Sexta-feira, Abril 26, 2002


40

Desde o estranho caso do vendedor de enciclopédias que Dionísia esperava por um sinal da Fadinha e este, desgraçadamente, não chegava. Esperou, esperou, o coração aos pulos, ameaçando rebentar da casca («os corações terão casca?») e nessa espera a fada não havia meio de aparecer. Perguntava-se se Malaquias seria só um inofensivo vendedor de enciclopédias ou tratar-se-ia de alguém, de uma entidade mais tenebrosa? Um ser maléfico com intenções obscuras...Malazon...?
Respostas não as tinha e apenas as obteria com a vinda da Fada dos Sonhos.

Entretanto a tartaruga continuava ferrada no sono. Àquela nem um terramoto acordava! Nem um igual ao de 1755 que devastou Lisboa. «E no entanto por nós acordou. Ou terão sido os espirros do homenzinho?» Jaime, passado o período de mutismo, falava com ela todos os dias e ela todos os dias o ignorava. E todos os dias ia para a escola taciturno, a dar pontapés nas pedras, sem se interessar minimamente por contracções, proposições e verbos. Nem os bombons que o senhor Figueira lhe ofereceu, ao regressar do fim-de-semana misterioso, lhe animaram o espírito. A Nia deu um livro e agradeceu-lhe profusamente ter cuidado tão bem da iguana. «Afinal não é tão chatinho como parecia à primeira. Talvez a Fadinha tivesse razão...»
A fada! Porque não se lembrara disso antes! «Deve ter andado com ele este tempo todo, a galdéria. E aos outros amigos nem pó!» Dionísia, na altura, observou demoradamente o senhor Figueira. Remirou-o diversas vezes, mas na sua expressão não se encontrava estampada a evidência de um acontecimento fantástico, mágico. Assombroso. Ele em nada mudara. Excepto...um modo de ser mais melancólico transparecia nele, transluzindo à flor da pele. Algo mínimo e contudo suficientemente importante para se fazer notar. O vizinho da frente regressava menos alegre, com menos vitalidade e menos vontade de viver. Porquê? Dionísia teve ensejo de perguntar, mas a vergonha impediu-a. Não era cusca como a Fadinha ou frontal como Beta. Coibiu-se de questionar decidindo que o melhor a fazer seria esperar pela fada.

Entretanto as férias da Páscoa arribaram. Jaime e Dionísia foram passar uma semana a casa da avó. Os pais ficariam somente três dias por causa do trabalho. Quando lá chegaram tiveram de se resignar a tomar uma refeição que, em casa, daria à vontade para quatro dias.
- Os nossos estômagos não são poços sem fundo, ó mãe! - reclamou o pai, com ternura, mas a avó não se deu por vencida: «Vocês têm de comer! Para recobrar forças! A viagem foi longa! Vá, comam!»
Findo o almoço e apesar de estarem quase a estourar, ante a insistência de Jaime, o funeral do último tamagotchi celebrou-se debaixo do pinheiro da casa da avó. O pai proferiu palavras solenes, a avó rezou um padre-nosso e Nia sentiu uma dor aguda, uma saudade do pássaro incapaz de voar. Jaime despediu-se dos bichos e finalizada a cerimónia largou a correr para o rio. Ultimamente o seu espírito melhorara devido a Lara Croft. Ele não largava a consola. «Bom, pelo menos não pensa tanto na tartaruga», dizia o pai. O rio corria normal, na direcção certa. Estava silencioso. E o seu silêncio albergava uma religiosidade, um véu de divino que os estrangeiros jamais lhe conseguiram transmitir com os seus imbecis fanatismos.

Três dias depois os pais partiram e alguns dias mais tarde foi a vez dos filhos. Foram de carreira. O pai foi buscá-los à paragem. A avó beijou-os muito e impediu-os de partir sem levar dúzias de ovos, presunto e uma braçada de hortaliça.
E durante todo aquele tempo nem sinal da fada. Nia começava a preocupar-se seriamente. «E se lhe sucedeu alguma coisa?» Mal chegaram a casa perguntaram logo pela tartaruga, se dormia ainda. A resposta da mãe veio pronta: sim, ainda estava na sorna.
- Mas quando é que a tartaruga acorda? - indagou o pai, pondo uma mão no quadril. - Será que morreu?
- Não! - replicou de imediato a mãe. - Então se estivesse morta achas que ainda estava a pairar perto do tecto?
- Talvez o que paira não seja a tartaruga, mas a carapaça.
Jaime para tirar as dúvidas a limpo foi novamente buscar o escadote, empinou-se nele, apesar dos protestos da mãe, e espreitou lá para dentro. Desceu e disse:
- Sim, senhor, a tartaruga ainda está a dormir.
- Se calhar era melhor chamarmos o veterinário...- arriscou o pai.
- Achas? - disse a mãe, levando o pano da louça à cara.
- Sim...o que te parece?
- Bem...se calhar é melhor.


Sábado, Abril 20, 2002


39

Pouco após o fim-de-semana em que o senhor Figueira estivera fora, Nia e Beta regressavam da escola e depararam em casa da primeira com uma situação inimaginável para ambas. Um vendedor de enciclopédias era recebido pela mãe. Ora é preciso antes de tudo salientar a conhecida e lendária aversão que a mãe de Nia votava aos honoráveis membros da classe. Ela detestava vendedores. E antes que um lhe entrasse no lar seria necessária a eclosão da terceira Guerra Mundial. A mãe era perita em arranjar desculpas para se livrar deles. Certa vez, atrasadíssima para um encontro, combinara ir ao cinema com uma amiga de infância, bateu-lhe um à porta. Cheia de pressa, em vez de dizer que tinha o jantar no forno e que ainda lhe faltava secar o cabelo, saiu-se com esta:
- Desculpe, mas tenho o cabelo no forno.
Escusado será dizer que foi remédio santo. Pelo menos aquele vendedor nunca lá mais pôs os pés.

E no entanto lá estava, na sala, o vendedor de enciclopédias. Teria eclodido a 3ª Guerra Mundial sem que elas se tivessem apercebido?
A mãe, mal viu a filha, interpelou-a com um sorriso tolo a bailar-lhe na face:
- Ah, Nia! Já chegaste da escola! Tenho uma surpresa para ti.
- A tua mãe está a agir de um modo estranho - murmurou Beta.
- É verdade...
A mãe fez as apresentações. O vendedor de enciclopédias chamava-se Malaquias. Só quando se aproximou Dionísia pôde reparar que Malaquias, à roda dos sessenta anos, de cabelo grisalho e aspecto respeitável, estatura alta e compleição magra, se assemelhava notavelmente com a figura que a tinha espiado no museu. Sentiu um calafrio involuntário pela espinha abaixo. Beta, no mesmo instante, exclamou alto e bom som:
- Mas foi o senhor que me vendeu a blusa!
- Perdão? - disse, gentilmente. - Blusa? Impossível. Eu apenas vendo enciclopédias. Deve estar a confundir-me com outra pessoa.
- Não estou nada! É o mesmo! É a cara escarrapachada dele! Juro!
Um horrível pressentimento corroeu Dionísia por dentro. A mãe, no decorrer da conversa sorria como uma tolinha, facto que espantava sobretudo tendo em conta o seu habitual carácter sisudo. Havia algo de muito errado naquilo tudo.

Enquanto Beta insistia no mesmo assunto («É a cara chapada dele! Não me diga que não se lembra! Não acredito!»), Nia observava atentamente a fisionomia do vendedor de enciclopédias. Tinha uma postura desarmante, relaxada, mostrando-se terno e afável. Simpático. O tipo de pessoa em que se confia à primeira vista. Era demasiado perfeito para ser verdadeiro. De repente um espirro ecoou na sala:
- Atchim! - num ápice, sem apelo nem agravo, o vendedor desata a largar uma saraivada de espirros de meter dó. - Atchim, atchim, atchiiim! Aaaatchiiiimmm!!
Incapaz de conter os espirros, parecia ter sido acometido subitamente por uma gripe da estirpe mais virulenta. A mãe preocupou-se com o seu estado de saúde:
- Meu Deus, o que aí vai...!
- É só uma constipaçãozita, nada de alarmante.
Frase acabada nova revoada de atchins a voar pela sala, das paredes ao tecto. A mãe aproveita uma brecha para comunicar à filha que decidiu comprar uma enciclopédia.
- Uma quê?! - exclama Nia, cada vez mais aparvalhada com o seu estranho comportamento.
- Uma enciclopédia!! - grita a mãe, julgando que a filha não ouvira à primeira devido ao ruidoso crepitar nasal emitido por Malaquias. - Tu adoras livros e faz imenso jeito até para quando Jaime entrar no liceu.

- Mas mãe, é caríssimo!
- Não é nada, é a prestações. Já discuti o assunto com o senhor Malaquias. Paga-se quase uma insignificância por mês.
Beta, entretanto, continuava a molestar o juízo ao homem, nem se apiedado da sua súbita condição adoentada. Afirmava, categoricamente, a pés juntos, tratar-se do mesmo indivíduo que lhe vendera a blusa. Observava atentamente todos os pormenores do rosto e a sua certeza, nesse exame, recrudescia.
- É ele! É o mesmo! É igualzinho! Não acredito que não se lembre, não pode ser!
O vendedor de enciclopédias sentia-se cada vez menos à vontade e a intensidade dos espirros, com o desconforto, aumentava.
- Já basta dessa conversa! Não insistas Beta, se o senhor diz que não é ele é porque não é ele! Porque razão mentiria?
Sim, porque razão, Nia perguntava-se. E a resposta aguda, pronta, clara e aterrorizadora inundava-lhe o espírito. Só podia haver uma resposta. Dionísia suava de medo.
Entretanto, sem ninguém dar conta, a tartaruga tinha acordado. Ninguém notara que ela descera do tecto, leve como uma pena, ao encontro de Malaquias. Cheirava-o por todos os cantos, fungando ruidosamente. Malaquias não apreciou o súbito interesse. A tartaruga, após o farejo inicial, começou a emitir grunhidos furiosos e a soprar pelas ventas. Os espirros intensificaram.
- Atchim, atchiimm, atchiiiiiiimmmm!!

- Oh, senhor Malaquias, peço-lhe imensa desculpa! Sai daí! - falava à tartaruga que começara a morder o vendedor. - Pára! Pára! Larga-o! Nia, ajuda-me! Leva a tartaruga daqui!
Com muito esforço libertaram o senhor Malaquias das mandíbulas dela, que se apegara aos fundilhos das suas calças, fechando-a no quarto de Jaime.
- Que vergonha...- a mãe desfez-se em desculpas, mas antes das terminar já o vendedor dera corda aos sapatos, pirando-se daquele antro de lunáticos. Mas a tartaruga, não contente com os agravos dados ao homem, rodou a maçaneta, escapulindo-se do quarto. Conseguiram fechar as janelas todas evitando que continuasse a perseguição ao vendedor de enciclopédias rua abaixo.
- Ora bolas...- disse a mãe. - Que vergonha. Acho que ele não torna a voltar.
- Nia...não achas esquisito ele não se ter espantado com o facto de vocês terem uma tartaruga voadora?
Realmente Beta tinha razão. Esquisitíssimo.
Ao jantar contaram o sucedido ao resto da família. Jaime afirmou:
- Se a tartaruga não gostava dele era porque o tipo não era flor que se cheirasse. Devia ser um sacana, como diz o tio Antunes.

- Jaime! - exclamou o pai, que não gostava que os filhos falassem assim.
- A sério pai! Ela sabe sempre quem é bom e quem é mau! Cá para mim a tartaruga livrou-nos de uma boa alhada.
A tartaruga, como que dando a entender que era isso mesmo, que sim senhor, Jaime estava certo na sua sentença, abeirou-se dele e levantou-lhe a franja com uma fungadela amigável no cabelo.
- Não alimentes a tartaruga à mesa - ralhou o pai à tentativa de Jaime dissimular uma rodela de banana na palma da mão.
- Ó pai, ela acordou!
- Está bem. Podes dar-lhe a banana. Mas é só hoje! - avisou.
- O que mais me intriga...- prosseguiu a mãe. - Foi a figura de parva que eu fiz! Eu detesto vendedores! Vocês sabem todos! - concordaram num uníssono e síncrono acenar de crânios. - Como é que eu me deixei convencer a comprar uma enciclopédia?! Isso é o que não compreendo...
Ninguém compreendia. E, para compor o ramalhete, a tartaruga voltou a adormecer. Era como se instintivamente soubesse que a família que a adoptara corria perigo, despertando do sono dos justos para, reposta a ordem, tornar a adormecer. Jaime ficou sem falar nem ir à escola durante uma semana.


Quinta-feira, Abril 18, 2002


38

De manhã bateram à porta e Nia foi abrir. Viu o vizinho da frente. Assustou-se sem saber porquê e, de modo a esconder a reacção, ia para lhe perguntar o que desejava. O pior é que não conseguiu articular palavra. Ficou muda.
- Ah!, olá. Era consigo mesmo que eu queria falar - disse. - Quero agradecer-lhe por ter concordado tomar conta da minha iguana este fim-de-semana em que vou estar fora.
Iguana? «Eu vou tomar conta da iguana do homem? Não me lembro de ter concordado com nada. E...ou é impressão minha ou o homem está a sorrir?»
- Quero mostrar-lhe o que deve fazer, onde está a comida, a quantidade que lhe deve dar. É estranho...ultimamente ela não tem tido fome. Bom, se quiser que eu lhe ensine agora...ou fica para mais tarde?
O mutismo de Nia foi superado pelo estado de choque. «Queres ver que agora deste em sonâmbula?! Prometes coisas e nem te lembras! Não pode ser, aqui há história.» A mãe acabou por tornar tudo claro.

- Ah, senhor Figueira! Eu ainda não tinha contado à Nia. Olha querida, - ela viu logo que havia gato. A mãe, em querendo alguma coisa, tinha um falar doce e manso e tratava toda a gente por «querido» ou «querida», abrindo bastante os olhos e sorrindo muito, mas honestamente. Claro que obtinha tudo o que queria actuando deste modo. A filha não era execpção. Nunca era capaz de lhe recusar fosse o que fosse. E a mãe sabia-o. - Eu disse aqui ao nosso vizinho da frente que tu não te importavas de dar de comer à iguana, é só uma vez por dia. Eu pedia ao Jaime, mas tu és mais responsável - o outro argumento que resultava às mil maravilhas com a primogénita. Por momentos Dionísia esquecera-se dele. - Pode ser, não pode? - mas a pergunta constituía uma mera formalidade visto que a mãe nem esperou pela resposta. Em vez disso começou logo a abraçar a filha e a beijar-lhe o cabelo. Dionísia queria dizer que não, estrondosamente, como Jaime, ficar pé e armar uma birra monumental! Mas, sendo tímida e não tendo o temperamento do irmão, cedeu e acabou por concordar. Que remédio.
O apartamento do senhor Figueira era em frente ao seu, sendo menor, possuíndo apenas uma sala, um quarto, cozinha e casa-de-banho.
Na sala estava a iguana bem como dezenas de barcos de madeira, dos que se compram e montam depois. Numa mesa viu um modelo em fase de montagem. O réptil estava ao lado, um pouco afastado, dentro de uma caixa de vidro.

- Deia-lhe comida deste recipiente - tirou um bocado. - Esta quantidade deve bastar para cada dia. Vê? Ali na fruteira há fruta de que ele gosta. Mas dê-lhe pouco. Entendeu?
A mania do homem persistir em tratá-la por você continuava a bulir-lhe os nervos.
- Entendi
Depois ficaram um pouco parados, a olhar um para o outro, sem dizer nada. O vizinho mantinha as mãos nos bolsos e balouçava-se para a frente, empoleirando-se nos sapatos e olhando em redor. Parecia ter receio de a encarar no olhos. Depois riu-se um bocadinho e perguntou:
- Nia? É o teu nome?
- Não. O meu irmão quando era pequeno tratava-me assim porque não era capaz de dizer Dionísia.
- Ah, Dionísia! Bonito nome.
- Eu nunca gostei. Prefiro que me tratem por Nia.
- Tudo bem, se preferes...mas continuo a gostar mais de Dionísia.
Era imaginação dela ou o homem começara a tratá-la por tu?

- Bem, deixo-te uma pequena gratificação aqui na gaveta como agradecimento pelo teu trabalho.
Ela por mera formalidade ia já para protestar. Mas o vizinho não aceitou os protestos e ela conformou-se. Se ao princípio não estava muito contente com a situação considerava fascinante como certos estímulos faziam logo mudar a opinião a uma pessoa.
No dia seguinte foi cumprir a sua obrigação. Deu de comer ao bicho. Assutou-se com a voracidade dele. Contou os dedos para ter a certeza de que não perdera nenhum. Deu-lhe, também, um pedaço de maçã que a iguana prontamente arrebatou. Teve vontade de mexericar nas coisas do vizinho, mas deteve-se ao lembrar que era exactamente esse tipo de comportamento, no que dizia respeito a Jaime, que a mais irritava e a punha fora de si. Se queremos que sejam civilizados temos de o ser primeiro, pensou. É tudo uma questão de tratar os outros como gostaríamos de ser tratados.
Ao fechar a porta do apartamento um pensamento veloz atravessou-lhe a mente: e se tudo não passara de um estratagema? De um truque engendrado pela Fadinha de forma a aproximá-la do senhor Figueira?
«Era bem capaz disso», pensou com os seus botões.


Terça-feira, Abril 16, 2002


37

Os pais acordaram e vendo o filho desaparecido entraram em pânico. Por onde andaria? Ter-lhe-ia acontecido algum mal? Um acidente! Ou um rapto! («Por extraterrestres», acrescentava Jaime com malícia). Estavam em vias de alertar a polícia, os hospitais, os bombeiros, a protecção civil e os boinas verdes quando uma mancha minúscula se vê muito ao cimo do tronco. A mancha rapidamente aumenta e Rúben é reconhecido. Chega ao solo transido de medo, sem quase conseguir articular palavra. Os pais correm para ele e abraçam-no longamente. Depois, e como já era da praxe no seu caso, dão-lhe uma palmada pelos trabalhos que fez passar toda a gente. «Pois tu não vias que nos preocupavas?!» Mas o garoto queria lá saber de sermões! Só olhava por detrás do ombro e para cima do tronco gigantesco, a tiritar. Disse, gaguejando:
- Um... homem... muita grande... quase tão grande como a árvore! Mãe, viu-me. Mal eu cheguei lá a cima viu-me! E pôs-se a correr atrás de mim! Mãe, ele vem aí, ele vem aí!

E abraçava sofregamente a progenitora. Claro que ninguém acreditava no pimpolho. E logo nele! Ora olha...! O pior de todos! O que arranjava trinta por uma linha e não tinha respeito por ninguém! É certo que não tinha por hábito mentir, mas o puto não era de fiar! Ná... peta, não passava de uma mentira, sem tirar nem pôr! Rúben apertava a mãe, continuando a tremer. De repente um estrondo ouve-se ao cimo da árvore. Seguiu-se um silêncio sepulcral. Depois novos estrondos rimbombaram. Em menos de um segundo deu-se a debandada geral. As pessoas corriam como baratas tontas encadeadas por luz, atropelando-se por todos os cantos, em busca de abrigo.
Uma repentina chuva torrencial acompanhada de trovoada e raios haviam provocado a reacção.
Rúben, como castigo, foi proibido de ver televisão durante um mês e ficou sem sobremesa durante uma semana. Mas ele arranjou maneira de comer à mesma.

Finda a chuva as pessoas juravam que a árvore encolhera. De facto, a partir de então, de cada vez que chovia a árvore minguava. Pouco a pouco tornou-se menor, até sobrar apenas um galhito enfezado que se transformou de novo em semente, semente recolhida por Edgar numa manhã escura, parecida com aquela em que plantara a árvore gigante. Arrecadou-a numa caixinha quadrada, almofadada em algodão, e tornou a desaparecer. Desta vez nem um bilhete deixou aos pais.
Rúben, que dois dias depois já assistia ao Dragon Ball, prescutava escondido o céu, à cata de gigantes enraivecidos. Sem nada ver tal não o impedia de trimilicar.
Para ele, desde essa data, os trovões eram os passos do gigante e os raios o seu pestanejar furioso.

A Fadinha não se interessou minimamente por árvores gigantes e sementes crescendo no alcatrão. Estava furibunda com o vizinho da frente. Dionísia, que interpretava cada vez mais o conjunto de ocorrências fantásticas como sinais evidentes e incontornáveis da presença de Malazon, o feiticeiro maligno, e de que ele não se esquecera, nem por um segundo, da Fada dos Sonhos, exasperava-se por recusar a amiga dar-lhe ouvidos, completamente absorta no vizinho da frente. Um tipo, por mais que a Fadinha assegurasse que não, a seu ver insípido e sem interesse. Claro que à preocupação acrescia uma pontinha de ciúmes. Não lhe incomodavam outros seres humanos que a amiga devia chatear altas horas da noite, mas aquele, por ser quem era e por morar tão perto, mexia-lhe com os nervos. Como de costume deixou de insistir no perigo crescente, na figura do feiticeiro mau ao longe, como névoa avolumando-se, e cedeu à vontade da fada, que considerava todo o assunto sem cabimento. De momento estava totalmente ocupada com o vizinho da frente, de quem fez queixinhas.
A fada, de beicinho, exibindo uma expressão de amuo a assombrar-lhe a face geralmente galhofeira, zumbiu um «Oh!» irritado, sentando-se depois aos pés da cama de Nia, como os braços e as pernas cruzados.
Nia adivinhou logo que só falaria se ela lhe perguntasse. Então, mais por cedência que interesse legítimo, indagou:
- O que se passa? É alguma coisa relacionada com o vizinho da frente?
- Sim! - respondeu, levantando-se de um salto até à altura dos seus olhos, repetindo zangada:

- Sim!!
- Como é que ele vai? - interrogou, com enfado.
- Oh! Um chato! Um chato! Prego-lhe imensas partidas, movo os objectos de um lado para o outro, arrumo-lhe a casa inteira enquanto ele dorme, às vezes até lle alimento a iguana e ele estranha que o bicho não tenha fome, mas continua a não ver nada! Oh, um chato! O que terei de fazer para se dar conta da minha presença, jogar-lhe um saco de água gelada na cabeça?!
Dionísia replicou que seria mais simples apresentar-se. A fada estacou no ar, levou a mãozinha azul ao lábio e reflectiu, cerrando o sobrolho. Nia sorriu ao ver-lhe a expressão: como a Fadinha não possui sobrancelhas apenas se nota a diminuição ligeira de um olho dourado.
De repente a fada redopiou no ar, satisfeita com o conselho:
- Tens razão! E, se mesmo assim, não reparar em mim, aí jogo-lhe um saco de água gelada na cachola! Oh! - o seu rosto abriu-se num enorme sorriso e os olhos dourados flamejaram de brilho. Acrescentou:
- Oh, sim! Vai ser divertido!

Dito isto desvaneceu-se. Sem sequer se despedir. Nia suspirou resignadamente e pediu à estante mágica um livro que acabara de sair. Este apareceu instantaneamente e ela ocupou-se na leitura somente meia-hora, sem saber que o dia seguinte amanheceria com a figura do vizinho da frente despertando-a, com um sorriso pequenino, tímido, a vogar-lhe nos lábios.
Igualzinho ao que ela, certa vez, escondera na caixinha de jóias que guardava dentro do coração.


Sexta-feira, Abril 12, 2002


36

Nova ocorrência veio alterar o quotidiano sem sobressaltos dos moradores da Rua do Espanto. Edgar, sem aviso, regressou trazendo com ele uma semente peculiar de uma árvore existente apenas na floresta amazónica. Cheio de mil cuidados e de afectação de aristocrata na penúria, mas de título antigo, pôs a semente no meio da estrada que atravessa a rua. Plantou-a, portanto, no asfalto.
As pessoas, observando-o, julgaram que retornara à antiga condição de estúpido. Porque toda a gente sabe que as árvores não crescem no meio da estrada, por entre o alcatrão.
Excepto aquela árvore que, efectivamente, crescia.
O assombro da população sobrepôs-se à anterior descrença. No dia posterior à sua plantação a semente fez brotar por entre o macadame uma folhinha verde minúscula que enfrentava a mais ligeira das brisas como os navegadores portugueses tinham enfrentado o Adamastor. As pessoas abriam a boca de espanto e encantadas. «Que giro! Que bonito! Ora se alguma vez se viu!...» Os dias passaram-se e a folhinha deu lugar a um raminho artrítico, quebradiço. Quando este se tornou demasiado grande para os carros lhe passarem por cima sem o quebrar, passaram a deixá-los ao princípio da rua, subindo-a depois a pé.
Edgar observava tudo sem dizer palavra. Como um deus do Olímpo acomodava-se à janela que dava para a rua, cruzava os braços, olhando fixamente a plantinha. Sem responder a perguntas de ninguém.
Entretanto o ramito ia sobrevivendo.

Certa manhã os habitantes da Rua do Espanto, tendo ido dormir com a perfeita consciência de que o ramo não alcançava os vinte centímetros, acordaram para um indesmentível metro e meio da árvore que crescia no meio da estrada.
Em poucas horas viram-na crescer, lançar os ramos para o céu, como que a espreguiçar-se. No fim do dia o tronco tinha quase a largura da estrada (muitos tinham de encolher a barriga no regresso a casa ou na ida para o emprego) e a sua altura era tal que ninguém lhe descortinava o fim, mesmo nos dias claros sem núvens.
A árvore possuía imensas reentrâncias e locais onde se podia colocar as mãos e os pés, fazendo-se içar por ela acima, de modo que repidamente se tornou o alvo favorito das brincadeiras dos miúdos. Os pais, no entanto, temerosos, marcaram na árvore um tracinho que servia como limite após o qual todos estavam terminantemente proibidos de passar.
Rúben, de sete anos, o puto mais traquinas da rua, ultrapassando em traquinice o próprio Jaime, olhava o risquinho (minúsculo, na verdade, a cada dia menos se notava) e mordia os lábios, contendo a vontade que o inflamava por dentro. Uma noite, sem que os pais dessem conta, saiu de casa pela janela do quarto, decidido a trepar a arverozona - só para tirar a limpo se, de facto, tinha ou não fim.
Às três da manhã, como uma formiga, começou a trepá-la. Edgar viu e nada disse.


Terça-feira, Abril 09, 2002


35


Nia contou a história a Beta e esta replicou-lhe ter passado por situação semelhante. Fora, um destes dias, à Baixa com o objectivo de comprar uma saia, mas, ao passar por uma loja que nunca vira antes (devia ser nova, pensou), aquilo a que vinha foi escorraçado da mente num segundo. A loja apresentava todo o tipo de roupa, de todas as cores e feitios. Pelo colorido poderia confundir-se com uma loja de doces, cheia de rebuçados e de chocolates sortidos. A sua atenção, após divagar alguns minutos pelo conteúdo, centrou-se numa blusa. A blusa mais perfeita em que já alguma vez pusera os olhos.
Decidida entrou na loja, de nariz empinado, como um general que vai passar revista às tropas. Dirigiu-se, segundo a sua designação, a um «senhor velhote», o dono, e perguntou se podia experimentar «algumas pecinhas».
- Praí metade da loja, não foi? - disse logo a amiga, a brincar.
- Ora! Não comeces

Fiel à sua natureza arrebatou meia dezena de saias e blusas e, no molho, incluiu a que lhe interessava. Na cabine deixou o resto da roupa caída no chão, sem lhe ligar pevide. A blusa cegava-a. Era demasiado perfeita. Por incrível que pareça nada mais lhe interessava senão ela. Experimentou-a. Se ao princípio lhe caía como uma luva, foi sol de pouca dura. No corpo de Beta a blusa era dada a caprichos. Num momento estava demasiada apertada e no outro demasiado larga. Beta chamou o dono e expôs a situação. Ele arregalou os olhos de espanto, levou a mão ao cabelo e afirmou:
- Ohhh...esta blusa é especial. Prometi-a à minha neta. Tinha-me esquecido de a tirar de montra. Peço-lhe imensa desculpa, mas não a posso vender. No entanto tenho ali outras, bem bonitas e até mais baratas!

Mas Beta queria aquela e nenhuma outra. De nada valeram as explicações do homem. Insistiu, apelou e rogou com tamanha veemência que ele cedeu e acabou por vendê-la. Beta tem essa arte: em querendo algo não deslarga até o obter. Os pais dela, ao atingir a famigerada idade dos porquês, não aguentando o interrogatório cerrado da filha, deixaram-na em casa dos avós durante um mês e partiram de férias. Actualmente, limitam-se a dar-lhe o cartão de crédito.
Em casa, nessa noite, realizava-se um jantar importante. Um colega do pai dos tempos da faculdade ia lá, juntamente com a família.
- Eu tinha de estar apresentável - prosseguiu a narrativa. - Afinal, o Nuno, o filho deles, também vinha e digo-te: é cá um borracho! Ora, tornava-se imperativo que eu estivesse chique.
Demorou horas a preparar-se, olhando-se ao espelho inúmeras vezes, pregando a blusa com ganchos nos sítios certos de maneira a não se desprender. As visitas chegaram e Nuno não tirava os olhos de Beta e elogiou o seu aspecto. Ela corou e agradeceu. O jantar decorria às mil maravilhas quando o som de um rasgão enche a sala. Seguido de outro e de outro ainda. A blusa, rebelde, soltava-se do corpo de Beta. Estava a querer sair! Beta nem teve tempo de se levantar da mesa. A blusa saiu-lhe disparada e arrastou-se até à porta da entrada, como se conduzida por invisível mão. Beta, quase nua em frente de todos, tiritava de frio e de humilhação. Correu a chorar e a esconder-se no quarto. A mãe foi atrás dela, mas a campaínha da porta deteve-a. Foi abri-la, a medo, sabia lá o que mais poderia acontecer! À sua frente estava o dono da loja, embora ela o desconhecesse. Mal a a porta se abriu a blusa saltou para os braços do homem estranho e recompôs-e magicamente. Estava feita em farrapos e em menos de dois segundos ficou como nova. O homem disse num tom gentil e educado:

- Era mesmo isto o que eu vinha buscar!
Depois pediu imensa desculpa, devolveu o dinheiro e informou-a de que a filha poderia de novo deslocar-se à sua loja escolher outra peça de roupa, inteiramente grátis, quando lhe aprouvesse.
- E tu foste? - demandou Nia.
- Fui.
- E então?
- Não consegui encontrar o raio da loja! Andei às voltas e às voltas, mas não a vi em lado nenhum!
- Mas...não te lembravas do lugar onde ela estava?
- Lembrava! Mas a loja é que já não se encontrava lá!
- Esquisito...peraí: como é que o homem sabia onde tu moravas?
- Também não faço a mínima ideia. Só sei que até hoje ele me está a dever uma blusa!
- Livra, deves ter ficado bastante envergonhada com o que aconteceu.

- Humm...até que teve os seus proveitos...
- Quais?
- O Nuno pediu-me para namorar com ele - replicou, o rosto rasgando-se num sorriso malandro.
Pois foi, recordou Nia. Namorou com ele alguns dias, findos os quais terminaram. Beta chorou baba e ranho no ombro de Dionísia durante outros tantos. Depois apresentaram-na a Paulo no pátio da escola. O resto é fácil de calcular.



Segunda-feira, Abril 01, 2002


34

A mãe saiu com o pai e Jaime, como habitualmente, às sete e um quarto. Começava a trabalhar às oito nos Correios, apesar deles só abrirem as portas às oito e meia. Esperava enfrentar um dia como os outros, no entanto aquele revelar-se-ia tudo menos outro dia normal de trabalho.
Mal as portas abriram um indivíduo de ar estranho entrou, parecendo puxar algo que não queria entrar. O homem debateu-se por momentos à entrada até que finalmente a transpôs. É então que a colega e a mãe vêem o que ele puxava com tanto ardor e empenho, de tal modo que gotículas de suor lhe perlavam a fronte: uma carta. Olharam uma para a outra, cheias de suspeita. Ele, enquanto caminhava para o balcão de atendimento, detinha-se a cada passo porque a carta ou caía ou lhe escorregava dos dedos como se eles fossem manteiga. Nestas manobras levou dez minutos a alcançar o balcão. A colega, irritada com o espectáculo, sibilou baixinho ao ouvido da mãe:
- Este deve pensar que é palhaço.

A ofegar dirigiu-se à mãe e informou-a que desejava enviar a carta por correio azul. Passa-a, com cuidados extermos, trimilicante, como se manejasse um recém-nascido prematuro, para as mãos dela. A mãe olha-o de sobrolho carregado, um hábito do marido que adoptara sem dar por isso ao longo dos anos, medindo-o e decide que a colega tem razão. Ao tentar colocar-lhe o selo a carta escapa-se e tomba no chão. Ela apanha-a e de novo a senhora carta repete a gracinha. A mãe já não tem pachorra para estas coisas e há mais gente à espera. Sente uma necessidade aguda do pão de dona Albertina. Com ele tinha o benefício de possuir toda a paciência do mundo...Considerações de uma provável loucura do homem a mãe põe-las de parte. O defeito, afinal, parece mesmo residir na missiva. Repetidamente a carta logra os seus esforços de lhe apôr o selo. A mãe dana-se e, sem mais, põe-lhe o pé em cima e cola-lhe o selo. De seguida coloca-a na caixa de correspondência nacional. Contudo, fazendo jus à sua personalidade, a carta torna a cair. A mãe, pelos cabelos, diz alto e bom som um palavrão que ecoa pela divisão dos Correios, dos balcões, aos azulejos e às paredes. Todos viram os olhos para ela, perplexos. Ela sempre fora calma, de facto, era a que aturava sem mostras de irritação as velhinhas que queriam mandar um embrulho para determinado lugar, mas não sabiam o código postal e que, aproveitando terem a funcionária ao seu exclusivo serviço, rapidamente se lançavam na venturosa, e ao mesmo tempo desgraçada, odisseia de suas vidas, bem como a dos filhos. Para estas a mãe nunca mostrara falta de paciência.

Envergonhada e corada até às orelhas pede desculpas num múrmurio. A colega, de carácter rude e áspero, farta do espectáculo, tenta pôr cobro à situação. Mas ao tentar agarrar a carta esta literamnete foge, deslocando-se no chão. Exclama alto: «Fechem a porta para não haver correntes de ar!», todavia todas as portas se encontravam fechadas. E mesmo assim a carta teima em arrastar-se pelo piso, saindo do edifício por uma fresta da porta da entrada. O homem, em pânico, persegue-a como um louco demente.
Todos tinham os olhos pregados na figura dele e ficaram a observá-lo até se transformar num minúsculo pontinho no horizonte. A colega, no fim, afirmou categórica:
- Isto há com cada doido...
E começou a despachar a malta. A mãe ainda tinha os olhos no horizonte e a boca descaída de pasmo.
Recordava o rio.
Por volta das seis da tarde o indivíduo reaparece, todo roto e esfarrapado, trazendo a carta amarrada ao corpo.
- Foi a única maneira - explicou numa voz sumida.

E não obstante a carta mexia-se! Agitava-se contra o peito do homem! Era claro que, por alguma razão obscura, não tinha vontade nenhuma de ser enviada. Mas que razão poderia ser? A mãe, estafada, decidiu que o mais simples era perguntar directamente à carta o porquê da sua recusa. A carta parou de se movimentar. Ficou muito quietinha. E, repetindo-se a questão, abriu-se sozinha.

A carta descerrou-se sem o auxílio de ninguém. Estava vazia. O homem compreendeu. E explicou. A carta era de uma menina doente que tinha escrito ao irmão mais velho, na tropa, de quem gostava muito, pedindo-lhe que a fosse visitar uma vez que estava iminente a sua mudança de estabelecimento hospitalar. Se ele não a fosse ver antes disso demoraria muito tempo até ao reencontro de ambos. E a carta, melhor, o envelope, estava a par da situação. Por tal recusou-se a ser expedido, uma vez que no interior não existia nenhuma mensagem. O indivíduo era enfermeiro no hospital onde a menina se encontrava internada, local onde regressou para recolher a carta e colocá-la no envelope. Ela dormia e nem notara, de tão doente, o engano. A mãe, por solidariedade, ficou nos Correios até mais tarde e enviou-a por Express Mail, que era rapidíssimo.
Ao jantar suspirou com ternura e disse que o enfermeiro tinha ficado de lhe contar o desenlace da história.
Até Jaime ficou comovido.