Domingo, Junho 30, 2002
48
Então o senhor Figueira explicou que conseguira que uns pescadores o levassem com eles nas pescarias, a troco de aprendizagem e de mais coisa nenhuma. A comida e o tecto teve de providenciar com as suas economias. Acordava cedo, noite escura, frio de gelar os mortos, embarcava com os pescadores relutantes ao princípio, afinal já era velho para aquele ofício, e ainda por cima enferrujado de músculos e força, mas foi arranjando vontade e coragem para puxar as redes. E paciência, paciência a rodos. E a força uma dia deu por ela e nem sequer se apercebera antes que a possuía. Aprendeu os rudimentos da profissão. Decidiu: vou ser pescador. O ar salgado matinal, o cansaço que faz dormir um sono sem pesadelos e sem sonhos porque, para ele, o dia era o próprio sonho, a fantasia transformada em realidade. Agora iria trabalhar com um pescador antigo, velho, forte, sabedor, conhecedor do mar. Iria ensiná-lo porque pasmou com a vontade e a gana daquele homem. Disse que jamais teve aluno com tanto apetite de aprender. Depois o senhor Figueira compraria um barco, não sabia ainda como, mas sabia que, no futuro, compraria um barco, quando já soubesse manejar um sozinho. O dinheiro surgiria. Com o barco e sabendo pescar iria percorrer o mundo.
Voltou apenas para se despedir definitivamente do emprego, mudar de endereço, arrumar as coisas, entregar a chave ao senhorio e levar a iguana.
Os pais de Nia permanecem sem fala, mudos. Mas, recuperando-a, não lhe pregam sermões nem lhe enchem a paciência de clichés preconceituosos, afirmando ser «uma parvoíce da meia-idade», «loucura repentina» ou «a prova de que a senilidade se instala irremediavelmente», ao contrário do resto da vizinhança, que recusa obstinada a mínima das tolerâncias, para não dizer respeito. A Rua do Espanto está estuporada. O senhor Figueira, a pessoa mais certinha daqui, confiável! Logo ele! Meu Deus, o que andarão a pôr na água da rede pública?!, comentavam. Ao ouvi-los Nia compreendeu que é preciso uma pessoa mudar para ver que as outras continuam as mesmas. A sua família foi a única a felicitá-lo, a desejar-lhe a melhor sorte deste mundo. Jaime desatou em pranto ao saber que o amigo ia partir, e o choro não estacava apesar da promessa solene de daí a um ano se reverem. «Juro! Prometo! Serás o primeiro a estrear o meu barco!», assegurou o senhor Figueira, categórico, e ele acreditou porque o senhor Figueira nunca mentiu. Limpou as lágrimas com as costas da mão e disse: «Vou esperar.»
Contudo, a sua partida não correu isenta de surpresas. A Fada dos Sonhos decidiu que era a ocasião ideal e apresentou-se. Na altura Nia ajudava-o a empacotar os pertences, apesar de levar consigo uma só mala. O resto iria doá-lo. Jaime tinha ido a casa buscar qualquer coisa de modo que os dois estavam sós. De repente Dionísia ouve uma voz na mente, exclamando: «É hoje! É hoje!»
- Estranho...Nia, ouviste um zumbido?
Antes de lhe poder responder a Fadinha materializa-se em cima da cabeça dele, depois desaparece e aparece instantaneamente à sua frente, mesmo ao nível dos olhos. Ele só tem tempo de gritar:
- Cruz credo!
- Apresento-lhe uma amiga: a Fadinha. Há montes de tempo que ela desejava conhecê-lo pessoalmente.
- O...o...qu...quê...?
- Oh, Alfredo, tu nunca me vias! Eras tão cego! Levanta-te do chão e vamos conversar! Então...levanta-te!
A fada desceu até ao solo e agarrou-lhe um dedo tentando içá-lo. Esforço malogrado porque ele era pesado demais. A Fadinha, sendo fada, possuía muitos poderes, menos o da força. Assim, vendo que ele permanecia tombado e mudo, voou até à sua testa, sentou-se lá, de pernas cruzadas e olhou-o directamente nos olhos, afirmando de seguida:
- Temos muito o que conversar!
Nia, por delicadeza, saiu e deixou-os a sós. Ainda esperou acordada parte da noite por notícias da fada, mas ela não apareceu e, cansada de esperar, acabou por adormecer.
Sexta-feira, Junho 28, 2002
47
Certa manhã, cedo, demasiado cedo até para os pássaros, o senhor Figueira bateu à porta dos vizinhos da frente. A mãe, estremunhada, veio abrir e diante de si vê um homem transfigurado. Vinha nervoso, a saltitar de pé em pé como um corredor que espera impaciente pelo tiro da partida para sair disparado a correr, estabelecendo novo recorde mundial na modalidade. Esfregava as mãos e abanava a cabeça. Era notório que queria sair dali o mais rápido possível, pôr-se a milhas. Andar! Andar! Pede à vizinha da frente se lhe poderia prestar o imenso favor de tomar conta da iguana. Não, não fazia ideia do tempo que estaria fora, talvez um mês ou mais, não tinha certezas. A vizinha da frente concorda, evidentemente. Ele sorri e dá-lhe vigoroso abanão num obrigado excessivo em nada coadunável com o seu carácter introspectivo, silencioso e tímido. Desaparece pelas escadas abaixo, a cantarolar, depois de passar para a palma da mão da vizinha a chave de casa.
O mês esvai-se. E junta-se-lhe uma semana. E nem sinal do senhor Figueira. Os pais de Jaime e Dionísia preocupam-se. Por onde andaria ele? Estaria tudo bem? É que nem uma carta, um postal, um telefonema lhes chegou. Nada! Nenhuma notícia. Quando a preocupação se avolumava eis que chega o senhor Figueira, bronzeado e feliz, com uma fileira de dentes níveos a luzir por entre os lábios. À pergunta de onde estivera todo aquele tempo abre os braços como se tivesse intenção de abarcar o mundo e exclama: «No mar!» E depois fala. Com entusiasmo. Numa confissão, dir-se-ia. Mas não de pecador, nem de virtuoso; antes de sonhos, de desejos adiados e que haviam deixado de o ser. Revela que mês e meio atrás compreendera, num clarão súbito e ofuscante, que falhar não era o problema. Não falhar é que o era. Falhar era inevitável. Tão inevitável como respirar. Na sua opinião havia que falhar milhões de vezes, tropeçar em obstáculos ridículos e assustadores. Vezes sem conta. Para alcançar fosse o que fosse eram imprescindíveis, necessários, os fracassos. Tão vitais como o oxigénio. Por isso se diz que errar é humano. É que não pode ser de outra forma! Humano! Era isso o que ele era: um homem. Que tinha falhado. Mas desistir só por isso roubava-lhe, num sopro, a condição de homem. E, pior de tudo, ele - ele mesmo! - é que o fazia. No instante em que o entendeu deu um salto e foi bater à porta dos vizinhos da frente.
Estes, atónitos, expressavam o espanto de queixo descaído. Nenhum deles compreendera uma só palavra. Quer dizer, viam-no feliz, exultante da vida, o que, afinal de contas, era o mais importante. Mas, indagavam-lhe, onde é que tinha estado.
Quarta-feira, Junho 19, 2002
46
Mas o que ela operou como fantástica transformação ocorreu no próprio dia em que Nia descobriu o cristalino algodão-em-rama a bordar-lhe o quarto. Nesse dia também lá foi Rúben. Ele, como toda a gente, tirou um pouco de neve, mas em vez de transportá-la para sua casa cogitou noutro uso a dar-lhe. Afinal, que mais poderia fazer do que remetê-la à cara de alguém? E depois a brincadeira ficava chata, aborrecia. Não, era necessário dar-lhe um uso concreto e específico mais original. Daqueles que restam na memória. Daqueles que crescem em lenda e ficam na cabeça das pessoas, na lembrança dos lugares, fazendo parte do mobiliário, quase pode dizer-se. O malandrinho magicou, matutou, esperneou em pensamentos e de repente: Eureka! Fez-se luz. De mansinho, sem ninguém se aperceber, visto que a atenção de todos se voltava para o quarto de Nia, afastou-se. Na sala não estava ninguém. Viu a tartaruga a pairar lá no alto, pertinho do tecto. Que chatice ser minorca! Mas para que é que se fez o engenho, o desenrascanço? «Desenmerda-te», diz não raras vezes o primo da mota e ele farta-se de rir, porque o primo tem pinta, não é um choninhas. Rúben mediu a sala, os móveis. E lá vem ideia! Arrastou a mesa (sem ninguém dar conta, o barulho da populaça sobrepunha-se a qualquer ruído) até perto da tartaruga pairante. Pôs-lhe uma cadeira em cima. Empoleirou-se nela (já se ‘tava a ver no circo, executando o mesmo número, aclamado por milhões). Não dava. ‘Tava curto. «Bolas, nunca mais cresço!» Colocou outra cadeira em cima da anterior e, cuidadosamente, trepou pelas duas. Ah, já dava! «Eh-eh-eh, vais ter cá uma surpresa...», pensou o artolas, a mão devagarinho a subir para o orifício da tartaruga (o de cima). No exacto momento em que joga a neve pelo buraco abaixo, Jaime apanha-o com a boca na botija e lança estridente berro:
- Rúbeeeeen!!!
Ele desiquilibra-se, cai por ali abaixo aos trambolhões, estatela-se no chão, partindo uma perna. Desata a chorar e a gritar com dores, mas Jaime está-se nas tintas para o seu sofrimento, quer é dar-lhe cabo definitivamente do canastro. O pai consegue apanhá-lo antes e ele limita-se a esmurrar enfurecidamente o ar.
Jaime fica a cargo da mãe, que o segura, enquanto o marido transporta o pirralho engenioso para as urgências do hospital São José. Jaime berra por cima dos gritos dele. Que o vai partir todo. Que ele não perde pela demora. Que lhe parte as fuças, as pernas, os braços e os dentes. Desatando, no fim, numa criteriosa saraivada de insultuosos palavrões (que a mãe reconheceu logo pertencerem ao tio Antunes, não fosse ele seu irmão, lembra-se que em pequeno possuía o mesmo temperamento que o filho). A progenitora ralha com ele e ameaça dar a tartaruga como castigo «se tu não te começas a comportar como deve ser». O aviso teve imediato efeito. Ele calou-se e foi verificar o estado da pobre tartaruga.
E num suspiro, num apagar de borracha instântaneo - todos os avisos e ameaças contra Rúben se eclipsam. Na sala viu-a - milagrosamente acordada.
Desperta, a tartaruga cirandava pelo ar, suspensa, investigando qualquer minúsculo recanto onde porventura o melro se pudesse ter enfiado. Esticava o pescoço até ao limite possível e dos olhos ramosos nasciam gordas lágrimas à medida que ela verificava (ou começava finalmente a acreditar) que o melro morrera. Definitiva e inexoravelmente. Do Outro Lado ninguém regressava - nem os melros.
A tristeza inundava-lhe a carapaça. Jaime temia que ela caísse no sono imperturbado de novo. Como forma de escapar à dor. Mas não. Ela despertara e assim permaneceu.
No entanto arranjou outros amigos voadores. Andorinhas. Aves cruzando os ares em bailados magníficos, dois a dois, a namorarem ou à procura de comida para os filhotes. A tartaruga voadora auxiliava agora um casal delas a cuidar da cria, trazendo-lhe alimento. E o mais estranho era que as andorinhas aceitaram não só a sua presença como também a comida que ela trazia ao filhote.
- Ó mãe, agora a tartaruga tem um afilhado? - questionava Jaime.
- Sim, acho que tem. Até se nota que anda mais satisfeita. Tenho pena é quando as andorinhas partirem no inverno, ela vai afundar-se de novo na melancolia.
- Melancolia?
- Tristeza, burro!
- Ninguém te perguntou! Hum! - e pôs-lhe a língua de fora. Nia imitou-o.
- Talvez não - continuou o pai. - No inverno é quando ela hiberna.
- Inverno, primavera...se a deixássemos até seria no outuno e verão!
A tartaruga deu em trazer os amigos para casa. De vez em quando vuuum!, lá entravam as andorinhas por uma janela à velocidade da luz, logo seguidas pela tartaruga, um pouco mais lenta. Mas não ficavam por muito tempo, era entrar e sair. Raramente aterravam. No entanto a tartaruga andava felicíssima. Contudo, por vezes, parecia triste, principalmente no chão da cozinha, por onde o melro costumava saltitar. Abria e fechava a boca, parecendo brincar com o melro novamente. Ninguém sabia se se limitava a recordar ou se brincava realmente com um melro fantasma que mais ninguém via. Depois suspirava profundamente, um suspiro longo, lento, sentido, e recolhia-se na carapaça acordando apenas no dia seguinte.
O senhor Figueira viu as andorinhas, numa das suas excursões relâmpago e ficou de boca aberta, verdadeiramente espantado. As andorinhas, não podia crer, entraram em casa habitada por gente! Um facto que o fascinou e espantou ao mesmo tempo. Durante uns dias não trabalhou nos modelos, sentando-se apático, completamente absorvido em pensamentos. De fora parecia que estava em estado de choque, cheio de medo, não se conseguindo mexer, mas na verdade pensava, meditava. Jaime e Dionísia continuavam a ir a sua casa, ele mostrava-se simpático e cordial como sempre, mas era impraticável manter uma conversa devido ao seu estado, de modo que o deixaram estar por uns tempos, ensimesmado, absorto em abstractas contemplações.
Mas o que ela operou como fantástica transformação ocorreu no próprio dia em que Nia descobriu o cristalino algodão-em-rama a bordar-lhe o quarto. Nesse dia também lá foi Rúben. Ele, como toda a gente, tirou um pouco de neve, mas em vez de transportá-la para sua casa cogitou noutro uso a dar-lhe. Afinal, que mais poderia fazer do que remetê-la à cara de alguém? E depois a brincadeira ficava chata, aborrecia. Não, era necessário dar-lhe um uso concreto e específico mais original. Daqueles que restam na memória. Daqueles que crescem em lenda e ficam na cabeça das pessoas, na lembrança dos lugares, fazendo parte do mobiliário, quase pode dizer-se. O malandrinho magicou, matutou, esperneou em pensamentos e de repente: Eureka! Fez-se luz. De mansinho, sem ninguém se aperceber, visto que a atenção de todos se voltava para o quarto de Nia, afastou-se. Na sala não estava ninguém. Viu a tartaruga a pairar lá no alto, pertinho do tecto. Que chatice ser minorca! Mas para que é que se fez o engenho, o desenrascanço? «Desenmerda-te», diz não raras vezes o primo da mota e ele farta-se de rir, porque o primo tem pinta, não é um choninhas. Rúben mediu a sala, os móveis. E lá vem ideia! Arrastou a mesa (sem ninguém dar conta, o barulho da populaça sobrepunha-se a qualquer ruído) até perto da tartaruga pairante. Pôs-lhe uma cadeira em cima. Empoleirou-se nela (já se ‘tava a ver no circo, executando o mesmo número, aclamado por milhões). Não dava. ‘Tava curto. «Bolas, nunca mais cresço!» Colocou outra cadeira em cima da anterior e, cuidadosamente, trepou pelas duas. Ah, já dava! «Eh-eh-eh, vais ter cá uma surpresa...», pensou o artolas, a mão devagarinho a subir para o orifício da tartaruga (o de cima). No exacto momento em que joga a neve pelo buraco abaixo, Jaime apanha-o com a boca na botija e lança estridente berro:
- Rúbeeeeen!!!
Ele desiquilibra-se, cai por ali abaixo aos trambolhões, estatela-se no chão, partindo uma perna. Desata a chorar e a gritar com dores, mas Jaime está-se nas tintas para o seu sofrimento, quer é dar-lhe cabo definitivamente do canastro. O pai consegue apanhá-lo antes e ele limita-se a esmurrar enfurecidamente o ar.
Jaime fica a cargo da mãe, que o segura, enquanto o marido transporta o pirralho engenioso para as urgências do hospital São José. Jaime berra por cima dos gritos dele. Que o vai partir todo. Que ele não perde pela demora. Que lhe parte as fuças, as pernas, os braços e os dentes. Desatando, no fim, numa criteriosa saraivada de insultuosos palavrões (que a mãe reconheceu logo pertencerem ao tio Antunes, não fosse ele seu irmão, lembra-se que em pequeno possuía o mesmo temperamento que o filho). A progenitora ralha com ele e ameaça dar a tartaruga como castigo «se tu não te começas a comportar como deve ser». O aviso teve imediato efeito. Ele calou-se e foi verificar o estado da pobre tartaruga.
E num suspiro, num apagar de borracha instântaneo - todos os avisos e ameaças contra Rúben se eclipsam. Na sala viu-a - milagrosamente acordada.
Desperta, a tartaruga cirandava pelo ar, suspensa, investigando qualquer minúsculo recanto onde porventura o melro se pudesse ter enfiado. Esticava o pescoço até ao limite possível e dos olhos ramosos nasciam gordas lágrimas à medida que ela verificava (ou começava finalmente a acreditar) que o melro morrera. Definitiva e inexoravelmente. Do Outro Lado ninguém regressava - nem os melros.
A tristeza inundava-lhe a carapaça. Jaime temia que ela caísse no sono imperturbado de novo. Como forma de escapar à dor. Mas não. Ela despertara e assim permaneceu.
No entanto arranjou outros amigos voadores. Andorinhas. Aves cruzando os ares em bailados magníficos, dois a dois, a namorarem ou à procura de comida para os filhotes. A tartaruga voadora auxiliava agora um casal delas a cuidar da cria, trazendo-lhe alimento. E o mais estranho era que as andorinhas aceitaram não só a sua presença como também a comida que ela trazia ao filhote.
- Ó mãe, agora a tartaruga tem um afilhado? - questionava Jaime.
- Sim, acho que tem. Até se nota que anda mais satisfeita. Tenho pena é quando as andorinhas partirem no inverno, ela vai afundar-se de novo na melancolia.
- Melancolia?
- Tristeza, burro!
- Ninguém te perguntou! Hum! - e pôs-lhe a língua de fora. Nia imitou-o.
- Talvez não - continuou o pai. - No inverno é quando ela hiberna.
- Inverno, primavera...se a deixássemos até seria no outuno e verão!
A tartaruga deu em trazer os amigos para casa. De vez em quando vuuum!, lá entravam as andorinhas por uma janela à velocidade da luz, logo seguidas pela tartaruga, um pouco mais lenta. Mas não ficavam por muito tempo, era entrar e sair. Raramente aterravam. No entanto a tartaruga andava felicíssima. Contudo, por vezes, parecia triste, principalmente no chão da cozinha, por onde o melro costumava saltitar. Abria e fechava a boca, parecendo brincar com o melro novamente. Ninguém sabia se se limitava a recordar ou se brincava realmente com um melro fantasma que mais ninguém via. Depois suspirava profundamente, um suspiro longo, lento, sentido, e recolhia-se na carapaça acordando apenas no dia seguinte.
O senhor Figueira viu as andorinhas, numa das suas excursões relâmpago e ficou de boca aberta, verdadeiramente espantado. As andorinhas, não podia crer, entraram em casa habitada por gente! Um facto que o fascinou e espantou ao mesmo tempo. Durante uns dias não trabalhou nos modelos, sentando-se apático, completamente absorvido em pensamentos. De fora parecia que estava em estado de choque, cheio de medo, não se conseguindo mexer, mas na verdade pensava, meditava. Jaime e Dionísia continuavam a ir a sua casa, ele mostrava-se simpático e cordial como sempre, mas era impraticável manter uma conversa devido ao seu estado, de modo que o deixaram estar por uns tempos, ensimesmado, absorto em abstractas contemplações.
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