Segunda-feira, Setembro 30, 2002

Não acredito, não consigo recuperar os arquivos... :(
56

Jaime andava de cabeça perdida. Porquê? Porque a tartaruga se perdera. Ao princípio Dionísia julgou andar mãozinha maléfica de Malazon por detrás do assunto, mas logo descartou a ideia pois nem a fada nem Barnabé a haviam contactado. Forçosamente o motivo devia ser outro. Não se tratava do primeiro desaparecimento da tartaruga voadora. Galdéria como era cultivava o boémio hábito de passar uma noite fora, retornando no dia a seguir. Para tal deixavam-lhe sempre a janela da sala aberta. Portanto não ligaram quando falhou em aparecer na primeira noite. À segunda porém a preocupação cresceu e instalou-se definitivamente no seio da família cinco dias passados sobre o seu esvanecimento. Jaime soluçava pelos cantos, não havia nada nem ninguém que o tirasse daquele desamparo. De modo que se decidiu optar por solução drástica. Contactou-se a polícia, informando sobre o desaparecimento misterioso de uma tartaruga voadora. Sinais particulares: carapaça verde.

A polícia fartou-se de gozar e fez questão em inquirir se acaso não andaria ela em farra com o coelhinho da Páscoa a caçar gambuzinos. Como a recorrência às autoridades devidas não deu resultado, a família decidiu fazer uso dos seus próprios recursos. Nia elaborou cartazes no computador e andaram a colá-los nos arredores. Além disso procederam também a investigações simples, perguntando às pessoas se, por acaso, não teriam visto uma tartaruga voadora. A maioria desatava a rir, olhando muito em redor, tentando descortinar a localização das câmaras. Claro, aquilo só podia ser para os Apanhados! Outros, no entanto, arrepiavam caminho, julgando tratar-se de uma família de maluquinhos. O anúncio no jornal constituiu outro beco sem saída. Houve um único telefonema de um bando de engraçadinhos, afirmando que uma tartaruga voadora, não senhor, não tinham visto, mas se um bisonte com barbatanas, bexigoso e a supurar de sarna servia. O pai correu-os aos palavrões e desligou-lhes o telefone nas fuças. Isto já não há respeito!, resmungou entredentes.

Passada uma semana Dionísia despertou durante a noite, corroída por um pressentimento avassalador, daqueles que sucedem uma vez na vida e é impossível ignorá-los porque tudo em nós nos diz estar certo. Sem fazer barulho, abafando os ruídos, saiu de casa a meio da noite e dirigiu-se para o local das suas certezas e premonições: o campo de escavação. Estava deserto, se bem que o escuro da noite, encerrada num breu inabitual, pouco mais a deixasse ver. Até o céu escondera as estrelas, quem sabe numa súbita crise de ciúmes. Não descortinando um palmo à frente do nariz deu um passo mal dado e acabou por cair dentro da escavação. Sentiu-se cair durante um período largo de tempo, não fazia ideia que o buraco era daquele tamanho, até que, por fim, aterrou dolorosamente no solo.

O espanto fê-la estarrecer.

Sábado, Setembro 28, 2002

Tou-me a passar, para onde raio é que foram os meus arquivos?! Alien abduction?! Raios, bolas...

/me chateada

Quarta-feira, Setembro 25, 2002

55

O sítio em permanente ocupação desde épocas pré-históricas situava-se num descampado por detrás da rua, de modo que era possível proceder a investigações com o menor dos inconvenientes para os moradores. Durante uns tempos as pessoas até iam observar os arqueólogos em funções. Mas o seu ofício, para os leigos, era chatíssimo: só os viam a cavar, a cavar. E ainda por cima devagarinho, com uma colher de jardineiro, minúscula. Então aquilo não era mas era pegar logo numa pazorra que desenterrasse tudo de uma vez?!, exclamavam alguns, menos informados. Viam-nos cheios de mariquices, fazendo um estardalhaço de todo o tamanho apenas por um pedaço de coisa minúscula, um caquito qualquer. Um escarcéu dos demónios por uma pedra que nem sequer podia ser tocada antes de a fotografarem e desenharem devidamente. De maneira que com aquelas minhoquices os moradores cansaram-se e foram-se embora, deixando os arqueólogos a trabalhar, sossegados.
Menos Rúben. Esse ficou. Ia para lá todos os dias, não se aborrecendo nem pouco mais ou menos. Tanto insistiu, tanto lhes serrazinou os miolos que deixaram-no dar uma mãozinha.

«Mas os tipos são doidos?! Da maneira como ele é! Traquinas e mexilhão! Há-de ser bonito. Ele não parte aquilo mais do que já ‘tá?», demandou Nia. Não, de facto portava-se às mil maravilhas. Um verdadeiro anjinho capaz de ficar horas a limpar peças, a catalogá-las e pô-las por ordem. Extraordinário!
Extraordinário foi também um incidente, digamos, que ocorreu certo dia na estação arqueológica com o arqueólogo-do-vaso-Aristides. Ficara lá a fazer serão e por descuido adormeceu. Dormiu a noite inteira no chão. No dia seguinte Rúben descobriu-o com a barba por fazer. A barba era completamente verde. Mais: era relva.

Aproximou-se do Aristides adormecido, devagarinho-devagarinho, pé ante pé, e puxou-lhe a barba comprida. Aristides deu um valente berro e acordou de imediato, esbracejando:
- AUU! Mas, mas... o que é que te deu?! Tu tens o hábito de puxar a barba, assim, a toda a gente?! - gritava, pleno de irritação e mau humor.
O miúdo, em jeito de resposta, limitou-se a apontar para o rosto do arqueólogo. Ele levou a mão à cara e disse, furibundo ainda:
- Sim, é barba!
Então Rúben pegou-o pela manga da camisa e conduziu-o ao espelho.
- Ora... barba... barba verde... interessante. É a primeira vez que me acontece. Bom, vou barbear-me. Depois: ao trabalho!
E aqui se findaram os seus comentários. Mas aquela história não deixou de lhe causar transtornos. Certo dia ficou entalado num engarrafamento depois de uma partida de futebol entre Benfica e Sporting. Para seu azar estava no meio de adeptos perdedores, todos iridiscentes em vermelho-águia. Iam-lhe arracando as barbaças, mas safou-se, embora ligeiramente depenado. A partir daí, antes de sair de casa, aparava o pêlo rente. E nunca mais teve problemas.

Enquanto por detrás da rua se alongava e alargava o buraco conduzindo aos mistérios do passado, no meio dela permanecia outro que do passado lançava para o presente tristes cânticos árabes, madrugada fora.
- Melancólicos - acrescentava Jaime, que se desunhava de inveja por Rúben, um puto mais novo do que ele, cada dia aprender mais, carregando atrás de si livros de histórico conhecimento. Os antigos companheiros de brincadeira e traquinice apelidavam-no de Edgar e ele, para manter o respeito, corria-os todos à fisgada. Pelo menos nesse ponto a alteração era nula.
Voltando ao buraco, três pessoas juraram terem visto perto dele uma figura alta, de branco, trajando uma espécie de túnica ou «vestido comprido», de lenço à cabeça e barba preta, muito moreno, a cantar e a abrir os braços a quem o visse.
Alguém, para pôr término àquilo, convocou outros vizinhos e, juntos, armados de efémera galhardia, voltaram a encher o buraco, num piscar d’olhos. Cada vez que a água faltava por falta de reparações na conduta, todos cuidadosamente evitavam mencionar melindroso assunto. Mas mesmo assim o mouro persistia em deambular por lá. E ninguém sabia porquê. Claro que ninguém se abeirou dele e perguntou-lhe directamente a razão. A verdade é que não conseguia encontrar o corpo, tantos anos debaixo da terra e recentemente depositado no museu, para «futuras averiguações». Abria os braços em desespero, cantando, cada vez que via alguém, a pedir ajuda. Infelizmente, toda a gente fugia.

Excepto Carolina, de dez anos, que em toda a vida nunca falara, nunca os seus lábios pronunciaram uma só sílaba. Uma noite ouviu o canto triste do mouro e saiu de casa, sem que os pais notassem. A telenovela absorvia-lhes por completo a atenção. Carolina chegou ao pé dele, pegou-lhe na mão e conduziu-o até ao museu. Ao regressar a casa as primeira palavras que disse foram:
- Ele foi-se embora ter com ele.
Os pais, espantadíssimos, cresciam de atónitos ao verificarem serem estas as únicas palavras que Carolina dizia:
- Ele foi-se embora ter com ele.
Dias depois soube-se que o museu se encontrava assombrado por um árabe, de grande estatura, que passava parte da noite cantando alegremente.
Assim lá voltaram a abrir o buraco e concluíram as reparações.