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Mas nem tudo eram espinhos. De quando em vez uma ou outra rosa florescia na vida de Dionísia convertendo-a, ainda que momentaneamente, à felicidade, à alegria que de tão intensa parece eterna. O que nunca é o caso. Então o medo voltava, as núvens negras e seus maus presságios abatiam-na - até nova onda de contentamento a invadir, nascida por vezes de coisas que, à primeira vista, parecem minúsculas, mas a longo prazo engradecem e é por elas que acabamos por pautar o milagre que é a vida.
Uma dessas ocasiões foi a notícia com que a mãe regressou do trabalho, poucos dias após o retorno de Nia e tartaruga ao lar. O enfermeiro, disse, exultante, tinha ido aos Correios. Desta vez a correr à frente de um envelope que, pulando e bailando por toda a divisão, contorcendo-se como um ginasta olímpico, denotava o seu grande ensejo de ser enviado. Sem dar hipótese ao enfermeiro de agarrar e impôr disciplina à missiva rebelde, ela saltitou para cima do balcão, colocou sozinha o selo, saltando por fim para a caixa de correspondência nacional. O enfermeiro, esbaforido, informou a mãe que a garota recuperara e escrevia ao irmão, quase a finalizar a tropa, dando novas do seu renovado estado de saúde. A mãe sorriu muito e considerou o dia ganho.
Dionísia partilhou com ela o momento de felicidade que sentiu. Jaime, contudo, demonstrava maior interesse no novo barco enviado pelo senhor Figueira. Ao ar interrogador materno a filha declarou que haviam os dois recebido uma carta do antigo vizinho da frente. A Jaime mandara o barco contando que uma galeria expunha as suas embarcações miniaturizadas, alcançando grande sucesso. Chegara já a vender umas quantas! Em pouco tempo, pelas suas contas, teria o veleiro! Jaime, porém, permanecia calado. A mãe franziu o sobrolho escondidamente à filha e esta bichanou-lhe ao ouvido que o mano «’tava com a burra», expressão da avó significando estar amuado.
- Então porquê? Não gosta do barco? Olha que até é muito giro. E muito bem feito. Ele que o guarde porque cá desconfio que daqui a uns anos há-de valer uma bela maquia - asseverou.
- Julgas que ele o vende?! Nem pensar! É dele e prontos. Nem a mim quase o deixa pegar. Anda mais tempo com ele a tartaruga às cavalitas. Não é isso. É que na minha carta - que o pirralho teve à força toda de ler - o senhor Figueira calhou dizer que há por lá uma miúda, de seis anos, acho, muito sua amiga. Conta-lhe histórias e conversam muito. O que ele tem é ciumeira. Dor de cotovelo.
- Ora, deixa lá o teu irmão! Não o arrelies. Sabes que ele tem saudades do vizinho da frente.
- Eu sei, eu sei...’tá descansada. Não o chateio.
A mãe saiu da sala e foi aprontar o jantar, deixando os filhos entretidos. Nia não lhe dissera que a tal «miúda» era a Fada dos Sonhos (até porque a mãe desconhecia a sua existência) e nem que as histórias que ela «inventava» eram verdadeiras. Como a de term encontrado golfinhos e nadado com eles. A fada lançara da boca, dentro da água, um aro vermelho e uma bola amarela - o seu nome real - com os quais os golfinhos brincaram.
Dionísia sentia uma vontade maliciosa de aborrecer o irmão cantado a altos berros: «Ele tro-cou-te! Ele tro-cou-te!» Suprimia a vontade substituindo-a por outra. Desatou a fazer-lhe cócegas e, enquanto ele se contorcia, aproveitou para lhe roubar o barco, fugindo com ele.
- Dá-me isso! Dá-me! - gritava Jaime, agitado e cheio de nervos.
Entretanto chegou a tartaruga com o filhote das andorinhas às costas. A cria não aprendera a voar ainda e a tartaruga ia-lhe mostrando as vistas, numa espécie de treino informal. Dionísia distraíu-se com o súbito aparecimento dela o que deu a Jaime a oportunidade de reaver o barco, colocando-o seguidamente sobre a couraçada verde da tartaruga. A andorinha júnior de imediato o reclamou como sua propriedade, subindo para cima dele, desatando a piar e a abrir, impetuosa, as asas para trás, como se fosse um garboso comandante. Atravessaram a sala e tomaram o caminho da rua, onde os pais do júnior os acompanharam, um de cada lado, como uma guarda de honra.
Nesse instante o pai entrou na sala, revista de economia debaixo do braço, e a segurar uma côdea de pão. Sem se dar conta disse em voz alta que nem queria pensar no desgosto da tartaruga quando as andorinhas emigrassem para terras mais quentes no fim do Verão.
- A não ser que emigre com elas...- volveu Nia, alheia a Jaime. De súbito pai e filha apercebem-se que ele estava ali, ao pé deles, e arrependem-se do que haviam dito.
À noite a tartaruga regressou e Jaime dormiu abraçado a ela, enclavinhando os dedos na dura carapaça.
No dia seguinte Nia acordou com datas de batalhas e de assinaturas de tratados e de começos e de fins de reinados e de revoluções e de Reformas e Contra-Reformas a bailarem-lhe desenfreadamente no crânio.
«Odeio testes de história. Estudei ontem a noite quase toda e mesmo assim não assentou nada cá dentro. Odeio história!», cogitava, ao passar pela escavação a caminho da paragem. Era cedíssimo, no entanto lá estavam Rúben (só tinha aulas à tarde, ocupando as manhãs no campo) e Aristides aluado, remirando um caco minúsculo, munidos de cuidados extremos. «Até parece que é a cura para o cancro», disse de si para consigo, maliciosamente. «Bolas, se o Rúben gosta tanto de história podia fazer o teste por mim. Vou espalhar-me ao comprido, já sei.»
A camioneta parou e ela subiu.

