Domingo, Abril 20, 2003
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Enquanto segurava o irmão por uma canela Barnabé explicou que a essência de dona Albertina era semelhante à de uma jóia preciosa não laminada. Uma essência de valor inestimável que ela sempre transportara em si, embora fosse necessário dar-lhe forma para que brilhasse inteiramente. No fundo dona Albertina era como uma guitarra. Sozinha não fazia música, precisava de alguém que tangesse as cordas e desse modo libertasse a melodia. Foi o que Barnabé fez. Mas, na verdade, acrescentou ele, a canção sempre estivera presente - à espera de nascer. Ele limitara-se a tocar na corda certa.
- A sua extraordinária capacidade de fabricar pão que põe as pessoas, contentes da vida, a voar - compreendeu Nia.
Barnabé aquiesceu enquanto fazia brotar do pulso correntes que o prendessem com maior firmeza ao pé de Malazon.
A fada, passado o perigo, sentia-se abatida e débil. Barnabé iria levá-la para sua casa para recobrar forças. Não podia regressar à sua própria dimensão naquele estado deplorável. As irmãs adivinhariam logo o que se passara e o mais certo era porem-na novamente de castigo. Se o fizessem Dionísia nunca mais a veria. Portanto para evitar tudo isso iria repousar em casa de Barnabé até se restabelecer.
- E Malazon? - interrogou Nia. - Vai precisar de muito pão para o manter quietinho uma larga temporada! Olhe que satisfeito que ele está! Parece um anjinho: que transformação!
- Podes ficar descansada. Garanto que nunca mais te vai incomodar. Nem a ti nem a ninguém. Mas agora é melhor ires ter com a tua família. Estão à tua espera.
Dionísia arregalou os olhos e exclamou:
- É verdade! Já me esquecia! Devem estar à seca há horas!
- Não - argumentou o feiticeiro. - Malazon transportou-nos para outra dimensão e foi aí que teve lugar a batalha. Voltámos há minutos, não notaste?
Ela olhou em redor e só então reparou que se encontrava na rua deserta, liberta já da névoa cinzenta.
Despediu-se do feiticeiro e da fada, indo ao encontro da família.
De repente lembrou-se: o pão! Não o tinha! O que iria dizer ao pai?
- Não viste o pão em lado nenhum? - o pai encarava-a estupefacto. - Mas...mas procuraste bem, em todo o lado?
- Sim, pai. Até em cima do guarda-fatos.
- Mas...mas...
- Ó homem, deixa lá isso! Então tu tens pão de graça sempre que quiseres! Não foi o que disse a dona Albertina?
- Sim, foi, mas...mas...
- Ó homem, não podes passar sem o pão durante dois dias?! - persistia a mãe. Até que Dionísia não se conteve e abraçou-a com muita força. - Mas, Nia?! O que é que tu tens?
- Nada mãe, é só para te dizer que gosto muito de ti - ela estranhou, mas alegrou-se com a inesperada explosão de afecto.
- Eu...eu também, filha. Também gosto muito de ti - e retribuiu o abraço. De seguida Nia virou-se para o pai e abraçou-o igualmente, não fosse ele ficar com ciúmes.
- Gosto muito de ti, paizinho.
- Ahn...eu também, filha, eu também...mas...tens certeza de que viste em todo o lado?
- Sim...- descobriu Jaime pelo canto do olho, muito desconfiado com aqueles enleios todos. Não pôde conter-se e deu-lhe um chi-coração.
- Pára! Pareces parva! Deixa-me! Não me beijes, ainda por cima! Estás doente ou quê?!
- Adoro-te irmãozinho!!! Muito!
- Larga-me!! Bolas, logo tinha de ter uma irmã! Vocês, raparigas, são tão parvas!
- Mas...Nia, explica-me lá isso outra vez: não viste o pão em lado nenhum?
- E ele a dar-lhe! Ó homem, vamos é lá embora, que a tua mãe está à nossa espera! Livra, que não se cala com o raio do pão! Quando chegarmos à terra descansa que vais ter pão com fartura!
- Sim, contudo não é o mesmo!
- Guia mas é!
E seguiram para a casa da avó.
Permaneceram três dias, findos os quais a fala voltou ao normal. Regressaram a casa e encontraram o resto da população com a situação igualmente normalizada. Apenas dona Gertrudes tinha por vezes recaídas e desatava a falar ao contrário, mas aquilo ao fim de umas horas voltava ao lugar.
Entretanto a escola terminou e vieram as férias.
Dionísia e Beta andaram o mês de Julho juntas, fazendo, por insistência da última, a rota dos centros comerciais. Beta deleitava-se a experimentar roupa, perfumes, cremes, acessórios e bijutaria. Nia, mais que farta, instou para que fizessem outra coisa. A medo sugeriu visitarem um lugar muito de acordo com a personalidade da amiga.
- Que lugar? - perguntou, enquanto revolvia nas mãos um chapéu.
- O museu...
Beta nem a deixou terminar.
- Tu ‘tás doida?! Depois do último? Aquele saracoteio desatinado dos quadros?! Nem pensar!
- ...do Traje - finalizou. E esperou pelo clique.
- Traje? - abandonou, num ápice, o chapéu.
- Sim, ali no paço do Lumiar.
Sem mais Beta arrastou-a pela mão até à paragem. Meia hora depois chegaram ao destino.
Extasiada perante a variedade de vestuário de épocas remotas, percorreu as galerias como um eremita em santa peregrinação. Numa delas descobriram uma mulher copiando para um bloco um dos vestidos expostos. Acercaram-se dela. Tinha um fato negro que não dava para ver bem se eram calças ou um vestido. Fosse o que fosse contrastava com o longo cabelo ruivo, desenhando na franja um bico. Era linda. E simpática. Mal as viu sorriu-lhes. Beta nunca tinha conhecido ninguém assim. Pelo canto do olho tentou, disfarçadamente, espiar o que a mulher desenhava. Ela, notando o gesto, pôs o esboço bem à vista e perguntou-lhe a opinião.
- A...minha...a minha opinião? - questionou Beta, surpreendida. Geralmente ninguém lhe pedia opiniões para nada. Principalmente os adultos.
- Sim. Diz-me o que pensas - e no seu rosto não havia sombra de hipocrisia nem de mentira. Espelhava a sinceridade pura.
- Bom...para dizer a verdade...acho que devia ser mais curto de um dos lados. Que tecido planeia usar na confecção?
- Veludo.
- É muito pesado. Seria melhor seda.
A mulher remirou o esboço uma única vez e concordou com as sugestões.
- Quer-me parecer que tens jeito para isto! Eu sou estilista. Tu gostas de moda?
A resposta encalhou na garganta de Beta tal a felicidade. Se gostava?! Adorava! Idolatrava!
A estilista então convidou-a para trabalhar consigo durante as férias, claro que precisaria da aprovação dos pais.
E eles deram-na.
Rodeada de panos e tecidos exóticos, de cores e feitios diversos, Beta sentia-se nas suas setes quintas trabalhando no atelier da estilista. Para ela era o Paraíso. Fazia recados, ajudava no que era preciso e não raras vezes a chamavam para dizer de sua justiça em determinado modelo, o que achava, que acessórios seriam os mais apropriados.
Por coincidência essa época coincidiu na exactidão com o tempo em que a conta bancária do pai tinha mais dinheiro.
Dionísia, por seu turno, partiu no mês de Agosto com a família para o Algarve. Levaram a tartaruga, mas ela, mal o carro parou, saiu logo a voar na direcção de casa para ir ter com o afilhado.
Não era capaz de ficar nem um minuto separada dele.
Em Setembro regressaram ao lar. Os pais retomaram o trabalho e Dionísia e Jaime ficaram ainda com duas semanas inteirinhas de férias.
Jaime passou-as em confraternização com Ruben. Após o despertar milagroso da tartaruga provocado por este, meses atrás, a fugaz animosidade que lhe votara eclipsou-se. Mas se as ameaças ditas no calor da raiva foram escorraçadas da mente quando presenciou o despertar da tartaruga voadora, o que na verdade provocou a aproximação foi o facto de Jaime ter visto a tartaruga ir ter com Ruben - por sua iniciativa. E permitir que ele lhe fizesse festas. Soube depois que durante o período de férias Ruben tinha feito as vezes de guardião, tarefa que incumbia a Jaime. Estando ele fora já nada impedia que os miúdos da rua se metessem de novo ao barulho com a tartaruga. Mas Ruben sacava da fisga e punha a malta desrespeitadora à distância.
A irmã utilizou o tempo de férias que lhe restava indo visitar a prima Cristina na geladaria do tio, ouvindo os seus sábios conselhos sobre a Bolsa e as acções que estavam em alta. Encontrava-se, noutras alturas, com Beta, que passava muito do seu tempo no museu do Traje - a desenhar. Beta descobrira, recentemente, ter talento para o desenho. No museu passava horas esquecidas a recolher informação nos espólios (aos quais tinha acesso através da estilista, que conhecia a directora do museu), onde era guardado o vestuário que já tinha sido mostrado ao público bem como aquele que ainda não tivera a oportunidade de ser exibido. Copiava e modificava o traçado original, recriando-o, fazendo uso de um génio, um dom ignorado - mas que sempre existira, enterrado no fundo de si mesma.
«Tal e qual a dona Albertina», pensou Nia, orgulhosa pela amiga. E a lembrança da padeira levou-a à recordação do antigo vizinho da frente, outrora funcionário público e presentemente pescador e artista conceituado, emergente na cena ibérica. Não tinha notícias dele há meses. Era tempo de corrigi-lo.
Decidiu escrever-lhe.

