Quarta-feira, Maio 29, 2002


45

A Fadinha bem o tentou diversas vezes, mas Barnabé era incontactável. Em vez de se precaver, agir ajuizadamente e evitar riscos desnecessários fez o contrário. A Fadinha não admitia o medo, por mais forte que ele fosse. Numa altura em que o perigo a aconselhava a ser sensata, a ter cautela, a comportar-se com siso, ela, só para demonstrar a total ausência de receio em si, bem como o facto de ser extraordinariamente corajosa, numa atitude de inaudito exibicionismo que ultrapassara as raias do adorável para o de perigoso, trouxe de visita a casa de Dionísia uma das suas irmãs. A Fada dos Desejos.
A fada dos desejos era de menor estatura, talvez de uns escassos dez centímetros. Tinha a pele cor-de-rosa e os cabelos loiros e curtos. As asas eram púrpuras. Os olhos exibiam uma cor roxa muito brilhante devido ao povoamento de infinitas partículas douradas luzindo no interior. Mas ela era tímida. Escondia-se quase sempre atrás da irmã, de um livro ou de um bibelot. Dionísia não chegou a entabular conversa porque, de tão envergonhada, ela não proferiu uma única palavra. Mais cedo do que o costume a Fadinha partiu, levando a irmã. Nia ficou só. E pouco depois adormeceu.

Para acordar no dia seguinte para o mágico espectáculo de neve cobrindo o quarto inteiro. A cama, os móveis, o chão. Do abraço do manto gélido escapara apenas a estante invisível. Donde viera? Da Fada dos Desejos, soube depois. Para compensar a decepção que tinha sido realizou um desejo de Dionísia: o de ver neve. Neve verdadeira. Antes da Fadinha ter aparecido com a irmã Nia estivera a assistir a um programa sobre vida selvagem. Passava-se no inverno e por toda a parte a neve cobria árvores, animais, terra. Deu-se conta de nunca vira neve, não sabia a sua consistência, o seu cheiro (tê-lo-ia?), o sabor. Se era muito fria ou nem por isso. Findo o programa arredou o pensamento de si, considerando-o ridículo. «Neve! Hei-de vê-la um dia. É uma parvoíce pensar nisso.» Mas a ideia permaneceu escondida num cantinho do cérebro, encolhida de medo que Nia a expulsasse de vez. E foi aí que a fada dos desejos, a única com a capacidade de ler mentes, a encontrou, pegou nela, tornando-a real.
Realíssima. O quarto estava gelado! Se fosse à janela veria que se tratava apenas do seu quarto, nada mais fora coberto a branco, a algodão fofo de água. Jaime, a caminho da casa-de-banho, notou uma corrente gélida a arranhar-lhe os pés, vinda do quarto da irmã. Abriu a porta de rompante. Dionísia encarou-o furiosa: «Olha lá, ó pirralho: queres levar nas trombas? Eu por acaso faço-te o mesmo? Não.» O sermão passou-lhe ao lado. Os olhos em frenesim poisavam nos móveis, no chão, e até nas paredes em parte povilhadas de neve. Parecia a Serra da Estrela, que não conhecia, mas já tinha visto numa revista.
- Ena taaanta neeeeve!!!!! O que é que tu fizeste?!?
Claro, a culpa era, obviamente, da irmã.

- Eu?! Eu não fiz nada! Acordei de manhã com o quarto neste estado!
- Ena...! Taaaanta neeeeve...!
Agachou-se, pegou num pedaço, fez uma bola e lançou-a à cara de Nia. E acertou.
- Ai é assim?!? Já vais ver.
Os dois envolveram-se numa agitada «Guerra Fria», lançando boladas um ao outro, a fazer de conta que era inverno e que o Natal estava à porta, apesar de ser primavera. Uma bola passou a rasar a orelha esquerda de Nia. Em réplica atirou outra ao irmão e acertou-lhe em cheio na cara. Os pais, com os gritos e berros, despertam. Estaria alguém a roubar a casa? Ou seriam os filhos à porrada outra vez? Não havia meio de se darem bem! No quarto da primogénita apanham os dois em batalha e, já se sabe, na guerra e no amor não se fazem prisioneiros e acaba sempre por se ferir inocentes espectadores. O pai, mal assomou à porta, levou em cheio com uma bola no rosto. «Ai ele é isso?!», exclamou. Não se fez rogado nem perguntas. Abaixou-se, agarrou um monte de neve e aqui vai disto! Num ápice pai e mãe foram sugados pela batalha. Se ao princípio era pais contra filhos, em pouco tempo eram todos contra todos. A neve espalha-se pelo corredor, e eles, exaustos, cedem. Baixam braços e largam armas. «Já estamos velhos para isto», disse a mãe. Os filhos dão tréguas. A mãe refere o curioso facto da neve ter a especial característica de não derreter. Meia-hora e nem uma gota de água a impregnar o corredor. Examina as mãos, revira-as: secas. O cabelo: seco. Até as cobertas da cama, os lençóis, as roupas. Tudo seco. E frio. Estranho. Que raio de neve seria? Alienígena? Ao fim de uma hora a notícia espalha-se pela rua, mercê da língua de trapos de Jaime. Os vizinhos inundam a casa e cada um sai levando consigo um pedaço de neve.

Até o senhor Figueira levou um bocado, que colocou num pires, ao lado da caixa de vidro da iguana, para onde ela olhava estupidamente, com um olhar fixo, horas seguidas. Vá-se lá entender iguanas! Realmente, a ideia tinha sido acertada. Sim, pois que fariam eles com todo aquele arsenal gelado? Guardaram apenas um pedaço que colocam na cafeteira. Horas passam-se e a neve segue iderretível. A mãe acende o lume, coloca a cafeteira no bico, no máximo - e ela nem pó. Apresenta a mesma consistência, o mesmo frio. Nem sequer teve a decência de ficar morna! Mas os putos da rua aproveitam o fenómeno e brincam com ela horas e horas. Meses seguidos permaneceu na rua. Nunca se sujou. Nunca passou ao estado líquido. Veio o verão, foi-se o verão; veio o outuno, chegou o inverno e as chuvas - e a neve sempre neve continuara, a fazer finca pé, a casmurra. Mas antes da mudança de estações chegaram certos investigadores com o definido (e inconcretizável) intuito de estudá-la. Fizeram testes, exames. Repetiram-nos milhentas vezes. Conclusões: nicles. Chegaram a cantar de galo, emproados, cheios de vaidade científica até ao tutano dos ossos («Não há nada que não possa ser estudado!», afirmava o cientista-mor, de dedinho no ar, a querer furar o céu; e abalaram de rabo entre as pernas e crista murcha. Afinal nem tudo era estudável. Quantificável. Compreensível. O pai aprendera isso havia muito tempo (meu Deus, parecia-lhe que fora à eternidades atrás...) e encarava os homens da ciência como encarara as beatas e os homens de fé que, meses antes, tinham tido a audácia estupidificante de reclamar o rio-que-corria-ao-contrário para seu uso exclusivo. Fanatismos! Execrava-os. E abanava vigorosamente o jornal económico, as folhas em estridente ruído, antes de enfiar o nariz concentrado no editorial.
Investigadores vieram, investigadores partiram.
A neve sempre igual, a mesma, restou.




Quarta-feira, Maio 22, 2002

44

Dada a oportunidade de finalmente poder falar com a Fadinha Dionísia interrogou-a àcerca do seu paradeiro. Afinal de contas por onde é que a menina tinha andado, a galdéria? Com a Antónia, respondeu. Por agora ia bem sozinha e não necessitava tanto da sua ajuda. E, já que estavam no assunto, Nia perguntou-lhe se se tinha ou não revelado ao vizinho da frente.
- Não.
- Porquê?
- Oh, no fim-de-semana em que ele saiu foi para o rio Sado ver os golfinhos e estava tão desgostoso! Tive tanta pena dele! Tanta, tanta! Mas não era a altura certa para me dar a conhecer. O seu padrão de sonhos esteve a ponto de se alterar, infelizmente manteve-se na mesma e eu continuo à espera da alteração. Nada posso fazer até lá.
- Julgava que os padrões não se modificavam a não ser quando havia algum problema. Como aconteceu, por exemplo, com o Edgar.
- Ah, com ele foi diferente. O seu padrão cessou de existir, desvaneceu-se pura e simplesmente. Oh, ainda me dói pensar nisso! Mas os padrões dos sonhos alteram-se continuamente. Infelizmente o do Alfredo permanece estático, igualzinho aquando da sua partida. Só quando mudar poderei ajudá-lo.

- E eu posso fazer alguma coisa?
- Não, já disse, depende dele.
A fada deteve-se no cimo da estante mágica, à altura invisível, e começou a caminhar por ela, com os braços atrás das costas, numa imitação deliberadamente cómica de um general a passar revista às tropas. Por vezes parava e admoestava um qualquer recruta imaginário com o indicador em riste. Dionísia riu-se e perguntou-lhe o que diabo fazia. «Oh! Vi naquele objecto quadrado que guardam na sala» («A televisão», definiu Nia.) «Pois, isso. Vi uma “revista às tropas”. Oh, não se mexiam! É incompreensível.» Dionísia estendeu a palma da mão e a fada sentou-se nela. E ao lembrar-se repentinamente do caso bizarro do vendedor de enciclopédias, Malaquias, por pouco que não a ia esmigalhando na testa ao bater nela com a mão, à semelhança da mãe. Contudo, a fada desaparecera um microsegundo exacto antes disso suceder.

- Desculpa-me! Foi sem querer! Estás bem?
- Estou, não te preocupes.
- É que lembrei-me de uma coisa importante de repente. Há montes de tempo que ando para te contar, mas nunca te vejo e quando te vejo tu nem me dás oportunidade de sequer abrir a boca!
- Bom, estou aqui agora. Conta! Conta, adoro histórias.
- Esta é mais assustadora do que divertida.
E relatou o caso de Malaquias, o facto da mãe se comportar como uma tolinha na presença dele e o despertar súbito da tartaruga, bem como o posterior retornar dela ao sono após a expulsão do vendedor de enciclopédias. À medida que narrava a Fadinha empaledecia, a pele ficava clara, o azul escuro transformava-se a olhos vistos em azul-bébé. E de repente desmaiou. Só não se estatelou no chão porque Dionísia conseguiu apanhá-la antes. Acordou instantes depois com tonturas. À medida que se restabelecia do choque a pele ia escurecendo até recuperar o tom azul original.

- Oh...vejo tudo a andar à roda...não pode ser, não pode ser...
- O quê? Diz-me o quê!
- Acabaste de descrever Malazon. Julgava que se tinha esquecido de mim. Oh não!...
- Pois, eu bem t’avisei.
- Notei uma alteração no teu padrão dos sonhos quando estava com a Antónia...
- Quer dizer que tu sabias? Tu sabias o que se estava a passar e não disseste nada?!
- Não da história que me acabaste de contar, apenas sabia que tinhas muito medo, por alguma razão.
- Então porque é que não me procuraste de uma vez? - disse, irritadíssima.
- Porque a Antónia precisava muito mais de mim do que tu.

Dionísia sentiu-se dolorosamente egoísta. No entanto a questão aqui era a segurança da Fadinha. O problema é que ela lia os sentimentos, as emoções, as reacções no padrão - mas não o que os causava, as acções elas mesmas. Os factos.
A Fadinha entendeu tudo, num clarão. O porquê de Alfredo permanecer inalterado, estático. Malazon impedira o seu desabrochar, impedira que ele finalmente tivesse a força de lançar as mãos e agarrar os sonhos de frente, realizá-los. «Mas ele tem poder para isso?», indagou Dionísia. Oh, para isso e muito mais!, respondeu a fada. A força vem-lhe da maldade, do ódio, da ambição desmedida, da inveja. Que não houvesse enganos: Malazon era acima de tudo um invejoso, defeito principal que lhe alimentava o Poder. Fora ele, de certeza absoluta, a fada compreendia-o agora, o responsável pelo estado de Edgar. Sim! Via tudo claramente! Edgar fora a vítima das suas maquinações e sobretudo da sua falta de prática.
- Falta de prática? Não entendo.

Ela explicou:
- Malazon tem a capacidade de alterar o padrão dos sonhos dos humanos de modo a arranjar aliados, mas é sol de pouca dura e em pouco tempo o padrão restabelece-se e as pessoas regressam ao normal. Foi assim que me apanhou: modificou o padrão do monge e eu acabei numa gaiola de ferro horrorosa!
Mas é-lhe mais fácil apanhar, enfeitiçar os traidores («os que espirram», segundo a fada) do que os outros. No entanto qualquer manuseamento do padrão tem de ser cuidadoso, delicado, para não haver a destruição irremediável do mesmo. Ora o que provavelmente aconteceu com o padrão de Edgar foi o seu incorrecto manusear que conduziu à sua destruição total. Devido à falta de prática, insistiu a Fadinha. Malazon estava perro, enfurrejado. «A tua mãe comportou-se de forma bizarra porque se encontrava sob o encantamento do feiticeiro», disse a fada.

- Mas...tu não sabias que ele estava cá? Afinal, és uma fada! Não é suposto as fadas saberem desse tipo de coisas?
- Não, já te expliquei: Malazon é um mago poderoso, tem meios de ocultar a sua presença. Se não quer que eu o sinta nesta dimensão eu não o sinto, não o vejo e não saberei a sua localização.
É um mago velho e experiente. Sabe utilizar os dons e a magia da forma que lhe convém e é paciente. Como um gato matreiro espera longas horas que a presa saia da toca, confiante; também ele é capaz de esperar anos, décadas, séculos por uma oportunidade de desferir o golpe fatal. Oh, como tinha sido tola pensando que o seu carácter tinha mudado! Pensando que ele a havia esquecido!
- Meu Deus, tanto tempo há espera de ti...! Já me disseste que não pode deslocar-se à tua dimensão, ao teu mundo, porque não sairia de lá jamais. Mas não poderia, mesmo assim, capturar-te noutras dimensões? Afinal, só estavas proibida de visitar a dimensão humana.

- Em outras dimensões não conseguiria apanhar-me de uma forma eficaz e conclusiva. Gastava energia sem proveito nenhum. Oh, ele não é parvo! Só me pode roubar o poder de Fada dos Sonhos na dimensão humana e em mais lugar nenhum.
- E agora? O que vamos fazer?
- Barnabé.
- Quem?
- Peço a ajuda de Barnabé.

- Peço a ajuda de Barnabé.
Tratava-se do único feiticeiro que igualava o poder de Malazon. Graças à sua ajuda conseguira escapar das garras do feiticeiro mau. Ele, avisado pelo dragão branco, contactara as fadas, irmãs da Fadinha, de maneira a que a igualdade de poder desnivelasse a seu favor. Com a ajuda delas conseguira libertá-la. Mais tarde Barnabé ofereceu-lhe um sortilégio que lhe permitia aproximar-se de tudo o que era feito de ferro. Incluindo gaiolas.
Barnabé era a sua única esperança.


Terça-feira, Maio 14, 2002


43

Antes de abalar no fim-de-semana misterioso o senhor Figueira tivera um sonho que o levara a tal partida. Uma noite sonhou que era um menino a fugir da guerra, correndo por um estreito corredor negro e sujo. Escuro. Dele passou para uma casa térrea, luminosa e brilhante, as paredes claras iluminadas pela luz do sol e ele deixara de ser um menino para se reconhecer num velho que escrevia. Compreendeu que deixara as trevas da infância e passara à ordem da velhice. Mas não era uma passagem natural, mas sim imposta. Por si. Vinha de fora e não de dentro. Era o que ele queria ser: uma casa sem móveis, deserta, o caos inexistente, a imaculada ordem reinante. Mas não o era ainda, precisava primeiro de enfrentar definitivamente as trevas, o caos, a desordem interior que ele teimava em arredar de si, em ignorar. Só depois poderia ter o brilho irradiante das paredes vistas no sonho. Compreendeu que não podia ascender à luz sem antes conhecer o escuro e que evitando o escuro não alcançaria jamais a luz. Isso implicava enfrentar o medo. O medo das trevas, da escuridão, do negro perpétuo. Mas...ele estava já mergulhado numa neblina pior e mais densa que a escuridão: a névoa do receio, as densas núvens pretas do pavor. Era imperativo enfrentá-lo. Enfrentar-se.
Por isso partiu.

E voltou mais perdido que nunca, imerso num nevoeiro perene que quase lhe cegava o coração, os sonhos.
Dionísia desconhecia o desolamento interior do vizinho da frente. Só o via triste. Desde que tomara conta da iguana que começara a dialogar com ele quotidianamente. Afinal enganara-se. O tipo era mesmo porreiro! Possuía o dom de arrebatar o público não através de uma voz possante e altaneira, nem de gestos grandiosos, nem de palavras grandiloquentes, mas fazendo uso do amor profundo que nutria pelo mar, pelas embarcações que o cruzavam, por tudo o que estivesse realcionado com o tema naútico. Notava-se a afectividade através dos termos que usava, imbuídos - quase que se diria - de paixão. Nas alturas em que sentado à mesa, trabalhando num modelo, cessava o trabalho por instantes, os músculos do corpo quase inertes, a face limpa de emoções selvagens - os olhos falavam por ele, as palavras tomavam o lugar do corpo e dos gestos apaixonados sublinhando as expressões, os olhos abriam-se em duas lagoas negras gémeas e abarcavam o infinito: lá, onde o mar reinava.
Mas, findo o discurso, finda a enumeração dos barcos (conhecia quase todos de cor e para que serviam; conhecia as correntes e as marés, os ventos, as brisas. Falava de chalupas, baleeiros, navios de vela e a vapor, saveiros - barco de rio. Dizia: «Sabem o que é uma querena? É a parte o navio que fica abaixo do nível da água. E uma polaca? É um navio de três mastros e proa longa e aguda, como um estilete.» Divagava sobre pirogas, faluas, palhabotes - do inglês “pilot-boat”-, cacilheiros, galeras, caravelas, galeões, naus, carracas, muletas, escunas, fragatas, coiraçados, cruzadores, trasantlânticos. Navegar. Ser do mar. Sê-lo.), findo o discurso, dizia, os olhos voltavam ao tamanho original: dois pontinhos minúsculos quase invisíveis.

Jaime adorava ouvi-lo. Passava na sua casa horas esquecidas aprendendo a montar modelos de barcos e a ouvir o vizinho em conjecturas de mar, que o mar era o senhor soberano dos marinheiros, dos navegantes. Não comandavam - eram por ele comandados. O mar - supremo mestre que na sabedoria cristalina dos oceanos cedia o seu espaço à exploração dos homens, estes unicamente em busca de glória vã ou em mesquinha cobiça. Cedia - mas para os apanhar, os enfeitiçar na sua subtil candura jamais eterna. A imprevisibilidade dele, o poder que possui de esmagar o corpo humano ou a criacção humana mais forte e duradoura - embruxava-o. Jaime perdia-se a ouvi-lo, esquecia-se das horas e a mãe tinha de o ir buscar às oito para jantarem, senão o mais certo era ficar lá o resto da noite. Devido à sua influência Jaime já nem ligava à Lara Croft que, coitada, jazia no armário, posta de lado.
Dionísia escutava-o sem coragem de o interromper e perguntar-lhe directamente porque não ia ele em busca do oceano, se o amava tanto. Uma vez fê-lo. Ele olhou-a terrivelmente abatido e respondeu:

- Já é tarde. Agora só me restam as quimeras.
- Mas não! Nunca é tarde! Não pode desistir se é isso o que quer!
Ele suspirou, levantou-se da mesa, poisou o pincel com que dava a última demão no modelo.
- Queres comer alguma coisa? Tenho fruta, pão, bolachas, chá, café e sumos.
- O senhor mudou de assunto.
- Pois foi. Não tens fome? Já passa das seis, deves comer alguma coisa.
- O senhor não é velho.
- Com esta idade tudo o que me resta é olhar para o mar.
- Não, não concordo.
Mas o que mais lhe poderia dizer? Como é que o poderia ajudar? A única possibilidade de ajuda estava nas mãos da Fadinha e ela, como sempre, encontrava-se em parte incerta.
- E tu? O que é que tu queres ser quando fores grande?
- Ahn...não sei, não faço a mínima ideia.
Pausa.
- Talvez...sei lá...escrever...
- Sim, a tua mãe está sempre a dizer que tu lês muito e que lhe estás sempre a pedir livros.
- Ou então...piloto da força aérea! Ou uma simbiose das duas: escritora voadora! Mas aí já devia pedir conselhos à tartaruga, que está mais dentro do assunto.
Ele sorriu. Depois disse:
- És nova ainda. Ainda tens tempo de descobrir. Eu...- sentou-se de novo à mesa - eu é que já fui tarde.
Suspirou, pegou no pincel e terminou o modelo.



Quinta-feira, Maio 02, 2002

42

Sobrando-lhe ainda uma semana de férias, Nia foi passar uma tarde com a prima favorita: Cristina. Tinha dezasseis anos, era lindíssima, de espesso cabelo negro encaracolado a rebolar-lhe nas espáduas e com talento para o negócio. Os pais gabavam-na afirmando possuir ela o mítico toque de Midas. Ou quase. O facto é que tudo em que Cristina se envolvia não se transformava em ouro, mas andava por lá perto. As férias da Páscoa passava-as a trabalhar na geladaria do tio, num centro comercial, estratégia que além de lhe dar uns cobres servia muito mais para a aprendizagem do ofício, algo sobrevalorizado por Cristina, pois tencionava tornar-se no futuro uma empreendedora multimilionária. Afirmando-o com o brilho violeta dos olhos era difícil não acreditar nela.
Quando Jaime e Dionísia chegaram ofereceu-lhes dois gelados. Jaime, mal terminou o seu, entrou a abrir nas escadas rolantes. Ao ar interrogdor da prima Nia explicou:
- É a Lara Croft. Parece que saiu novo jogo. Sabes lá, o puto não larga a consola!
A meio da tarde não havia grande movimento e por isso Cristina decidiu ensinar Dionísia a arte de preparar uma taça de gelado.
- É assim. Vê, repara bem: há uma maneira especial de fazer estas taças. Levam três partes de gelado, que podem ser diferentes ou não consoante o gosto do cliente. Experimenta só com a baunilha para não estragar gelado sem necessidade nenhuma. Bom, depois de colocarmos as duas primeiras partes, cobrindo a taça, metade para cada lado, coloca-se por fim a última. Mas tem de ser de uma maneira particular, pois é sua função levantar as duas primeiras de modo a ficarem espevitadas do lado de fora. Como se fossem uma parede.

Após várias tentativas infrutíferas Nia conseguiu enfim fazer uma taça que não estava mal de todo. A prima elogiou-a:
- Hum-hum, nada mau, nada mau! A menina leva jeito! Daqui a uns anos estás cá comigo. Aprendemos o ofício juntas e depois abrimos uma geladaria as duas! O que é que achas?
Dionísia riu-se. Entretanto chegou uma senhora de meia-idade, sorrindo de modo agradável. Pediu uma taça, exactamente a que Nia estivera a aprender, e foi sentar-se numa das mesas de ferro à espera. Cristina encorajou a prima a fazê-la.
Dionísia lança-se ao trabalho com vontade e maior ímpeto ao ver a cliente animada de energia própria, um brilho fulgurante e morno que lhe nascia do íntimo e florescia até à pele, aos poros, ao ser superior. Uma energia evolava-se de dentro para fora, sem se escapar, pelo contrário, aumentando ao contacto dos outros, das pessoas e até dos objectos sem vida. Ao vê-la dessa forma cintilante lembrou-se subitamente do senhor Figueira, o exacto oposto daquela mulher no sentir. Não quis quebrar-lhe o luminoso encanto da existência, a alegria que irradiava dela, sua fonte, para o mundo cá fora, e dedicou-se à taça como se estivesse a salvar o mundo. Bem, não o mundo, mas pelo menos o contentamento morno e perfeito da mulher desconhecida.
A cliente adorou a taça, a sua forma entrelaçando-se nos sabores de chocolate, baunilha e limão. Era como se cada pedacinho de gelado fosse o primeiro que já alguma vez saboreara. Dionísia afastou-se regalada com a satisfação da mulher e foi à casa-de-banho lavar as mãos completamente lambuzadas de gelado.

Estava deserta. Enquanto se aprontava ouviu de súbito uma voz directamente na cabeça. Mas quem estivesse perto dela certamente escutaria apenas um zunido, não muito audível.
Era a fada. Arregalou os olhos quando a viu: ela estava somente no espelho à sua frente e sem se encontrar atrás de si. Antes de lhe puder perguntar por onde andara ou sequer ter oportunidade de lhe contar a história do vendedor de enciclopédias, a Fadinha disse:
- A Antónia vai atrás dos sonhos que teve a vida inteira.
- Quem?
- A Antónia! Acabaste de lhe dar um gelado!
- Ah...- olhou em volta para ter certeza de que se encontrava só. - E ela esperou muito?
- Oh, nem imaginas! Para ela chegou a ser mais tempo do que aquele que eu foi forçada a esperar antes de puder novamente visitar a tua dimensão. Muito, muito, muuuuuuito tempo!
- Vais ajudá-la?
- Já o fiz. Viste como comia com satisfação. Como é que pensas que a taça te saiu tão bem?
Nia espantou-se.
- Então não fui eu que a fiz?! - inquiriu, ligeiramente irritada.
- Sim, mas eu contribuí com a vontade de a fazeres melhor. E com um pózinho (minúsculo) de engenho para a concretizares. Fiz muito pouco. Contudo, para a Antónia a taça dá-lhe forças para continuar em perseguição dos sonhos.

- E conseguirá realizá-los? - observou de novo o local. Ninguém, que sorte!
- Não sei. Depende dela. Oh, espero bem que sim! Nem imaginas como o mundo se altera quando alguém realiza um sonho! Oh, Nia, fica melhor e até as flores fazem música mais bonita!
Nesse preciso momento a porta moveu-se e alguém entrou. Nia começa a tremer por dentro e em pânico miudinho desvia o olhar para a fada. Ela desaparecera do espelho. Quando a mulher vira as costas e vai a entrar numa das casas-de-banho, a fada reaparece. E ri-se, dando saltos mortais no espelho. Depois despede-se dizendo: «Vou com ela! Até breve!» Nia por instantes esquece-se da mulher e acena à Fadinha. A mulher, entretanto, vira-se e pergunta:
- Estranho...não ouviu um zumbido?
- Eu...? Não...
Olha desconfiada para o seu braço, paralizado no ar, e Nia disfarça ajeitando o cabelo. Sai e vai ter com Cristina. Jaime já regressara. Comprara novo jogo para a consola. Gastava o dinheiro todo naquilo! Bom, pelo menos já não a aborrecia para jogar no seu computador, considerou ela.
- Toma - Cristina passou-lhe para a palma da mão uma moeda de cem escudos.
- Que é isto?
- Foi a cliente que deixou como gorjeta.
Nia sorriu. Mas o contentamento foi breve. De súbito recordou-se que a Fadinha partira com tamanha rapidez que nem a deixara contar o que tinha acontecido na sua ausência. O que fazer senão quedar-se em esperas, que remédio...
Mas o tempo urgia. Tinha a sensação abrasiva que o tempo se escoava rapidamente. E mal acabasse...não acabaria sozinho.
Engoliu em seco.





41

No dia seguinte, de manhãzinha, chegou o veterinário, um homem de meia-idade, afogado em barbas até à cintura, gordo, mas pleno de genica. Jaime foi de novo buscar o escadote e o veterinário escalou-o, encostando depois o auscultador à carapaça da tartaruga. E de seguida à barriga dela e por fim dentro da carapaça. Depois tirou-lhe a temperatura colocando o termómetro num sítio que com certeza, caso estivesse acordada, ela não deixaria colocar. Finalizado o exame sumário desceu do escadote e comunicou:
- Está a dormir!
«Ora obrigadinha génio, a essa conclusão erudita já nós tínhamos chegado!», pensou Nia, irritada.
- Não há problema nenhum, de qualquer tipo, podem estar descansados. Descansadinhos! Quando ela tiver de acordar, acorda!
- E quando será isso?
- Quando tiver de ser!
As suas respostas eram tão óbvias que a família inteira pensou porque não teria ele enveredado por uma carreira política. Sucesso garantido.
Afinal de nada servira chamar um veterinário ou, segundo a designação de Jaime, um «médico de tartarugas». A tartaruga lá continuou o seu sono de beleza imperturbável.