Quinta-feira, Outubro 31, 2002

59


Nia, dona Albertina e tartaruga são recebidas com o espanto que é de prever tendo em conta que haviam saído das entranhas de um campo de escavação que, na aparência, não era assim tão fundo. De regresso a casa Jaime agarra-se à irmã, como uma lapa numa rocha banhada pelas ondas marinhas, beijando-a com sentido sentimento. Ela até pasmou com tanta emoção fraterna. De seguida amanda-se à tartaruga, apertando-lhe vigorosamente a carapaça, de lágrimas nos olhos. O ritual é imitado pelos pais que, na embalagem, o estendem a dona Albertina, a padeira desaparecida.

A princípio reticentes, creem por fim na veracidade da história contada pela primogénita, secundada em cada pormenor por dona Albertina. Em relação à cara inchada Nia responde, roseando ligeiramente a bochecha que não fora picada, com a explicação de uma ferroada de abelha. A mãe insiste em pôr manteiga, Nia refila, mas ela refuta os seus protestos. Enquanto besunta a cara da filha, dona Albertina expõe ao pai pormenores do seu desaparecimento. Caiu num buraco, diz, pouco após o término do percurso da carreira que liga Lisboa a Évora. Anoitecera suavemente, o horizonte deixava ainda adivinhar flagrantes laivos de cores vermelha e laranja, enquanto se alongava por cima num profundo azul progressivamente mais negro. Ia em busca de táxi que a transportasse ao seu destino final e - catrapumba! - caiu num buraco. Ainda por cima esquisitíssimo! Parecia que levara meia-hora a cair. Ao atingir o solo notou o desaparecimento do crepúsculo e da noite. Era dia e o céu exibia-se em azul claro, pontoado aqui e além por farrapinhos de núvens, caminhando ao sabor de brisas suaves. O pai questiona-a àcerca da aldeia para onde supostamente se dirigira. Informa-a de que um dos vizinhos da rua, inconformado com a sua partida, fora lá de propósito em busca dela. Regressou com a notícia de que lá ninguém a conhecia. Dava a impressão que a padeira se desmaterializara. Dona Albertina replicou que o provável era que «o moço se tinha enganado na aldeia». Existindo duas com o mesmo nome, diferenciando-se uma da outra como «a de baixo e a de riba», ele se calhar fora à de riba quando a sua era a de baixo. Era um engano comum. Findas as explicações a padeira levantou-se num movimento ágil, batendo ambas as mãos nos joelhos, e informou-os não ser já sua intenção reformar-se. Pelo contrário, queria retomar o ofício. A estada naquela «cidade de doidos, onde as pessoas se enrolavam em lençóis» fê-la aperceber-se que a sua identidade se firmava no ofício de padeira. Sempre se nomeara a si própria primeiro como padeira e só depois como Albertina.Portanto ficaria. E a morte que a reformasse. Em jeito de agradecimento, num gesto de gratidão pura, decidiu presentear a família da sua salvadora com pão grátis enquanto habitassem na Rua do Espanto. O pai, numa visão, viu de novo os portões do Paraíso abrirem-se de par em par.

O sapateiro, furioso por ter perdido tanto dinheiro no negócio, concorda em vendê-lo à padeira. Dona Albertina, de modo a evitar que as pessoas desatassem a voar descontroladamente, institui a regra de que a cada pessoa seria apenas vendida uma quantidade máxima de pão. A maioria refilou, mas calaram os resmungos à sua ameaça de se mudar para outra freguesia. Mas quem se mudou mesmo foi o sapateiro, ao notar que, mais uma vez, os sapatos não resvalavam nem num grãozinho de pó. Empacotou família e trabalho e ala que se faz tarde.

Na noite da vinda de Nia a fada dos sonhos foi ter com ela, já todos dormiam. Explicou-lhe que a tartaruga não voara porque com o tombo, o susto fora tanto e o medo crescera-lhe, impedindo-a de regressar por vontade própria.
«Mas», disse Nia baixinho «uma coisa que eu continuo a não compreender é o facto de eu e as pessoas da outra dimensão nos entendermos tão bem. Não houve problemas de comunicação, parecia que estávamos a falar a mesma língua.»
«Ah», retorquiu a Fadinha, executando uma pirueta no ar, «isso é porque pessoas de dimensões diferentes entendem-se sempre. É o que acontece que connosco.»
«Compreendo...» Baixou os olhos e brincou com as mãos, sem saber onde as pôr, envergonhada com a pergunta que estava prestes a fazer.
«Quanto tempo mais vais ficar com o senhor Figueira?» e as colinas planas da face remorejaram em ondas escarlate (uma mais do que a outra). Estava embaraçada com os ciúmes que se viam à distância e que a fada, com certeza, adivinhara. «Oh...», respondeu, «tenho de estar perto dele, para melhor o ajudar. Mas tu sabes que podes sempre contar comigo.» De facto a fada notara a ciumeira, sem sequer ter recorrido ao padrão dos sonhos, e por isso dera uma resposta doce, tentando fazê-la compreender que tanto a ela como a Alfredo votava estima igual. Mas não era isso que estava em jogo e sim a necessidade. Por enquanto era Alfredo quem mais precisava da sua presença.

«Desculpa», disse Nia. «Estava com ciúmes», admitiu, o que fez diminuir o vermelhar denunciador do rosto. O corpo, por vezes, mais sábio, revela o que nós escondemos. «Há tanto tempo que tu não aparecias que eu senti saudades. E além disso existe Malazon...», mas aqui foi interrompida furiosamente pela Fadinha que, cortando o ar num bater rápido e ríspido das asas libélula rosa-pálida, declarou num tom de voz que não admitia dúvidas:

- Oh! Preocupas-te demasiado! Ele não me apanhará! Estou farta de to dizer! - afirmou, cruzando os braços azuis. À explosão da fada Nia emudeceu. Notando-o a amiga alada envergonhou-se. Que culpa tinha ela! Nenhuma! A fada escondia o medo naquela falsa encenação de fortaleza, de indómita vontade férrea, de ser isento de receios e dúvidas. Nada mais errado. Mas se o medo transparecesse Dionísia ficaria em grandes cuidados. Não podia permiti-lo. O medo, qual perfume invisível, atraía Malazon. Tornava-se imperativo escondê-lo. Dionísia, porém, acreditava que quanto mais cedo ela o admitisse, mais cedo poderiam fabricar estratégias convenientes para combater de forma eficaz o feiticeiro maquiavélico. Esconder as coisas, na sua opinião, só as tornava piores e, com o tempo, ficavam entulhadas por debaixo de capas de coragem falaciosas, capas que era necessário destruir antes que essas mesmas mentiras contribuíssem para sua própria destruição. Mas isso despendia energia e, sobretudo, tempo de que cada vez a Fadinha dispunha menos. Ela não o veria?! Não estaria consciente do perigo?!
A fada pôs um ponto final ao melindroso tema mudando de assunto. Pairou até às sobrancelhas de Nia e disse:
- Quando o Alfredo tiver o barco vamos passar mais tempo juntas. Prometo. Até lá juro que te venho visitar.
Nia sorriu e respondeu:
- Está bem.

Então a fada despediu-se e avançou para a janela do quarto em velocidade supersónica, desaparecendo antes de a trespassar. Sem sono, Dionísia pediu um livro à estante mágica, porém não lograva ultrapassar a primeira linha. Devolveu-o à estante, fazendo ambos esvanecerem-se mercê de um sopro. Deitou-se, vestida, na cama, por cima das cobertas e rezou a um Deus incógnito. «Protege-a», rogou. Protege-a.

Segunda-feira, Outubro 21, 2002

Pronto! Já voltei a colocar as mariquices todas...
58


A Fadinha estava com Alfredo quando de repente uma alteração alarmante se produziu no padrão de sonhos de Dionísia. Por ele soube igualmente do seu paradeiro e num eclipsar de olhos, num rebentar de bola de sabão, esvaneceu-se reaparecendo na dimensão onde ela e a tartaruga tiveram o infortúnio de cair.
- Não sou a primeira - informa. - Parece que aqui estão constantemente pessoas a cair do céu. Tantas que já nem lhes ligam, vê lá tu.
- Sim, eu sei. Só que provêem de outras dimensões. É raríssimo virem da tua.

Dionísia não entendia como raio é que semelhante coisa poderia ocorrer. A fada explicou-lhe que as duas dimensões eram paralelas e, por qualquer razão, se entrecruzaram. Fosse como fosse a fada iria ajudá-la a sair dali e a voltar para casa, juntamente com a tartaruga e a Albertina. Nia arrepiou os ouvidos. A Albertina? Ali?

- Sim, não sentiste o cheiro do pão?
- Não.
- É por estar longe. Mas espera aqui que eu já a trago - e puff! Desapareceu.
Poucos segundos decorreram e já ao longe descortinava uma figura, numa correria desenfreada em sacolejos de braços e pernas frenéticos, berrando o seu nome histericamente: «NIIIIAAAA!!» Mal a alcançou pôs-se a abraçá-la com sofreguidão, desconjuntando-lhe o esqueleto em vigorosos apertões. A Dionísia quase lhe saíram os bofes pela boca.

- Dona Al...ber...ti...na! Hunff! Dei...deixe-me...res...pirar!
- Ai desculpa! Como é que vieste parar aqui? Ai meu Deus...! Que situação...arranjaste cá um sarilho! Olha que eu caí num buraco esquisito há um mês e tal e vim parar a esta terra de doidos! Já reparaste como se vestem?! Ridículo, não é? Lençóis, é o que parece, lençóis! O pior é que está sempre a cair gente aos trambolhões do céu! No outro dia, estava eu a amassar a farinha do pão (já que estava aqui, o melhor que podia fazer era ocupar o meu tempo a trabalhar!), e caiu-me mesmo ao lado um tipo estranhíssimo, de olhos rasgados (oriental, sabes?), todo vestido de peles, baixote, a brandir uma espada e a perguntar pelo cavalo.
- Mongol - explicou ela.
- Não, não me chegou a dizer o nome do cavalo. Nem o dele. No instante seguinte desapareceu! É uma terra de doidos varridos! Vê lá tu que ninguém me ajudou! A minha única safa foi o meu ofício, se não fizesse pão bem que podia morrer de fome!

O pão! O pão! Do fundo do crânio uma ideia brilhante envolveu Dionísia num misto de crédula certeza e divino milagre antecipado. O pão poderia ajudá-las a pisgarem-se daquele antro de doidos, sem o mínimo senso de hospitalidade.
De súbito o sangue gelou-lhe nas veias. A fada sapateava, sem lograr tocar um só fio de cabelo, na cabeça de dona Albertina, numa imitação bem conseguida de Fred Astaire. (Ou seria Ginger Rogers?) Bailava em seu redor, desviando-se um momento antes de ser vista por ela.

Dona Albertina, notando Dionísia de faces congeladas e engolindo em seco, julgou ser por preocupação e responde à pergunta da miúda, temendo que a resposta lhe agravasse o sentimento de desespero, do medo de ficar para sempre retida em tão estranha terra.
- Infelizmente, aqui o pão não faz voar ninguém. Andam todos muito rentinhos à terra. Foi uma tremenda desilusão porque, no início, essa também foi a minha ideia.
Quedaram-se ambas mudas e sem consolação possível. Mas Dionísia esquecia-se de alguém muito importante e que acabou por tirá-las todas daquela alhada.
- Pega na tartaruga e coloca-a sobre a tua cabeça! Agarra nela como se fosse um chapéu - ordenou a fada.
- Estranho, Nia...ouviste um zumbido?
- Eu...? Não! Deve ter sido impressão sua!
- Faz como eu te disse! - repetiu a fada.
- Lá está ele outra vez! - insistiu dona Albertina.

Na altura Dionísia pensou que a Fadinha endoidara, mas enfim, fez o que ela lhe tinha mandado. A tartaruga não apreciou a brincadeira e começou a mexer freneticamente as barbatanas.
- Mas...o que é que tu estás a fazer?! - exclamava, incrédula, a padeira.
- É uma ideia que me veio de repente. Olhe, agarre-se a mim.
Estranhando aquilo, mas já estando por tudo, pôs-lhe as mãos ao redor da cintura e carregou o cenho, como que dizendo: «Vamos lá ver no qu’isto dá!»

A Fadinha ordenou:
- Agora voa!
- Eu devo estar a ouvir coisas! Lá está o zumbido de novo!
- Não ligue, deve ser do stress...
- Voa! - ordenava a fada. Mas como é que raio ela queria que Dionísia o fizesse?! Num microssegundo a resposta fez-se clara. Não era para ela que a Fadinha estava a falar: era para a tartaruga.
Num ápice a tartaruga elevou-se, levando Dionísia e a padeira. Esta gritava alto:
- Virgem Santííííísimaaaaaa...!!!
Entraram pelo céu azul e elevaram-se no ar até se distinguir um buraco acastanhado. Por fim pararam, sairam dele e poisaram ao lado da escavação. Já era dia. Os arqueólogos trabalhavam na altura. Ficaram um bocado surpreendidos.

Sábado, Outubro 19, 2002

Tou-me a passar com esta merda!!!!!!!!!!!!!!!!!

Pronto, recuperei os arquivos. Tive de voltar a republicar a template, a chatice é que perdi os comentários e os links. Que se lixe!!!! Tenho os arquivos de volta, é o que interessa. UFF!

Sábado, Outubro 12, 2002

Blogger: Error 104: java.lang.NullPointerException (server:page) - Eu: ó seu grandessíssimo filho de uma £@%&, que £§@£ é que isso quer dizer?!

Terça-feira, Outubro 01, 2002

57

Caíra numa cidade, antiga - e era dia. O sol ia alto no firmamento azul claro. Pouco a pouco uma pequena multidão foi-se chegando perto e encarou-a sem pasmo, na verdade exibia uma indolente resignação que a desconcertava. Notou que todos vestiam à antiga romana, com túnicas que enrolavam à volta do corpo, caindo em pregas, e calçavam sandálias. Um jovem, talvez de dezasseis anos, segurava a tartaruga que, pelos vistos, já não era assim tão voadora.

- Outro - comentou um velho com toda a aparência de snob, - outro - repetiu - que cai do céu - e afilou os lábios numa linha cortante ao mesmo tempo que suspirou aborrecido.
À pergunta de onde está respondem-lhe que se encontra em Atucauca. «Raio de nome tão escanifobético», diz de si para si.

Indaguam seguidamente da sua proveniência, mas com uma cara de enfado que não enganava nem um ceguinho. Queriam lá saber! Estavam-se nas tintas! Perguntavam por perguntar. Isto irritou Nia, irritação que se veio juntar ao sentimento crescente de abandono, acabando por se transformar em raiva miudinha. Dionísia informa vir de Lisboa. Bom, não morava exactamente na cidade, ficava lá perto. As pessoas emaranhadas em túnicas olham umas para as outras e dizem desconhecer o sítio. Ela, então, arrisca uma pergunta: «E Olissipo? Conhecem?» Evidentemente que conheciam! Os rostos deles clarearam e, pela primeira vez, sorriram-lhe. Mas o maior desejo de Nia é dar corda aos andantes e pirar-se dali. Com a tartaruga. Quando inquere sobre a forma de sair dali, afirmam-lhe ser tal impossível, pelo menos de uma forma deliberada e consciente.

Explicam-lhe que há pessoas a cair constantemente do céu, de dia ou noite, e nos locais por vezes menos apropriados. Não é que ontem tinha caído um mesmo em cheio nas águas termais? O pior não era isso: o pior é que tinha trazido o camelo! Mas, mal arribou, partiu. Ao sair da água (com o camelo), num ápice o espaço sugou-o e tudo o que dele restou foi uma enorme poça de água. «Não é que nos incomodemos por tão, digamos, inesperadas visitas. O problema é que, os que ficam durante algum tempo, não se adaptam aos nossos hábitos. Mas logo que se acostumam: Puff! Desaparecem sem deixar rasto. Ah, é uma chatice...», afirmou o homem velho de ar snob, a erguer constantemente o cenho à medida que lhe avaliava as...roupas? Aquilo seriam roupas? Uma cidade civilizada certamente não admitiria que uma cidadã se vestisse daquela...forma! A fúria de Nia aumentava a cada nova medição do velho. Como sair dali, era a sua questão principal. Mas a pequena multidão que a rodeara há instantes escasseava, escoando-se pelas frinchas do tédio que a sua aparição significava. O velhote cheio de triques repete que não sabe, aliás, ninguém sabe. O mais que pode fazer é esperar que o espaço a sugue e a devolva ao sítio de onde vem. Fora isso... De resto, notou, não estavam dispostos a ajudá-la. De mais a mais era sempre uma perda de energia inútil. Isto rebentou de vez com os fusíveis de Dionísia.

Perdeu as estribeiras e arrebatou a tartaruga ao jovem que a segurava e se entretinha numa observação demorada das suas estranhas vestimentas. Nia larga a correr e ele, atabalhoado pelo inesperado roubo, segue-a, mas com pouca convicção. Outros vão igualmente no seu encalço, mas desistem pelo caminho. Quando se vira repara que não a perseguem já. Pára perto de um riacho, ofegante da corrida, e coloca a tartaruga no chão. Enquanto recupera o fôlego ouve um zumbido perto de si. Eufórica vira a cara e recebe uma valente ferroada no rosto. Pensara ser a Fadinha, afinal era uma abelha. A arder de dor ajoelha-se e molha a face dorida, enquanto cerra os olhos. Quando os abre descobre a Fadinha ao seu lado, inclinada de modo a ver-se reflectida na água. «Oh, que belo!», afirma e voltea sobre si mesma como um fuso. «A água é um material mágico. Reflecte as variações da nossa alma em líquido. Não é como um espelho, estupidamente estático, mas percorre a imagem com ondas nunca iguais. Muda e no entanto a imagem percebe-se sempre como a mesma entidade», explicita. Dionísia, porém, não estava virada para filosofias. Doía-lhe terrivelmente a face, que comprimia o que apenas lhe aumentava a vermelhidão e o ardor. «O que foi?», indagou. «Uma abelha usou a minha bochecha direita como pista de aterragem», esclareceu Nia. «Oh, a malandra!» A Fadinha colocou as mãoszinhas azuis sobre o seu rosto, em forma de concha. Nia sentiu o calor e o espigão saiu de imediato. «Obrigada», disse.