Sexta-feira, Abril 18, 2003

63


Reposta a precária harmonia da vivência quotidiana, precária porque tinha os dias contados, Dionísia ía distraindo o pensamento de Malazon evocando o fim da escola, para daí a duas semanas. Faltavam-lhe uns quantos testes, que não a preocupavam. Entretia a mente ansiando pelas férias que os pais tinham programado serem passadas em Algarve, no mês de Agosto.
Ultimamente a rua amodorrava em inabitual monotonia. Nada de estranho ou anormal sucedera desde o último encontro com o pérfido feiticeiro no jardim zoológico.
Até que...
Há sempre um até que...

Um dia, inexplicavelmente, uma vizinha, a dona Efigénia, estava ela na mercearia a comprar fruta e massa e arroz quando começou, sem aviso prévio, a falar numa língua estrangeira. Ninguém a entendia. Nem ela. Quer dizer, ela percebia o sentido do que estava a dizer, não compreendia era como aquilo acontecera. Mais tarde soube-se que falava a língua de toda a gente - só que ao contrário. E apenas percebia as pessoas quando estas lhe respondiam ao contrário. Assim, para a chamarem não podiam dizer: dona Efigénia, ó dona Efigénia, então como vai a senhora? Nem por sombras. Ela não perceberia patavina do discurso. Tinham de dizer: anod Ainégifi. Afortunadamente eram só as palavras que se diziam do avesso e não a narrativa inteira.

Certa altura, estavam Dionísia e a mãe a comentar o estranho acontecimento no café, quando uma vizinha que conversava com elas começou também a comportar-se da mesma forma bizarra. A senhora abria muito os olhos e a boca, estupefacta, depois colocava a mão sobre o rosto numa infrutífera tentativa de impedir o prosseguimento do fenómeno, mas era impossível. O resto dos clientes, dando-se conta do facto, desandaram dali para fora o mais rápido que conseguiram, não fosse a maleita pegar-se. A mãe considerou o comportamento deles uma parvoíce, um vírus do faló-contrário, que estupidez!, e fincou pé na mesa a consolar a dona Gertrudes, coitada, desfeita em lágrimas, e que a partir dessa altura só atendia por Sedurtreg.

O facto é que o incompreensível fenómeno se espalhou ao resto da população da rua, residentes ou não, incluindo arqueólogos. Ao fim de um certo tempo apenas passar na rua se tornava perigoso porque de um momento para o outro se podia começar a falar às avessas. Mas aí o problema era menor porque toda a gente já se compreendia, a chatice era fora da rua. Principalmente nos empregos. Os patrões julgavam tratar-se de um embuste, uma partida de mau gosto. Os colegas partilhavam a opinião dos chefes, considerando ser uma brincadeira, mas fartavam-se de rir, incentivando os colegas com palmadinhas nas costas e sorrisos de orelha a orelha, porque alguém estava a lixar o patrão e era muito bem feito e tinha imensa graça e ainda bem que não eram eles os paspalhos que iam para o olho da rua. Nos comboios, camionetas, autocarros, metro, a história repetia-se. Os fiscais pediam o bilhete aos atingidos pelo vírus do faló-contrário e estes não percebendo a questão perguntavam, na estranha língua, o que desejavam. Às tantas os fiscais danavam-se e ficavam prestes a levarem-nos à polícia. Mas então os passageiros esquisitos retiravam um papelinho do bolso explicando a situação. Os fiscais riam-se e perguntavam-lhes a seguir se por acaso os achavam com caras de parvo. Ao que estes respondiam: õan, õan rohnes, õan ohca. Que significava: não, não senhor, não acho. Mas eles não percebiam nicles e, perdendo a paciência, pegavam-lhes pelos colarinhos e conduziam-nos à esquadra. E a esquadra lá confirmava a veracidade da história. Para dizer a verdade, a esquadra já estava mais do que farta de o fazer. Ultimamente era um entupir do mesmo tipo de casos que não havia tempo para resolver outros. A esquadra e respectivos polícias já andavam a trepar paredes. Então os fiscais lá largavam os indivíduos, depois puxavam muito para baixo o uniforme amarrotado, observando de esguelha os óbvios delinquentes, tão óbvios que só os polícias eram tão burros que não viam, e voltavam às funções, desviando-se do caminho de outro homem irado que acabava de entrar segurando alguém pelo colarinho, reclamando que o tipo se recusava a pagar a conta do restaurante e ainda tinha a refinadíssima lata de «fingir que não falava língua de gente».
As coisas, como se depreende, não andaram lá muito famosas durante uns tempos. Quer dizer, andaram famosas, mas ninguém gostava do tipo de fama.

O episódio durou tanto que a mesma equipa de cientistas que investigara o caso da neve inderretível resolveu entrar em acção.
E acabou por entrar pelo cano. Ao fim de poucas horas entrevistando e recolhendo todo o género de informação pertinente, começaram também a falar do avesso. No entanto o facto foi vantajoso porque assim percebiam a fala dos habitantes e podiam recolher toda a informação num curto espaço de tempo. Bom, a recolha foi feita, mas não se chegou a qualquer conclusão. Desanimados, arrastando os pés, pegaram no equipamento e partiram.
Dois dias depois telefonaram a informar que tinham encontrado a cura: bastava deixar a rua, ficar afastado dela por alguns dias que a língua normalizava. Ao princípio ninguém acreditou, mas notando que os informavam sem fluidez na fala, lá acabaram por acreditar. E depois foi um corre-corre para fazer as malas e partir para residência de familiares ou hotéis.
A família de Dionísia foi das últimas a sair. Iam para a casa da avó. Tinham acabado de embalar o necessário, e estavam já no fim da rua, carregados de malas, quando o pai diz muito depressa:
- O pão! Meu Deus, esquecemo-nos do pão!

Evidentemente a primogénita foi a escolhida para o ir buscar. Após o recuperar fechou a porta de casa atrás de si à chave. Afastara-se já um bocado quando um sonoro espirro soou na rua deserta:
- Atchiiim!!
Desta vez nem deu chance ao paspalho de a pôr fora de combate, sacou logo de uma pedra e lançou-a ao crânio. Mas esta, a meio do percurso, parou.
- Nia?! O que é que tu ias fazer? Arrebentar-me com a cachola?!
A chatice de existirem dois mágicos iguais, um bom e outro mau, era o facto de ser incapaz de os distinguir. Afinal, tratava-se de Barnabé e não de Malazon.
- Desculpe...eu...pensei que fosse o seu irmão.
- Notei. Mas não faz mal, é muito difícil saber quem é quem. A culpa não é tua.
- Mas...o que é que o senhor está aqui a fazer? Não me diga que isto do vírus faló-contrário é obra de...
Ao mesmo tempo que Barnabé anuía com a cabeça algo de estranho aconteceu. Na rua as casas desapareciam, envoltas numa neblina cinzenta escura, enquanto à frente de ambos um gás amarelado formava um corpo.
Ela sentiu um arrepio de morte na espinha. Barnabé colocou-lhe a mão no ombro e disse:
- Calma. As coisas só terminam quando têm de terminar. Nada está perdido.

Antes de Nia ter oportunidade de pensar alguma coisa a fada apareceu de súbito atrás de Malazon, saltou-lhe para a frente dos olhos, lançando-lhe pó na vista. Isto fê-lo uivar durante uns instantes.
- Toma! Julgas que sou fácil de prender?! Enganas-te! - e deu-lhe uma bicada no nariz. O que o fez realmente zangar-se.
Malazon retirou as mãos da cara num gesto brusco. Estava enfurecido. Raivoso. Levantou as mãos ao céu cinzento e prendeu Dionísia e Barnabé ao solo. Face à dupla incapacidade de movimento, Nia surprendeu-se...mas então os poderes de ambos não eram iguais? Equivalentes? Como é que Malazon conseguiu aprisioná-lo tão facilmente? Não era possível! Não podia ser!
E tinha razão. Barnabé soltou-se e lançou um raio invisível ao irmão gémeo. Este começou a rodopiar no ar, urrando:
- Ahhhhh! Larga-me! Laaaaaaarrrrgaaaa-meeeeeee!!

Enquanto com um braço fazia o irmão dançar, com o outro tentava libertar Nia da posição de estátua. Conseguiu-o. Infelizmente o dispêndio de energia fora demasiado: cansara-se, estava enfraquecido. Malazon aproveitou a sua fraqueza para se livrar dele de uma vez por todas. Ergueu as duas mãos abertas, levantando Barnabé do solo, à distância, como se fosse uma marioneta sem fios. Prendeu-lhe as mãos e pernas com cordas florescentes, feitas do mesmo material que a espada-verme do jardim zoológico. Tapou-lhe a boca com fita adesiva que apareceu de repente e, dando balanço, lançou-o para o alto. Barnabé perfurou o céu cinzento e Nia deixou de o ver.
- Agora nós - encarou Dionísia. Ela agarrou numa pedra e ia já para lha mandar à tola quando ele se começou a rir e a fez regressar à posição marmórea. Nem sabem a vontade que tinha de lhe arrebentar os miolos, mas o braço não obedecia à sua vontade, mantendo-se imóvel. A raiva e o desânimo consumiam-na. Com Barnabé fora da corrida a Fadinha bem que se podia esforçar, mas Malazon acabaria por vencer.
E isso significava a morte da fada. De repente Dionísia notou que pingos lhe molhavam a roupa. Chovia? Não, não estava a chover. Era ela que chorava. As lágrimas escorriam-lhe pela face e o feiticeiro ria-se que nem um perdido, confiante na vitória, ao vê-la chorar de medo e desalento.

- Oh, Nia, Nia! Não tenhas medo. Eu tiro-te daí! - garantiu a Fadinha. Impossível. Por mais que lhe puxasse o cabelo ou lhe tentasse dobrar os dedos ou por mais que a empurrasse: Dionísia não se moveu nem um milímetro sequer. A Fadinha, desconsolada, começou também ela a lacrimejar. Não! Era o pior que podia fazer! Não se podia abandonar à tristeza! Tinha de ser forte para derrotar Malazon! Mas a fada persistia no pranto e descuidara os movimentos do feiticeiro.
- Coitadinha...não chores! Daqui a momentos tudo estará terminado! - calou-se e acrescentou, arregalando os olhos - Prometo-te.
Subitamente uma brisa levantou-se. A fada começou a rodopiar como uma pena à mercê do vento. Só Dionísia e o feiticeiro maléfico permaneciam imóveis. A fada rodopiava a meio caminho entre os dois, apanhada numa espécie de tornado. Nesse vento rodopiante outra coisa surgiu: letras. Imensas letras. De todos os tamanhos e feitios. Eram cada vez em maior número. Até que o furacão se fechou em cima e em baixo e a fada ficou aprisionada num casulo em que as letras eram como barras de aço, impedindo-a de sair. No meio distinguia-se a fada, adormecida. Dionísia sabia que o feitiço de pôr as pessoas num transe sonolento era dos que menos durava, mas Malazon não precisava de muito tempo para finalizar o seu trabalho maldito.
- Pensavas que eu não sabia? Palavras, letras! São para ti como o ferro é para as tuas irmãs! Eu sei tudo! Eu sou o melhor feiticeiro! De todos os tempos! De todos os mundos!
Ainda por cima era convencido.

O coração de Nia pulava freneticamente. Adivinhava o fim próximo da amiga. Não, este não podia ser o fim! Meu Deus, faz qualquer coisa, pedia ela! Com Barnabé fora de combate a quem mais podia recorrer para ajuda?
Malazon fechou os olhos e concentrou-se. Nia notou gotículas de suor a nascerem-lhe na testa: estava a ficar cansado. Tinha de despachar-se senão não teria forças para levar a cabo os intentos maléficos. Abriu os olhos de repente. Afastou os braços e lançou a cabeça para trás, cerrando novamente as pálpebras. E ela então viu a fada, ainda presa no transe, pairando inerte no meio do tornado: tornava-se progressivamente clara, de um azul menos carregado. Meu Deus, estava a ficar branca! Pálida!
E Malazon, por seu turno, adquiria uma cor roxa. Quanto mais pálida a Fadinha se tornava, mais a pele dele adquiria um escuro tom roxo.
E foi aí que Nia notou o desaparecimento do suor. Ele recompunha-se! Recobrava as forças! E a fada, meu Deus, a fada estava já completamente branca. Tinha os braços caídos ao longo do corpo e a cabeça tombada no peito. Só o cabelo mantinha intacta a coloração dourada.
Então uma luzinha de esperança deu-se a conhecer.
O braço direito de Nia. Conseguia mexê-lo! Porventura uma distracção por parte do feiticeiro, concentrado totalmente na Fada dos Sonhos. E ela não iria desperdiçar a chance. Mais outro segundo e atiraria a pedra. Bem no meio dos olhos daquele canalha! Acabar com o seu escarninho, com o seu riso malvado!

Ao constatar ser capaz de mover o braço por completo, fez pontaria, rezou a todos os anjinhos do céu - e arremessou a pedra.
Para a ver cair aos pés do feiticeiro. Falhara! Ele ainda arreganhou a dentuça, caçoando:
- Ah! Ah! Ah! Coitadinha...não fiques triste! Então, não é caso para chorares!
Aproximou-se levando a pedra.
- Creio que isto te pertence. Não...é melhor não ta devolver agora. Eh lá! Estás enraivecida - dizia, enquanto ela o tentava esgadanhar com o braço direito, ainda solto. Isso não o incomodou e deitou a pedra fora. Dionísia mesmo que quisesse não seria capaz de alcançá-la. Viu a fada - praticamente branca. E Malazon parecia negro!
- Mais uns segundos e estará tudo acabado! Poderei controlar quem quiser, aqui e noutras dimensões! O poder dos sonhos é o mais poderoso que existe! E daqui a pouco...SERÁ MEU! ETERNAMENTE MEU! EU, MALAZON, SEREI ETERNAMENTE PODEROSO!
Ia já para virar as costas quando reparou no saco pendendo do braço esquerdo de Nia.
- O que é isto? Pão? Ora...muito agradecido, foi muita consideração da tua parte! É que estou cá com uma fomeca! - e roubou-lho.
Dionísia perdera as esperanças. Só rogava a Deus, a todos os santinhos, a todos os anjinhos, ao menino Jesus, a Barnabé para fazerem qualquer coisa! A Fadinha estava a morrer! Nem que tivesse de trocar lugar com ela, não se importava! Desde que ela vivesse!

As lágrimas escorriam-lhe pela face, tantas que a impediam de ver bem. Lembrou-se, num clarão, das palavras consoladoras da mãe, meses atrás. Ela tinha dito que às vezes as coisas boas aconteciam quando menos se esperava. Dissera que, por vezes, o mundo tinha maneiras de nos surpreender agradavelmente nas piores situações. E Nia, por entre lágrimas, por entre suspiros abafados, só pensava: ó mãe, mãe! Deus queira que tu tenhas razão! Ó mãe, eu preciso tanto que tu tenhas razão Agora!
Angustiada, viu o feiticeiro levar um pedaço de pão de dona Albertina à boca.
E o milagre aconteceu. Quanto mais ele comia menos presa ela ficava. Quanto mais mastigava menos branca a Fadinha se tornava. Quanto mais satisfeito Malazon se sentia, a sua cor roxa ia perdendo progressivamente o tom carregado. E mais os pés se erguiam do solo, a uma altitude cada vez maior. De súbito as letras cessaram o redemoinho à volta da fada, caindo por terra. Dionísia, vendo-se liberta, correu ao seu encontro, evitando que tombasse no chão. A cor azul voltara à sua pele. Despertou por causa das lágrimas dela.
- Ni..a... - murmurou. E ela viu-lhe nascer um sorriso pequenino nos lábios. Salva! Estava salva! E viva! Viva!!
Limpou as lágrimas, desviando o rosto do seu corpo minúsculo. Não podia continuar a molhá-la com o choro, não fosse apanhar uma gripe. Ao virar a cara vislumbrou Malazon preso por uma perna à mão de Barnabé. A sua face expandia-se num sorriso, nada maléfico, de contentamento, enquanto o irmão gémeo o ia alimentando com o pão do saco. Felizmente que estava cheio.
- Eu não disse que era a gula que te perdia? - afirmou Barnabé, vitorioso. - Eu não disse?
A mãe tinha razão. Às vezes quando mais se precisa algo de bom acontece. «Ó mãezinha, vou dar-te um abraço quando te ver de novo», pensou.