desembainhá-la, mas era incapaz de a erguer. Suando em bica e com o rosto vermelho, parecendo estar prestes a explodir, desistiu ao fim de poucos minutos. Encarou a Fadinha e tentou apanhá-la à mão, como se ela fosse uma borboleta. Os braços dardejavam o ar, os punhos abriam-se e fechavam-se, mas a Fadinha escapulia-se com um súbito desaparecimento. Achava graça à brincadeira e o seu riso trinado, semelhante a gorgolejos finíssimos, enchia a floresta e, pouco a pouco, penetrou mesmo a expressão carrancuda de Martim. Ele desistiu e sentou-se numa pedra, a descansar. As faces ardiam-lhe do esforço e o peito inspirava o ar sofregamente. Pouco depois vê o cavalo aproximar-se, manso.
A Fadinha tinha uma especial predileção por Martim porque os dois se assemelhavam no carácter. Como ela fazia orelhas moucas às advertências de toda a gente, considerando que os riscos existiam para serem defrontados. Demorou a convencê-lo de que desejava somente ajudá-lo e que, sendo no entanto uma Fada dos Sonhos, não era de modo nenhum um ente maligno ou uma criatura do demónio.

- Mas quem é esse tal de «demónio»? Nunca ouvi falar nele! - respondia a Martim, que não obstante desconfiava. Porém deu-lhe a sua palavra de honra de que não tentaria magoá-la nem aprisioná-la, com a condição de que ela lhe «desaparecesse da vista» porque tinha coisas «importantes» a fazer.
- Ora! Eu sei que tu nunca me farias mal! És um sonhador! E essas coisas importantes...eu acompanho-te e auxilio-te!
Aqui Martim perdia definitivamente a pachorra e com o feitio escarrapachado do pai desatava a dizer a altos berros:
- Pisga-te da minha presença, criatura insolente! Formiga com asas! Senão esmago-te como um insecto! Eu sou um cavaleiro andante e não preciso de ajudas de ninguém! Muito menos de um ser que mais se parece com um mosquito!

Claro que Martim, mesmo não o sabendo, seria incapaz não só de esmagar a Fadinha como qualquer outro ser. Certa vez libertou uma mosca que se debatia numa teia de aranha, vendo a aranha aproximar-se, gulosa, a lamber as beiças aracnídeas e de olhos cravados no almoço. Depois, mordido de remorsos de, assim, matar a pobre da aranha à fome, colocou um pedaço de carne na teia e observou-a a embrulhar o pedacinho minúsculo com a seiva saída da boca. Num instante recobrira-o de uma matéria branca. A aranha arrastou-o, então, para determinado ponto da teia, para o armazenar.

Apesar dos protestos dele a fada seguiu-o, invisível de modo a não exasperá-lo. E ele sabia que ela estava lá, sentia-a. Mas fingiu não notar. A cada dia passado, apesar do frio e de alguma fome, a presença etérea da fada dava-lhe forças para prosseguir à procura de dragões, numa jornada cada vez mais distante da casa paterna. O pai, vendo que os dias se alongavam em semanas, decidiu partir em busca dele, mais preocupado que irado. Uma vozinha no fundo de si instalava-lhe a dúvida no espírito: «E se ele encontra mesmo o raio de algum dragão?!»
O que ele encontrou, todavia, foi um monge eremita, colhendo ervas medicinais e que o convidou a aquecer-se na sua fogueira, acesa perto da caverna onde dormia todas as noites. Martim aceitou com um sorriso grato e sentiu uma instântanea afinidade com o homem. Perguntou-lhe, ao redor do lume acolhedor e a mastigar uma perna de lebre, se por ali existiam dragões. O monge eremita deu um espirro e respondeu, fungando, que isso eram contos de crianças.

- Dragões nunca os houve ou haverá, cavaleiro! - tratava-o por cavaleiro, apesar de ver muito bem que não passava de um rapazola emproado, para lhe polir a vaidade. - O que há são cervos, javalis, lebres e ursos! Com os ursos é que é preciso ter cautela! - e mastigava com ferocidade uma porção enorme do peito de lebre, por entre espirros miudinhos que se tornavam menos intercalados. Convidou-o a passar a noite na caverna e ele acedeu. No dia seguinte, Martim acordou revigorado e, após uma lauta refeição matinal, partiu agradecendo ao anfitrião a hospitalidade. O monge eremita acenou-lhe e depois sentou-se a separar as flores e as ervas. A intensidade dos seus espirros diminuía à medida que Martim se ia afastando.
Já longe da vista e dos ouvidos dele a fada apareceu no cimo da crina do cavalo, com uma expressão de alarme, e avisou-o contra o monge.
- É um traidor nato! Trairá tudo e todos desde que lhe convenha e seja em seu benefício. É um invejoso! Tem cuidado!

Martim, vendo apenas nas palavras da fada ciumeira e maldade, enxotou-a com a mão, mas antes sequer de lhe tocar já ela se eclipsara.
O facto é que, mais tarde, foi através do monge que a Fadinha conheceu o cativeiro, controlado por Malazon, o feiticeiro maléfico. Mas quando Martim se apercebeu do fim eminente da sua protectora já era tarde demais para mudar o rumo dos acontecimentos.

Terça-feira, Março 05, 2002


11

Quando por fim a fada apareceu, não exausta da vagabundagem, mas momentaneamente saciada, Nia interrogou-a àcerca da drástica transformação do rio.
- O rio? - diz, a boquinha mimosa formando um círculo. - Que tem o rio?
Corre para cima, informa-a. Conta-lhe que ao princípio certas almas exaltadas atribuíram a obra ao demo e quando depois a população deixou de dar importância ao facto uma cambada de estrangeiros o ocupou, vedando praticamente o acesso a quem não viesse com ideias de oração e fervor religiosos.
- O teu padrão alterou-se ligeiramente. Estavas contente e um pouco temerosa, mas não calculei que fosse isso.
- Foste tu? - perguntou.
- Eu? Que ideia!
- Então quem foi?
A Fadinha ia já para abrir a boca e afirmar que não fazia a mais pequena noção quando um pensamento veloz a atravessou.
- Só se... - disse, devagar. - Só se... - repetiu.
- Só se o quê? - indagou Nia.
- Malazon.
- Quem?
- Malazon. Pelo que me contas pode ter sido ele o autor de tal obra.
- E quem raio é o tipo?
- O feiticeiro que me aprisionou séculos atrás.
E narrou-lhe a história inteira.

Em fins do século quinze a Fadinha conhecera Martim, um garboso rapaz de quinze anos com a mania de que queria ser cavaleiro andante, dos que andam sem destino, errantes, a ajudar quem precisa de auxílio, a matar dragões e a recuperar donzelas raptadas por estes. Martim tinha ascendência nobre e numa época em que já ninguém se metia pelo mundo em busca de aventuras por ser considerado um acto tolo (as que não envolviam tesouros ou dinheiro, mas apenas riqueza espiritual, entenda-se), ele, sozinho capturou e dominou um cavalo selvagem, pôs-lhe sela, ataviou-se com vestimentas que nem em sonhos mereceriam o epíteto de armadura e partiu. Levava a espada que seria sua quando atingisse os vinte anos, altura em que teria força suficiente de a empunhar. Demorou meia-hora a embainhá-la, mas partiu convencido de que lhe pertencia. Na verdade roubara-a descaradamente. O pai, notando o desaparecimento simultâneo de espada e filho ficou com as barbas pretas rubras de raiva, deu berros que quase levaram ao desabamento das torres e quando o escudeiro velho do filho o conseguiu, enfim, acalmar, resolveu escutá-lo. O escudeiro disse:
- Ele volta. Deixá-lo dormir ao frio e ao relento, passar fome e cuidados que ele volta.
- Quer matar um dragão! - vociferou o pai. - Um dragão! Onde já se viu! O meu único filho, a fonte de todos os meus desgostos. Um dragão! Já não existem dragões! Foste tu que lhe enfiaste essas toleimas na cabeça! Devia correr-te a pontapé! Mandar-te para o degredo! Cortar-te a língua! Que espécie de ensinamentos dás ao meu filho?! Dragões! Só fala nisso: dragões!

O escudeiro tinha vontade de repontar-lhe que não, que se enganava. Os dragões ainda existiam, embora ninguém ou visse ou ouvisse. E ele próprio, na juventude, falara com muitos. Mas isso era no tempo em que os dragões ainda não tinham emudecido, quando, fonte de toda a sabedoria, a partilhavam com os homens. Não se conhecia a razão, deixaram todos de falar, no mesmo dia e à mesma hora. Desde aí, tendo perdido a utilidade para os humanos, passaram a acusá-los de inúmeras barbaridades e de todo o mal e, armados desses pretextos esfarrapados e mistificadores da verdade, passaram a caçá-los para sua maior honra e glória. Embora afirmassem ser em honra de Deus. Como se pudesse haver honra e glória na matança deliberada. Mas poucos dragões havia para chacinar uma vez que a grande parte perecia à nascença. Saídos dos troncos das árvores, cegos, deitando fiapinhos fumosos pelo nariz e com duas asas artríticas que nem elevariam do solo um pardal, sobreviviam apenas se um homem os guiasse até à fonte da sua subsistência: pedras. Rochas. Não podia ser areia, mas pedras que engoliam de um trago sem triturar (pois ainda não tinham dentes) e que lhes caíam no estômago com um baque. Em seguida davam um sonoro arroto e era quase visível o processo do seu crescimento a cada nova pedra engolida. Ora, não tendo já (julgavam os homens) a habilidade da fala e, logo, não podendo partilhar o saber (que, segundo eles também, se calhar já não era nenhum. «Perderam a fala porque emburreceram de vez! E todos ao mesmo tempo!», afirmavam muitos), dessinteressaram-se deles e sempre que um emergia de uma árvore para a luz do dia ninguém o guiava até ao alimento. Pouco depois morriam, com minúsculas núvens cinzentas a rodearem-lhe o corpo frio. Poucos sentiam pena.

O escudeiro velho de Martim sempre cultivara no íntimo a certeza de que os dragões sabiam falar e continuavam a possuir a sabedoria milenar que os caracterizava. Convencera-se de que eles tinham feito um pacto silencioso entre si (pois que se ouviam e comunicavam à distância) de não dizer mais palavra em protesto contra o crescente desrespeito demonstrado pelos homens não só em relação a eles, como a todas as coisas da natureza. Cortavam árvores antigas para construírem monstros que atravessavam os mares, desbravavam o terreno para pasto e cultivo por ganância, construíam casas e habitação no que antigamente constituíra floresta. O mundo antigo, viam-no tristemente, terminava. E um novo iniciava-se nas suas ruínas.
O escudeiro tentara incutir no jovem Martim respeito pelos dragões. Tentou tirar-lhe da cabeça ideias de contenda e morte. Debalde. Martim só pensavam em matar dragões, arrastar a sua carcaça até ao rei e receber pelo acto elogios e honrarias. E queria que o pai ficasse orgulhoso de si.



Segunda-feira, Março 04, 2002

Já ando farta de tirar coisas à template porque simplesmente deixaram de funcionar. A bravenet teve não sei o quê e as stats e o cartoon deixaram de funcionar; o falaserio.com está à venda e já não era possível colocar comentários. Tive de pôr um contador novo e outra janelinha para os comentários dos leitores. Irra, irrita-me isto.
10

Ao fim de alguns dias dado não haver sinal de o rio regressar ao normal as pessoas, tementes ainda, começaram a atrever-se. Primeiro molhavam o dedinho do pé, depois o pé, depois a perna inteira. Até que se achegava alguém por trás, silencioso como um gato, e jogava o medricas na água logo de uma vez. A pessoa, furibunda, saía da água e desatava a correr atrás do engraçadinho. E, de tanto isto acontecer, pouco a pouco o espanto diminuiu face à magia inexplicável do fenómeno. A elevação do cone que parecia ir engolir o céu assombrava cada vez menos.
E toda a gente sabe que uma coisa que se repete com frequência perde a graça e o fascínio, deixa de ser incrível e passa à esfera da normalidade, do quotidiano. Mesmo as coisas que não têm explicação.
De modo que, com o tempo, o rio acabou por ser aceite nos seus novos moldes, como se tivesse sido sempre assim. Todos mergulhavam sem medo, brincando e deliciando-se nas suas águas.

Excepto a mãe de Nia, que muito menos permitia aos filhos aproximarem-se dele, principalmente Jaime. Não por razões místicas, mas pelo simples e trivial medo de que ele apanhasse uma constipação que poderia degenerar em pneumonia.
- Mas mãe, é Verão! - replicava Dionísia.
- Não importa - respondia. - O teu irmão apanha gripes com muita facilidade. Não te lembras que quase morreu quando tinha três anos?
- Lembro - dizia, com um suspiro. Por dentro fervia de cólera pensando nos cuidados dispendidos pela mãe ao querubim da família. O pequerrucho. A real peste, isso sim!
Mas a fascinação exercida pelo rio a Jaime, atraído como para um abismo em que é irresistível olhar para baixo, compeliu-o a dar a volta à mãe e esta lá consentiu ao pimpolho banhar-se, desde que devidamente acompanhado pela irmã, a quem deu todo o tipo de recomendações.
- Lógico, tem sempre de sobrar para mim - refilou.

Quando toda agente se habituara ao fenómeno e não lhe dava já qualquer importância extraordinária apareceram em cena certos turistas, atraídos pela reportagem que passara na RTP Internacional, ou do raio-que-o-parta, resmoneava um velhote insociável lá da aldeia, que acabaram por alterar de modo definitivo o quotidiano das pessoas, mais do que a própria transformação do rio alguma vez tinha feito.
Afirmando ser o fenómeno um acto milagroso e que era preciso edificar um santuário, convidar Papa, Dalai-Lama, bispos, cardeais, e outros que tais, acabaram por enxotar os habitantes do convívio do rio. Os «crentes», como se denominavam a si próprios, afirmavam a necessidade, a cada momento reiterada, de «certificar» o milagre. Não só pelo Vaticano bem como por todas as crenças e credos religiosos. Eram ecuménicos ou algo parecido. Até àquele dia Dionísia nem tinha noção de que os milagres vinham com «certificados», à laia de garantia em caso de falha. E, não possuindo tais certificados, atestados, tornava-se imperativo adquiri-los. Onde? Na loja de conveniência mais próxima?

O pai resmungou e disse que era tudo uma palermice, que vinham para lá com essas «tretas religiosas» só para enganar o pessoal e arrancar-lhe o dinheiro. A filha perguntou-lhe se os milagres precisavam de ter certificados. O ar sisudo do progenitor, acentuado nas últimas semanas, evaporou-se e abriu o rosto numa gargalhada sincera ao aperceber-se, pela pergunta ingénua e inocente, de como tudo aquilo era, ao fim e ao cabo, ridículo. Respondeu que sim, que um milagre sem o atestado, como prova inelutável de qualidade, não cumpre os rigorosos critérios da União Europeia, não tendo carácter legal.
- Tu estás a gozar, não estás?
- Eu?! - reclamou, apontando com melodrama excessivo o dedo para si ao mesmo tempo que esbugalhava os olhos. Depois abanou a cabeça repetidamente e voltou a enfiar o nariz na revista de economia que comprava - religiosamente - todas as semanas.

Com isto Nia ficou ainda mais baralhada. Os «crentes» atafulhavam o rio com a sua devoção e inflamada religiosidade, celebrando missa nas margens. Se alguém tinha a infeliz ideia de tomar um simples banhinho os «crentes» diziam logo que era sacrilégio!, pecado! De modo que as pessoas deixaram de o frequentar e aquilo assemelhava-se a um país estrangeiro. O pai já esperava por algo do género. Quando Jaime se queixou, tristonho e de orelha murcha, não poder ir à água devido à presença omnipotente dos estrangeiros, o pai olhou-o e replicou, abanando a cabeça:
- Eu já calculava.
Dionísia, confusa e o sorriso dos lábios perdido, não sabia o que pensar. Ao princípio julgara que o comportamento excepcional do rio fosse um bom augúrio, mas pelos vistos enganara-se. Chamou a fada várias vezes com a esperança de que ela lhe clarificasse as ideias, mas a Fadinha não respondeu ao chamamento.
Resolveu recorrer à mãe. Sábia, respondeu-lhe:
- O problema Nia não são as coisas: é o que as pessoas fazem delas. Existe bom e mau em tudo, existem formas inteligentes e menos inteligentes de fazer uso do que há no mundo. No entanto, prevalecem as últimas.
Vendo-a desconsolada, de olhos pregados no chão, abeira-se dela, aperta-a nos braços e acrescenta:

- Não fiques triste. Verás que o mundo e as pessoas possuem o dom de nos surpreender pela positiva quando menos esperamos e até já quando abandonámos qualquer esperança nesse sentido. Não desesperes, tudo correrá pelo melhor, vais ver.
Após um silêncio miudinho, em que mesmo encostada a ela de olhos fechados, Nia sentiu a mãe sorrir-lhe meigamente, esta adiantou-lhe ainda:
- Se queres saber a verdade, cada pessoa vê consoante os olhos que tem. E consoante o coração.


Domingo, Março 03, 2002


9

O rio mudara de curso. O seu correr sinuoso e serpentino modificara-se. Em vez de correr para baixo, como qualquer rio normal e respeitável, as suas águas corriam para cima. A natureza, ali, invertera-se. A aldeia em peso e outras ao redor acorreram ao local, num misto de deslumbramento, pânico e misticismo.
Os rios, sabe-se, moldam a terra, cavam-lhe o leito nas margens, arrancam-lhe o solo. Na «velhice» um rio é fundo. Aquele, parecendo aperceber-se da sua condição, voltava atrás no tempo e tentava recuperar a juventude. Seria?

Dionísia colocava-se estas perguntas ao mesmo tempo que as fazia ao íntimo do rio, às gotas de orvalho que lhe caíam nas águas, às pedras que ele banhava e polia. À sua consciência, se é que os rios têm consciência. Certas religiões crêem que tudo na terra possui alma, dos bichos às plantas. Milhões de seres humanos (animistas?), algures, acreditam que os rios estão animados por um espírito tal como os homens. Se estivessem ali, na terra da avó, certamente compreenderiam a mudança. Talvez até conseguissem comunicar com o rio e perguntar-lhe porquê.
Comunicar? Num repente Nia lembrou-se de como a fada dos sonhos se vangloriava de falar com as flores e as árvores. Talvez conseguisse falar com o rio. Mas há alguns dias que ela não aparecia. Não a visitava e ela não tinha a mais pequena noção de onde poderia andar. Era quase certo que andava na vagabundagem, a matar saudades. Séculos e séculos proibida de visitar a dimensão humana e agora a Fadinha tinha fome e sede de tudo e de todos, saciando-se.

Poucos dias se passaram e o rio teimava no percurso às avessas. Ninguém se atrevera, desde a mudança, a tomar banho nele. Temiam-no. Algumas senhoras beatas insistiam tratar-se de obra do demo a súbita alteração, incentivando mais ainda os receios das pessoas. O pai de Nia identificou num piscar de olhos os sentimentos das beatas que davam azo a tais apreensões: tratava-se do acesso ao poder através do medo ao invés duma sincera preocupação. O controle feito pelo terror. Franziu o sobrolho como costumava fazer em tais ocasiões, fez cara de mau e qualquer das beatas cruzando-se com ele arrepiava caminho, incomodadas pelo desprezo mal dissimulado que ele ostentava. O pai de Nia era um céptico nato. Desconfiava, em geral, de tudo com o mais leve travo a religioso, misterioso, milagroso, esotérico e oculto. Achava que para todas as coisas há sempre uma explicação racional. Era um homem das ciências exactas, entendia-se bem com os números, por tal escolhera a contabilidade como profissão. O subjectivo passava-lhe completamente ao lado e até para a filosofia demonstrava pouca paciência. Devido ao carácter racional não se amedontrava com coisa nenhuma, ciente de que haveria uma explicação lógica, embora desconhecida. Observava o rio de cara fechada tentando decifrar o mistério como um cientista que analisa uma fórmula química, à cata de cada um dos seus elementos constituintes. Quando a maioria das pessoas se punha com exclamações e exaltações de espanto, enchendo a boca com palavras de «Milagre!» irritava-se e acelarava passo até à casa da mãe e lia a revista de economia, afundado na poltrona e de perna cruzada em quatro. Só para a família, principalmente para os filhos, arredava o cepticismo natural, mostrando-se aberto e tolerante, respondendo às perguntas que lhe eram colocadas abolindo o cinismo e a exactidão que o caracterizavam. Desejava ensinar os filhos a distinguirem as coisas, fazendo uso de um espírito de tolerância, mas não imune à crítica. Não queria para eles o seu cinismo e cepticismo natos pois eram um entrave às relações com o mundo e as pessoas. Portanto respondia a todas as questões deixando no ar, quando apropriado, a noção de que o maravilhoso, o desconhecido, o divino - talvez existissem. E que ele não tinha respostas para tudo.

A notícia da fantasmagórica transformação do rio alcançou os ouvidos dos media. Chegou uma equipa de televisão que fez a reportagem. No preciso instante em que a repórter debitava factos com causas desconhecidas para a câmara um rapaz audicioso mergulhou nas águas. Não de moto próprio, soube-se depois, mas empurrado. No momento do mergulho ficou registado na câmara novo acontecimento assombroso.
Quando se mergulha forma-se uma espécie de «buraco» no meio da água que é coberto no mesmo instante. A seguir círculos concêntricos, anéis intercalados espraiam-se, cada vez maiores, ao longo do rio, quebrados pelas margens, pedras e outros obstáculos que se interponham no seu alongar. Ao invés, no rio transfigurado, o «buraco» formado pelo peso de um corpo virou-se para cima, elevando-se da água como cobra capelo, como um cone de gelado ou uma taça de champanhe fina e comprida, numa altura de metro e meio. E os anéis desenharam-se também, mas apenas no topo do cone e alastraram até à copa das árvores, molhando as folhas e alguns ninhos de pássaros. Depois o cone diminuiu de tamanho, acabou por se dissipar e a água ficou plana outra vez.

Os presentes ficaram petrificados e inteiriçados de horror. A repórter deixara de falar e um fio de saliva escorria-lhe dos lábios escancarados, e tinha os dedos trémulos encostados à face lívida. A mãe de Nia sufocou uma exclamação e Jaime escondeu-se atrás dela, a tapar o rosto com as mãos e a esbugalhar os olhos infantis. De todos a única que não sentiu nem uma pontinha de medo a arribar-lhe a pele foi Nia, considerando tudo uma maravilha. Lindo, repetia-se no íntimo, lindo. Dos presentes era a única que sorria. Mas ninguém notou porque só olhavam com espanto o rio demoniacamente alterado.
Passados alguns minutos a petrificação cessou e as pessoas comentaram o sucedido:

- Não é um bom augúrio! Alguma coisa ruim está para acontecer! - afirmava alguém.
- Isto é o prenúncio de uma calamidade próxima! - adiantava outro.
- É o fim do mundo! - rematavam as beatas.
Aqui o rapaz empurrado para o rio (e que lá permanecera enquanto o episódio durara, a tiritar de medo) pirou-se da água com intrepidez, correndo em perseguição do que lhe fizera a gracinha. O pai de Nia ao escutar as palavras «fim do mundo» não se coibiu de clamar desdenhosamente alto ao mesmo tempo que apertava a mão na cara, afilava os lábios irritado e abanava vigorosamente a cabeça. Não tinha pachorra para gente tão pouco científica.
Chegado a casa recolheu-se na solidez exacta da sua habitual revista de economia, de cenho cerrado, maldizendo a credulidade das pessoas, tão pouco exactas e tão estupidamente subjectivas quando se via logo que aquilo, embora não seguindo as regras naturais, era com certeza uma excepção que as confirmava.

A mãe fez um cházinho, mas não bebeu nem um gole e avó só se benzia, aterrando-se com um provável fim próximo. A Jaime o rio atraía-o, tentava-o, além de o amedontrar. Queria nadar nele apesar do pânico. Ou talvez por causa dele.
Dionísia guardou com cuidado o sorriso dentro dos lábios, numa caixinha de jóias que tinha para o efeito, e resolveu esperar pela Fadinha e dissipar todas as dúvidas.

Sábado, Março 02, 2002


8

A avó em pequena sofrera na pele o significado da palavra «fome». Assim, para que a família ou quem quer que a vissitasse, se apartassem desse mal, cultivara o hábito de oferecer comida a rodos. De modo que, mal chegaram à terra, a primeira coisa que encontraram, além de uma avó cheia de abraços e de lágrimas, foi uma mesa a abarrotar de comida. Viram sopa, cabrito assado, arroz, pão, vinho, refrescos, batatas fritas e um enorme bolo de chocolate.
Os pais queixaram-se da abundância de comida, mas por um misto de culpa e de «vamos-lá-fazer-a-vontade-à-mulher» acabaram por se empazinar. No fim, quase a rebentar pelas costuras, Jaime e Dionísia pediram permissão para ir ver o rio.
- Vão lá - acedeu a mãe. - É bom para a digestão.

Correram que nem desalmados até ao rio e descobriram-no silencioso e desocupado, o que era estranho, pois era Verão e nessa época os imigrantes, vindos de França e Suíça, assenhoravam-se dele, palrando uma mistura de francês e português, coisa que irritava Jaime por não compreender a língua, mas não deixava de fazer amigos por isso.
- Porque estará vazio? - perguntou Nia.
- Não ouviste o que o pai disse? Abriu a praia fluvial. Têm lá esplanada, bar e música. Aqui só há sapos.
- Eu gosto de sapos - replicou, ofendida pela escolha de uma praia a fingir quando podiam ter um rio a sério.
- Não me admira, pareces-te com eles - disse, só para lhe atiçar a fúria.
- Eu já te digo! - e correu no seu encalce.
Correram os dois juntos para casa e encontraram a mãe e a avó a lavar a loiça e o pai a beber café.
À noite a fada, já todos dormiam, apareceu no quarto de Dionísia e despertou-a.

- Eh! Acorda! - levantou-lhe as pálpebras, sem que nada a acordasse. Então apertou-lhe o nariz e, vendo-se com falta de ar, acordou de supetão.
- O que foi?! Sonhei que tinha um peso em cima do peito que não me deixava respirar!
- Fui eu que te apertei o nariz -informou-a.
- O quê? Porque diabo fizeste isso? Isso não é partida que se pregue! - replicou, zangada.
- Oh! Tu não havia meio de acordares! - respondeu, sem se preocupar em demasia com o aborrecimento da amiga.
- O que queres?

- Conversar. Oh, é tão bonito este lugar! Lindo, lindo, lindo! As flores são encantadoras e de uma delicadeza cativante. No geral as flores são vaidosas porque sabem que são bonitas e todos lhes gabam a beleza. Assim, tornam-se arrogantes, dão-se ares de grandeza e não ligam a ninguém, incluindo as fadas. Mas aqui! Oh, que diferença! Falei com muitas e elas cantaram para mim. Sabes, Nia, à noite as flores cantam. E são acompanhadas pelos ramos e as folhas das árvores e o marulhar turvo do rio e o rumor fino das ervas. Os homens chamam a isto «ruído» ou «barulho». Como se fosse possível! Não é «barulho», os humanos é que ainda não aprenderam a ouvir. Que fazes, dormes outra vez? Oh, assim zango-me e vou-me embora! Acorda de uma vez!
Começou a andar a alta velocidade ao redor da cabeça de Nia, tão depressa que ela só vislumbrava uma mancha azul a cruzar-lhe os olhos. Ficou zonza e caiu da cama abaixo.
- Então, já acordaste? Óptimo!
Dionísia, tonta, só pensava no mal que teria feito para lhe calhar em sortes uma amiga fada irrequieta que nem lhe respeitava o sono. Mas tal era o feitio da Fadinha, não fazia por maldade, era apenas travessa por natureza, faladora e queria simplesmente divertir-se e divertir a nova amiga.

Dionísia acabou por lhe fazer a vontade e falaram parte da noite sobre a linguagem e o canto das flores e das árvores. Até que a Fadinha arrebitou a minúscula orelha azul (mal se distinguia, logo abaixo do cabelo dourado) e disse:
- Um duende meu amigo! Já não o vejo há imenso tempo. Vou falar com ele. Adeus, até amanhã! - zumbiu, eclipsando-se como uma lâmpada que se apaga, accionada por invisível botão.
«Que botão apertará ela para desaparecer assim, tão de repente?», pensava. «Será o do umbigo?» e experimentou no seu sem qualquer resultado. Encolheu os ombros e subiu para a cama fria. Tinha perfeita consciência que as despedidas da Fadinha não eram para ser levadas a sério. Alguém que não mede o tempo quando diz «Até amanhã!» ou «Até logo!» não está a ser rigoroso. O «Até amanhã» da fada dos sonhos tanto significava uma semana depois como a hora a seguir. Não era nada fiável nesse aspecto e tinha a tendência de aparecer nos lugares mais improváveis e menos seguros, como a casa-de-banho das raparigas na escola, estando Nia a lavar as mãos, ou numa rua, num recanto escondido. Pregava-lhe continuamente sustos do género que a preocupavam pois sabia ser perigoso para a segurança dela.
Mal fechou os olhos adormeceu de imediato, inconsciente da mudança próxima que alteraria a vida na aldeia da avó.

Sexta-feira, Março 01, 2002


7

Na noite seguinte a história repetiu-se. Nia recolheu-se no quarto desculpando-se com a matemática.
Ao querer saber o nome da fada surpreendeu-se com a beleza da resposta. Uma bola vermelha englobada por um círculo amarelo saíram da boca dela, planando no ar, como se amparados por fios invisíveis. E aos poucos e poucos desapareceram.
- Que bonito! - exclamou. - As tuas irmãs fadas têm nomes igual ao teu, assim do mesmo género?
A fada demorou a resposta distraída com o computador de Dionísia. Deu dois saltos mortais e, enfim, dignou-se responder-lhe:
- Cada fada tem um nome diferente, claro! Mas podem ser parecidos. Por exemplo: uma bola amarela e um aro vermelho. E depois há uma profusão diversa de tamanhos. Seja como for, as combinações são imensas.

- E quando queres chamar alguém, como fazes?
- Exactamente como fiz agora!
- Mostra-me outro nome.
A Fadinha empoleirou-se em cima da estante mágica, invisível na altura. Era engraçada vê-la porque se encavalitava em cima de coisa nenhuma. Nem Dionísia conseguia tocar na estante nesse estado, ao contrário da fada.
Abriu os lábios azuis e dele flutuaram cinco esferas, do tamanho de berlindes, brancas. Estacaram no ar, alinhando-se num pentágono. De seguida raios verdes irromperam transformando-se as bolas numa estrela verde vibrante.
- Que giro! - aplaudiu Nia. - Gostava de saber fazer esses truques!
- Mas tu não és uma fada.
- Não me podes ensinar?
- Não.
- Que pena...- levou a mão à boca tentando impedir um bocejo. - Tenho de ir dormir. Amanhã preciso de me levantar cedo.
- Oh, vocês humanos são uns chatinhos com essa coisa do sono. Só pensam nisso! Estão sempre a dormir! Oh, é irritante!
- Tu não dormes? - inquiriu, com os olhos prestes a fecharem-se.
- As fadas não dormem! Têm coisas mais interessantes para fazer! - replicou, cruzando os braços, ofendida.
Antes mesmo da fada partir, eclipsando-se, Nia foi conquistada pelo sono e adormeceu vestida.
Até ao fim do ano escolar andaria sempre cheia de olheiras, bocejando pelos cantos. Os pais diziam-lhe para não estudar tanto. Jaime replicava que por mais que ela estudasse seria sempre uma burrinha. Ao contrário dele.

- Da tua esperteza saloia sei eu - repontava a irmã, correndo em sua perseguição. O facto é que lá conseguiu levantar a nota a matemática e passou com um três muito tremido. Mas a saída das pautas deixaram-na indiferente. Outro evento as suplantara.
Tinham chegado as férias grandes.
Os pais decidiram passar duas semanas a casa da avó da terra. A Fadinha viajou nos sonhos de Dionísia, incógnita.
Jaime também foi.