Quinta-feira, Abril 24, 2003


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A resposta não tardou. Na carta Dionísia descobriu uma fotografia de um homem cada vez mais distante, mil vezes!, mil anos sumido!, do vizinho que conhecera. Exibia um sorriso largo e puro e o corpo estava bronzeado e musculado. Abraçava uma mulher linda, morena, dos seus trinta anos, cujo nome era Laura. A namorada. O senhor Figueira confidenciou não possuir ainda o dinheiro todo, mas estava perto. Pouco faltava. Provavelmente ainda antes do Natal compraria o veleiro almejado, a fonte de todos os seus desejos.
Pela primeira vez Dionísia notou não fazer referência à Fadinha. Por onde andaria? Ainda estaria com Barnabé? Desde o último encontro haviam-se passado vários meses e não tivera notícias suas desde então. Mas a mãe costumava sentenciar que a falta de notícias eram boas notícias, portanto tratou de expulsar os receios de si, confiando que a demora explicar-se-ia por um período longo de recuperação da Fada dos Sonhos. Nada mais do que isso.
Entretanto recomeçaram as aulas e Nia apanhou não só a surpresa, mas também o susto da sua vida.
O professor de matemática era o Edgar, reaparecido não se sabia de que profundezas do universo. Certos boatos afirmavam que após a Amazónia teria partido para Marte, numa missão exploratória ultra secreta da NASA, mas era impossível confirmar os rumores.
Fosse como fosse, ali estava ele, com uma caterva de livros empilhados sobre a mesa.
Para mal dos seus pecados e os dos seus colegas, Edgar tinha a irritante mania de os querer ensinar à força toda. Todos os dias os enterrava em trabalhos de casa, que trazia corrigidos no dia a seguir - sem falta. E isto nas cinco turmas em que leccionava. Todos os dias Dionísia se emaranhava em equações, fracções, problemas e uma infinidade de trapalhadas que nem Einstein entenderia. Não aguentando mais o esforço, sem tempo para se ocupar de outras actividades, como ler, queixou-se aos pais. Queixou-se do tratamento esclavagista que ele impunha aos alunos.
Os pais não se manifestaram. Continuaram calmamente sentados à mesa, a comer. Um silêncio do tamanho do mundo imperou na sala de jantar, ocasionalmente interrompido pelo sorver da sopa. Por alturas da sobremesa finalmente disseram:
- Até que enfim que tens um professor decente e que até se dá ao trabalho de vos ensinar! Tu queixas-te, queixas-te, mas a verdade é que já não tens tantos problemas com a matemática. Estávamos a pensar num explicador para ti este ano, mas depois de falarmos com o Edgar pusemos a ideia de parte. Não vale a pena, não precisas. Tens um professor que se preocupa com cada um de vocês. Mais tarde vais agradecer-lhe todo o trabalho que teve convosco. Vais ver.
E deram por concluída a sua opinião na matéria.

Nia encarava-os estupefacta. Mas seria possível?! Os seus próprios pais! Levantou-se da mesa com brusquidão, assustando a tartaruga que Jaime alimentava dissimuladamente, e foi para o quarto, batendo a porta com força. Estava furiosa! Nem sequer os pais entendiam as amarguraa que eles, pobres coitados alunos, passavam às mãos do tritura-mentes.
Dionísia palmilhava a alcatifa de um lado ao outro do quarto, cheia de raiva. Desejou com intensidade a presença consoladora da Fada dos Sonhos. Ao menos ela entenderia, pensava, dando suspiros de resignação. Deitou-se na cama e fechou os olhos. Ouviu um barulho. Seriam os pais? Se viessem para lhe pedir desculpa pela frieza demonstrada há pouco bem que podiam tirar o cavalinho da chuva! Cerrou os olhos com mais força. Até que um suave e delicado sibilar os fez abrir.
- Oh! Nia! Os números são fabulosos! São flores e sons e melodias incandescentes! São música dentro de música! São espirais de beleza e florestas de cores incontáveis! São o próprio Universo!
A Fadinha rodopiava em fervorosos redemoinhos pelo tecto, pelas paredes, pelos móveis.
- Estou tão contente por estares aqui! - disse Nia, exultante. - Mas...como é que sabias que eu estava a ter problemas com a matemática? Esse tipo de detalhes não te é fornecido pelo meu padrão...
- Oh! Calculei logo! Quando as coisas não te correm bem com algarismos é sempre a mesma a área afectada. Por isso vim ter contigo!

- Ainda bem! Nem imaginas as saudades que tive de ti! Mas não concordo com isso de «florestas incandescentes e flores e canções». Se queres saber a matemática é uma estopada!
- Oh! Não digas isso! Eu mostro-te que não é.
De repente, sem aviso, materializaram-se números no quarto, voando sem asas em redor de ambas. Depois juntaram-se uns aos outros, derretendo e voltando a materializar-se, mas diferentes. Um 3 e um 7 entrelaçaram-se e evaporaram devagar, para logo a seguir reaparecerem transformados no número 21. Este, por seu turno, tornou a desaparecer e corporalizou-se devagarinho no número 42. Ante os seus olhos Nia viu desenrolar-se a dança dos algarismos, enchendo o quarto como borboletas brilhantes. De repente alguns abandonaram a dança, dirigiram-se a ela, pegando-a pelos braços e pernas e depois giraram-na a alta velocidade. Sentia-se no carrossel! Os números, então, cessaram o baile e pousaram-na docemente sobre a cama, indo em seguida juntar-se aos outros numa roda. Dionísia adormeceu de imediato e sonhou com números.
O dia seguinte era o de teste de matemática. O terceiro e último daquela semana. Todas as malditas semanas tinham três testes, por obra e graça do professor Edgar. Para espanto seu tirou cem por cento, a nota mais alta de sempre e em todas as turmas. E tudo por causa da Fadinha! Se não tivesse sido ela...Quando a foi visitar, dois dias após o bailarico numérico, agradeceu-lhe. E aproveitou para perguntar se acompanhava ainda o senhor Figueira.

- Não.
- Então por onde andaste todo este tempo? Em casa do Barnabé?
- Sim, mas depois fui para minha dimensão, o meu lar! Oh, tive tantas saudades das minhas irmãs!
Dionísia inquietou-se:
- E elas castigaram-te? Ralharam-te ou fizeram-te alguma coisa?
- Não! Como nada do que se passou comigo lhes colocou, desta vez, a segurança em perigo apenas fingiram não saber de nada! Mas sabem tudo. No entanto penso que consideram que negar-me de novo o prazer de visitar a dimensão humana seria um castigo exagerado e despropositado.
- Ah... ainda bem - suspirou Nia. - Livra...já receava nunca mais te ver.
- Não tenhas medo! Não existe a menor possibilidade disso acontecer.
- Ainda bem... uff. - Fez uma pausa e inquiriu. - Disseste que já não acompanhas o Alfredo. Porquê?
- Já não precisa de mim. Encontrou finalmente o caminho dos sonhos. E dele ninguém o desviará. Já é capaz de enfrentar os obstáculos sozinho!

- Ah... tô a entender... mas como é que sabes isso?
- Ora! Pelo padrão! Está sintonizado para a harmonia e equilibra-se sem o meu auxílio.
- Que giro!...Por falar em padrão: e o do Edgar? Já voltou?
A Fadinha então pôs uma cara triste e acenou negativamente.
- Não? - disse Nia. - Peraí...se o Edgar não tem padrão nenhum, nem de sonhos nem de nada, porque é que ele me está a dar aulas?! Não será perigoso? Afinal tu própria me disseste que não existe ser humano à face da terra sem padrão!
- É verdade. Excepto Edgar. Não sei se é perigoso. É difícil afirmá-lo porque não estou segura disso. No entanto Barnabé assegurou-se que a única intenção dele é aprender tudo o que há para aprender e, depois, ensinar tudo o que há para ensinar.
- Estou feita!
- Ele é teu professor. Não desanimes. Aproveita a sua sabedoria, aproveita os ensinamentos que te pode transmitir. São dádivas preciosas e que, talvez, um dia, te ajudem a clarificar o caminho ainda obscuro dos teus próprios sonhos...
Dionísia desceu os olhos, esteve calada por momentos e, em seguida, afirmou em voz baixa e insegura:
- Ainda não descobri qual é o meu sonho...
Recordou Beta, felicíssima a criar e reinventar vestuário; recordou o senhor Figueira, alguém que antes a atemorizara e que considerava agora um dos seus maiores amigos; recordou Ruben, levado da breca, que ficava um anjinho à vista de caquinhos desconexos de remotas épocas históricas e lembrou-se até de Jaime, que ultimamente acompanhava o camarada nas escavações. Parecia que todos tinham não só descoberto o sonho que albergavam dentro de si - mas que iam também ao encontro dele. Todos, mesmo os mais desatinados, os destravados da mioleira - todos eles sabiam o que queriam da vida, conheciam o que desejavam. Menos ela, Dionísia. «O que é que eu quero?», cogitava no interior de si, perguntando à alma quem era e a alma não lhe dava resposta. Ou será que dava e era ela que não sabia escutar? «Quem sou eu?», perguntava-se. «Qual o meu sonho?», interrogava-se. A resposta não chegava.
A Fadinha abeirou-se dela e docemente zumbiu:
- Oh! tu sabes! Tu sabes! Está aí: dentro do teu coração, aninhado. O sonho não é algo que se procure fora de nós, no exterior. Pelo contrário - está dentro de nós, no coração, na alma, no espírito. Por vezes ainda a dormir, mas cedo ou tarde despertará. Cedo ou tarde descobrirás o teu sonho querido. Só tens de puxar as fitas, uma a uma, devagarinho, até se formar o quadro completo do que albergas no interior do teu ser.
- Mas eu não sei! Eu não sei! - disse Nia, tremendo.
- Tu sabes! O que ainda não sabes é que sempre o soubeste! Não tenhas medo. Estou contigo. O importante mesmo é não desistir Nunca!
Depois rodopiou à volta dela, desenhando no espaço uma mancha azul indistinta e zumbiu-lhe a despedida. «Até breve!», disse, desaparecendo logo de seguida como uma bola de sabão que rebenta.