Domingo, Abril 13, 2003

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Perto do final das aulas foi organizado um passeio ao jardim zoológico, mais lúdico que educativo, embora tecnicamente se tratasse de uma visita de estudo. No entanto a cada aluno era requerido o pagamento do bilhete. «Bela democracia», rabujou Beta, mas depois lembrou-se da girafa corredora. Nem ela nem Dionísia teriam de pagar bilhete, tinham duas entradas grátis à sua espera. Telefonaram a certificarem-se.
- Tudo certo. Estão lá. Só temos de levar o BI para confirmar o nome. Não pagamos! Viva! - disse Beta.

Ultimamente andava com aquela do «Não pagamos! Não pagamos!» Considerava a luta estudantil contra as propinas chique e de extremo bom gosto revolucionário. Nia fartava-se de lhe explicar que o tema não devia nada a romantismos, que aí estaria a abordá-lo pela rama, mas nada feito. «Eu é que leio os livros e a ela é que lhe dá os ataques românticos», pensava.
No zoo a turma assistiu ao show aquático dos golfinhos. A pele dos mamíferos parecia borracha e incandescia, húmida, ao embate do sol.
Depois a turma dispersou-se, dividindo-se em pequenos grupos, seguindo cada um para seu canto. Beta e Nia afastaram-se e, de repente, notaram a presença da girafa-bébé, perfeitamente integrada com outras, ocupada a mastigar o almoço.
- Olha! Olha ali! Olha quem ela é!...- apontou Dionísia.
- Pois...conheço...eu vou práquele lado, não vá a menina ter ideias de me comer a saia para sobremesa... - afirmou, lacónica, e afastou-se na direcção de umas aves adornadas de plumagem garrida, deixando-a só.
- Então, rapariga, por aqui? Por esta altura acreditava teres comido já a vedação...ou esta é recente? De facto, pareces mais gorda...
A girafa-bébé reconheceu-a e apressou-se a ir ao seu encontro. Cheirou-lhe as mãos, à procura de comida.
- Não te trouxe nada. Aliás, é proibido. Mas tu não tens que chegue?! Livra...
Afagava-lhe o focinho, desviando-se da língua áspera que lhe feria as mãos. Olhou para os lados e depois confidenciou à girafa:
- Vou comprar-te um mars, ali. Venho já. Não fujas!

Virou-se e tinha dado já três passos quando de súbito um espirro a pôs em alerta. O seu coração disparou. Viu um homem aproximar-se de si em passo largo e apressado, cobrindo o rosto com um enorme lenço.
- Atchiim! Aii...maldita alergia...- queixava-se.
Barnabé. Acalmou-se. Não havia perigo. Sorriu para ele à medida que o seu ritmo estugado encurtava a distância separando os dois. Contudo, existia algo de errado na cena. Qualquer coisa a punha de sobreaviso, não obstante a razão e a mente lhe afirmarem, categóricas, tudo se encontrar em perfeita ordem. Em harmonia. Mas o corpo discordava e à medida que a separação entre ambos diminuía o coração despertava para o pânico, a pele suava e a respiração acelerava. Estes sintomas de medo sem razão aparente, de pânico, agudizavam a cada passo de Barnabé, lenço bailando na mão, tapando metade da cara, amaldiçoando a Primavera e as alergias detonadoras dos espirros. O corpo, recordou, por vezes sabia mais do que a mente: e avisava-a. Dionísia arregalou os olhos quando no cérebro o clique de reconhecimento se deu. Algo mais, porém, não estava como era suposto estar. O quê? O quê? O pânico mantinha-a pregada ao chão, impossibilitando-a de pensar, de raciocinar com clareza. De repente apercebeu-se do que se tratava - os animais estavam calados. Tinham emudecido. Nada bugia. E as pessoas eram como estátuas, paradas. Nenhuma delas se mexia, nem um gesto fluía de si. Só os animais continuavam activos, sem contudo emitirem um só ruído.
Não era Barnabé. Era Malazon.

Tentou mover-se, freneticamente, sair dali, escapar, rápido, rápido! O corpo ordenou-o primeiro à mente, que lhe retribuiu a ordem, mas nem uma célula de si obedeceu. Já não se tratava de pânico - ela queria mexer-se! Mas uma força exterior à sua vontade impedia-a. Encontrava-se pregada ao chão como uma árvore. Até de piscar os olhos era incapaz. Malazon. Fora ele o arquitecto de tudo aquilo. Lançara um sortilégio e as pessoas tinham-se transformado em estátuas vivas. Mas o encantamento não afectara os animais. Estranho...
Malazon rodou sobre os calcanhares, abriu os braços altivamente e apontou o queixo arrogante para o céu. Vociferou, ribombante:
- APARECE!
Fez uma pausa e repetiu:
- APARECE!

Baixou os braços e voltou-se, o olhar cravado em Dionísia como faca aguçada. Lentamente ergueu a mão, enquanto o rosto se deformava num sorriso escarninho. Da mão direita Nia vê nascerem figuras nebulosas, sem forma definida, adquirindo, devagar, contornos precisos. E aterradores. Vermes. Vermes nojentos a saírem-lhe da palma, por entre a carne. O corpo petrificado surpreendeu-a com um arranco de vómito percorrendo as veias. As linhas definiram-se. Não eram vermes, eram cordas. Flexíveis como borracha. Três cordas: uma rosa, outra amarela e a última azul. Bruxuleavam no interior da mão do feiticeiro. Pouco a pouco aumentaram de tamanho e com ele crescia um intenso brilho cegante. Se ao menos pudesse fechar os olhos! Impossível! Ele impedia-o. As cordas, de repente, estacaram o movimento e, num fósforo, entrelaçaram-se, desenhando uma trança. Tinha o tamanho de uma espada. No término restavam as três pontas independentes, como boca sôfrega, faminta, voraz. E fatal. Semelhando garra de ave de rapina, construída para agarrar solidamente a presa, a vítima. A garra, a boca, movia-se no fim da longa trança, formando uma ágil e poderosa arma. Porém, além de eficiente, era bela, linda, perfeita no aspecto. Mas indiscutivelmente mortífera. O brilho emitido atingia com crueldade crescente, sem piedade, os sentidos de Dionísia, cegando-lhe a vista.
- APARECE! - cacarejou numa voz grave e imperativa.
-APARECE OU A TUA AMIGUINHA SOFRERÁ AS CONSEQUÊNCIAS! - finalizou.

Nada. O puro silêncio foi a única resposta à invectiva. Malazon susteu a respiração, dardejou novo olhar maldoso em Nia - e caminhou para ela. Devagar, não era preciso pressas...para morrer. Parou a escassos centímetros dela. Cravou-lhe os olhos em cima. E ela não podia virar a cara, olhar noutra direcção. Viu a espada-verme florescente erguer-se e parar no alto. Depois...depois em voo picado extraordinariamente rápido abateu-se sobre o seu rosto.
Parou milímetros antes de a dissipar de alto abaixo, como as espadas samurais, que tinham a reputação de poder cortar um homem ao meio. Se ao menos pudesse fechar os olhos...
- APARECE JÁ OU ELA MORRE!

Mal acabou de falar a Fadinha materializou-se no seu ombro esquerdo. De imediato a tentou fisgar à mão, na estúpida ganância de a capturar, mas ela, claro, eclipsava-se e reaparecia no topo do seu crânio. Os dentes rangiam de ódio e de raiva à medida que as suas atabalhoadas tentativas de a interceptar à mão se revelavam infrutíferas. E imbecis. Deixara-se cegar pelo ódio. Sendo feiticeiro, senhor de infindáveis recursos, era evidente que tentar capturá-la a pulso era não só um estratagema parvo como impossível. Cansou-se e desistiu. Optou então pela espada-verme, que se revelou tão rápida como a luz. Perseguia a fada a incrível velocidade, abrindo e fechando a boca e ela só muito a custo iludia as tentativas, desaparecendo praticamente no último instante.
Mas o jogo revelava-se cansativo. A fatiga de Malazon era visível pelo suor inundando-lhe a testa crispada pela raiva. A fada, porém, não estava isenta de cansaço. Tornava-se perigosamente lenta e vulnerável.
Dionísia observava a perseguição, o coração aos pulos, aterrorizada. Engoliu em seco. E piscou os olhos repetidas vezes ao notar que a Fadinha se escapulia cada vez com maior dificuldade dos avanços da espada-verme para a engolir, a enclausurar dentro da boca.

De repente sentiu o dedo mindinho mexer-se. Logo a seguir conseguiu mover o braço inteiro. O mago aproximava-se dela. «Só mais um bocadinho, vá lá, só mais um bocadinho...pois, práqui, vem...vem que eu já te dou o arroz...», pensava. Planeava atingi-lo onde mais doesse mal ficasse ao seu alcance. Mas não foi ela que acabou por o apanhar, mas sim a girafa-bébé. Logo que ele se aproximou da vedação a girafa abocalhou-lhe o bolso de trás das calças e não o largava por mais que Malazon esperneasse e esbracejasse desenfreadamente. Soltou-o apenas quando conseguiu por fim tirar o que ele guardava no interior do bolso. Uma barra de chocolate.
- Sempre foste um guloso - Nia escutou a voz de Barnabé atrás de si. Conhecia-lhe a voz, idêntica à do irmão, e soube que não era um truque, apesar de ainda não conseguir virar a cabeça, pelo ar de aterrorizado espanto de Malazon, esbugalhando os olhos. De súbito o seu corpo tornou-se mole, frouxo. Cessara a anterior condição petrificada, empedrada.
- É sempre a gula que te perde - continuou Barnabé.
Malazon suava em bico, por todos os poros. A espada-verme perdia progressivamente o estado fléxivel e moldável, tornando-se estática, endurecida e quebradiça. Num segundo estacou e rachou-se, quebrando por completo, indo tombar em minúsculos pedacinhos no chão, pedaços estes que se metamorfesearam em larvas nojentas, retorcendo-se como se mergulhadas em indiscrítivel sofrimento. Depois pegaram fogo e desapareceram num instante, enoveladas por nuvens amarelas que rapidamente evaporaram. Dionísia, enojada com o espectáculo, reprimiu um vómito e em seguida olhou na direcção de Malazon. Já lá não estava. Viu-o, a correr, ao longe.
- Pára! Pára! - ouviu Barnabé ordenar. Debalde. Malazon prosseguia a desesperada corrida, encharcado em água e nem os raios que o seu irmão lhe lançava logravam acertar nele. «Porque, simplesmente, não desaparece?», perguntava-se. Depois compreendeu a razão. A fraqueza, a estafa da batalha iniciada e perdida impediam-no. Esgotara parte de energia significativa e encontrava-se por demais enfraquecido para poder desaparecer por entre o ar. A única safa era despistar os inimigos e recompor-se. Mas Barnabé continuava na sua esteira, sem contudo conseguir capturá-lo.

- Oh! Eu acabo com isto! - exclamou de súbito a Fadinha e mal acabou de o dizer Malazon tropeçou e caiu no chão.
- Viva! Viva! Conseguiste, Fadinha, conseguiste! - rejubilava Dionísia, por entre palmas e pulos de alegria.
Barnabé estava prestes a alcançá-lo e a Fada dos Sonhos seguia-o a curta distância. Eis senão quando, num derradeiro esforço, Malazon se eclipsa ante os seus olhos, metamorfoseando-se em nuvens de gás amarelo que rodopia até à atmosfera, deixando o espaço que tinha ocupado - vazio. Restava somente como marca da sua presença o solo coberto de relva amassada.
Tão perto. Tinham estado tão perto...
- Teremos de esperar pelo seu próximo ataque. Mais uma vez nada podemos fazer antes que ele se decida a agir - suspirou, resignado, Barnabé.
A Fadinha sentou-se no ombro de Dionísia que, entretanto, os tinha alcançado.
- Não há outra maneira? - inquiriu. - Não existe uma forma de dar com ele e de o apanhar primeiro?
- Infelizmente não - calou-se por instantes e depois dirigiu-se à fada. - Olha lá...essa da relva crescer instantaneamente foi de mestre! Foi uma maneira estupenda de o obrigar a parar! - colocou a mão nos lábios, cerrou o sobrolho e acrescentou:
- Fui eu que te ofereci esse sortilégio, não fui?
- Foste sim - respondeu, respirando com dificuldade. - É uma magia fantástica! Já a usei antes.
- Quando? - questionou ele.
A fada encolheu os ombros, baixou os olhos e disse envergonhadamente:
- Oh, não importa! Agora temos assuntos mais importantes a tratar!
- Eu conheço essa expressão...fada, conta-me - insistiu o bondoso feiticeiro, utilizando um tom de voz ligeiramente zangado, como se adivinhasse logo que coisa boa não tinha sido de certeza.
- Não fiz nada de mal! Apenas...me diverti!
Dionísia recordou num clarão um incidente não muito distante. E exclamou:
- O arqueólogo Aristides!
- O quê?
- De um dia para o outro nasceu-lhe barba verde!
- Fada! Ora se isso se faz! Devias ter vergonha!
Ela riu-se alegremente e explicou:
- Encontrei-o à noite a dormir e não resisti! Aliás, fica tão bonito! E de vez em quando até lhe nasce uma florzinha amarela na bochecha!
Desmancharam-se todos a rir à gargalhada.
A seguir a Fadinha partiu, deixando Nia e Barnabé. Pouco a pouco as pessoas iam despertando do transe marmóreo, sem se lembrarem de nada. A única que conservava memórias do acontecimento era Dionísia. Malazon precisava dela desperta, Bem acordada, para que o seu pânico, expresso no padrão dos sonhos, atraísse a Fadinha para uma armadilha - quase - fatal. Tiveram sorte, daquela vez.
Quando viu Beta aproximar-se Barnabé despediu-se rapidamente e prometeu estar atento a qualquer mudança. Acontecesse o que acontecesse estaria sempre lá para proteger tanto Dionísia como a fada. Antes de Beta o poder ver desintegrou-se numa nuvem de vapor laranja que se dissipou em segundos perante o olhar estupefacto de Nia.
- Dói-me o pescoço - disse Beta. - Está a ficar tarde e o professor está a chamar-nos. Anda, vamos embora. Livra, dói-me mesmo o pescoço. E a ti?
- Também...um bocadinho.