Sábado, Abril 26, 2003




66

O último e o mais belo dia de Outono foi o escolhido para a partida das andorinhas. Tinham-na adiado muito para além do costume por causa do apego do filho à tartaruga voadora. Mas era impossível adiar mais. Com a chegada do Inverno não sobreviveriam. A pobre da tartaruga entrou em depressão. Pairava junto à janela da sala, fixando o olhar vítreo nos ninhos vazios. Recusava a comida, ignorando a insistência da família. Nem os morangos que Jaime lhe ofereceu a tentaram. Emagreceu. Parecia ser só carapaça, uma concha vazia. Resolveram de novo requisitar os serviços do veterinário. Com a genica de um atleta dopado, de barbas compridas até aos joelhos, receitou comprimidos que a tartaruga não chegou a tomar, numa atitude de indiferença ao mundo. A família desesperava ao vê-la prostrando-se, pairando, perto da janela, com um eterno olhar fixo sobre os ninhos desertos, local que se recusava a abandonar. Nia apelou à Fadinha. A Fada dos Sonhos, altas horas da noite, todos dormiam, foi ter com ela e bichanou-lhe algum mistério ao ouvido. No dia seguinte encontraram-na a enfardar no frigorífico. Ao ver a gente da casa desperta saudou-a com um arroto olímpico e sentou-se no chão. Não podia com o peso, estourava de comida. Verificaram que ela limpara o frigorífico. Saíram de casa de barriga vazia, mas felicíssimos pela arribação da tartaruga.

Quando Dionísia interrogou a Fadinha acerca do tal mistério sussurrado, o responsável pela modificação do seu comportamento anoréxico, ela replicou que se tinha limitado a relembrar o hábito das andorinhas nidificarem sempre no mesmo sítio. Recordou à tartaruga que bastava esperar até à Primavera para as rever.
A poucos dias do fim do primeiro período Nia recebeu uma carta do senhor Figueira convidando-a, bem como ao resto da família, para um passeio no veleiro adquirido recentemente. Além disso também desejava apresentar-lhes Laura, a sua noiva.
No primeiro Domingo das férias do Natal partiram em direcção à marina. Os pais foram de carro, mas ela e Jaime resolveram ir num transporte menos convencional: a tartaruga.

Jaime, já os pais se encontravam prestes a sair, cochichou algo à tartaruga e ela largou a voar, disparada pela janela, com ele agarrado à carapaça. A irmã, sem se pôr com muitas considerações, deu uma corrida e lançou-se para eles, conseguindo apanhar o irmão pelas pernas. Jaime fez umas acrobacias acabando por sentar-se na carapaça da tartaruga, e logo de seguida foi imitado por Dionísia. A tartaruga voadora não dava mostras de se incomodar com o peso. Seguia, conhecedora, o caminho para o barco do senhor Figueira, apesar de nunca lá ter estado. Os dois bípedes que carregava às costas deliciavam-se sentindo a brisa no rosto e olhando de cima o mundo que, daquele ponto de vista, parecia minúsculo e carecer de importância. Os pais, a estourar de preocupação, seguiam a trupe voadora de carro, lançando olhares de consternação para o alto, com o ridículo medo que, de repente e sem aviso, faltasse combustível à tartaruga.

Ao avistarem o veleiro do antigo vizinho da frente, que todos reconheceram à primeira, como que telepaticamente sintonizados, apesar de nunca o terem visto antes, Jaime pôs-se a ensaiar cabriolas no topo da carapaça com a intenção de ser o primeiro a pisar o barco. Mal aterrou seguiu-se a estreia de Dionísia, seguida da tartaruga. O carro dos pais alcançou o veleiro instantes depois e eles apearam-se, a jorrar de impaciência, dando uma descasca aos filhos pelo perigo que tinham passado ao armarem uma mariola daquelas! Se tinha algum jeito! No entanto Laura de imediato os acalmou e a sua natural simpatia fê-los esquecer o incidente.
Era mesmo bonita, simpática e divertida. E afectuosa. Quando Alfredo saiu do interior do barco saudou-o com um beijo. Ele, por seu turno, cumprimentou toda a gente com grande espalhafato. O tom dourado da pele e os músculos a sobressaíram da roupa denunciavam o trabalho árduo de pescador. Contudo a dureza do ofício dera-lhe uma felicidade e confiança intensas. Se soubesse que iria sentir-se tão bem há muito que teria deixado de ser funcionário público!, confessou.
Feitas as apresentações da praxe, Jaime, não suportando a formalidade de tudo, perguntou intempestivamente pela tal da «garota», a amiga do senhor Figueira.
Dionísia foi a única a captar o olhar cúmplice que ele e Laura trocaram.
- Já não mora aqui, está com a família - respondeu ele.
E logo a seguir Laura acrescentou, piscando o olho a Dionísia, sem que mais ninguém visse:

- Mas de vez em quando vem fazer-nos uma visitinha...
Ela sabia! Ela conhecia a existência da Fada dos Sonhos!
Entretanto os dois começaram a cirandar pelo barco, atarefados em manobras de desembarque. Rumaram ao mar alto. A água e o céu semelhavam uma magnífica implosão de azul. Enquanto o senhor Figueira tinha o leme, Laura afagava a tartaruga que planara até junto de si. Contou que ambos planeavam dar a volta ao mundo, logo depois do casamento.
- E quanto tempo vão demorar? Um ano? - interrogou Jaime.
- Oh, mais! Muito mais! - respondeu ela.
- Mandem-nos postais, já que vão atracar em tantas partes diferentes do globo - pediu Nia.
- Claro! - volveu Laura. - Só com os nossos inicias uma colecção!
- Eh, a mim também! - exigiu Jaime.
- Aos dois. Prometo. Prometemos.

Nia notou então que o mar se despojara da terra e por todos os lados a água imperava, rainha suprema. O mar estava calmo e sem ondulação. O brilho do sol matizava as suas cores, tornando-o resplandecente. Parecia-lhe que os dois azuis, do céu e do oceano, se entrelaçavam num única entidade divina. E viva. Maravilhosamente viva, desperta. Compreendeu o amor, o respeito, a necessidade física de o ter perto de si sentidos pelo senhor Figueira. Compreendeu não só a precisão que o homem tinha pelo mar, mas também o contrário. Observou o sol de frente, encarou-o como que a desafiá-lo, a enfrentá-lo. Não se roubam mistérios, percebeu; partilham-se. Com outras pessoas, como o senhor Figueira fazia com Laura (e vice-versa), ou com as próprias coisas amadas. Com os mistérios eles mesmos. Dionísia achava a resposta encarando o astro-rei sem ousar desviar a vista, com medo de a perder para sempre. A resposta era a partilha...do quê?
Do sonho. Com alguém.

- Nia! Que fazes, rapariga?! Olha que o sol ainda te faz mal! Toma, põe o chapéu. Não resmungues, põe o chapéu, já disse.
- Sim, mãe - refilou, mas lá o pôs.
- Tu também, Jaime.
De regresso ao cais Dionísia sentiu que o mar, infinito em sabedoria, os libertava e os devolvia à terra. Num lampejo compreendeu outra coisa: a liberdade. Não, era mais do que isso: a não-posse. Não possuindo possui-se tudo!
Só se podia dar, partilhar com outrem, aquilo que não se agarrava à força! Compreendia!
- Então está combinado - disse o senhor Figueira ao pai e à mãe. - No dia de Natal é o nosso casamento. Vai ser celebrado aqui no barco. Vocês estão todos convidados! Não se esqueçam! Se um só faltar a festa fica arruinada!
- Está combinado. No dia de Natal cá estaremos - assegurou o pai.
- E...- murmurou Laura à socapa a Dionísia - talvez a nossa amiguinha dê por cá uma saltada...
Ela riu-se e despediu-se com um abraço forte.

Quando colocaram a tartaruga no assento de trás do carro, pois adormecera, Nia sentia-se cada vez mais perto da descoberta.
Acenaram, à medida que o carro se afastava, uma última despedida ao casal de navegadores.
Ao entrar na auto-estrada Jaime e a mãe, tomados por súbita sonolência, caíram num sono profundo. O pai não notou, com a atenção virada para estrada, guiando como um autómato.
De repente Nia ouviu um:
- Psst! Psst! Oh, não me ouves?!
Esbugalhou os olhos, incrédula. Mas seria possível?! Ali, no meio do carro, com a família pertíssimo! Nunca mais aprendia! Procurou a fada e descobriu-a em cima da carapaça da tartaruga que repousava aos seus pés.
Observou de relance o pai constatando que ele continuava com os olhos pregados à estrada, impassível.
- Mas...endoideceste?! O meu pai pode escutar-te! Ou a mim! - sussurrou.
- Não pode nada!
- Ele está esquisito. Foste tu?
- Sim. Um pequeno feitiço que Barnabé me ofereceu. Utilizo-o de vez em quando. Não tenhas medo, não há problema algum. E o Jaime e a tua mãe também não vão acordar.
- Uff...que alívio...- mirou-os bem para se certificar que eles não se apercebiam de nada. Depois perguntou-lhe o que fazia ali.
- Vim contigo.
- Porque não apareceste no barco?
- Oh, era uma visita especial que fazias ao Alfredo. Não me ia intrometer.
- Não te intrometerias - relanceou novo olhar pela família. Estavam imersos em sono impenetrável, à excepção do pai que semelhava um robot a conduzir. - Gostei muita da Laura, ela é simpática.
- Eu sei! Como é aquela palavra que vocês inventaram? Ah: fixe! Ela é fixe!
Dionísia sorriu. Mas de imediato o semblante entristeceu. Após meditar uns segundos disse:
- Fada...tenho pensado muito nisto nos últimos tempos. Eu quero descobrir o meu sonho, esforço-me para isso, quero saber qual é, mas não consigo. Ainda não sei. É como tu dizes, é como se ele estivesse no meu interior e eu é que não sei procurar.
- Não desistas, Nia! Nunca, nunca, nunca desistas! Nunca desistas de ti mesma!
- Se o fizesse tu ajudavas-me logo, não era?
- Oh, claro! Claro! Depois de um bom puxão de orelhas!
Riram-se ambas.

- O problema...- continuou - o problema é que tenho medo. Depois de saber qual é, depois de finalmente descobrir o meu sonho e depois de o cumprir (se for capaz...)
A Fadinha interrompeu-a logo:
- Vais cumpri-lo! Oh, eu sou uma profissional competente!
- Bem, o que eu quero dizer é que...depois, depois de tudo isso...tu partes. Vais-te embora e eu nunca mais te vejo. Nunca mais.
A Fadinha esvoaçou até perto do seu rosto e disse docemente:
- Sim, eu já calculava que era isso que receavas. Li-o no teu padrão. Nia, ouve bem e entende-me: não te irei deixar nunca. Mesmo que não me vejas estarei sempre contigo, dentro de ti. Viajo no interior dos teus sonhos. Depois de tudo isso eu não te abandonarei. Acreditas em mim?
- Sim, acredito.
A Fadinha, então, pôs-se a girar em redor da sua cabeça a grande velocidade, rindo-se tanto que o riso contagiou Dionísia, anulando-lhe a fronte carregada. Saiu pelo tecto do carro e reapareceu do lado de fora do vidro da frente. O pai não reparou nela. Num ápice eclipsou-se.
Nesse exacto momento Jaime despertou e interrogou a irmã:
- Esquisito...ouvi um zumbido. Ouviste alguma coisa?
- Eu...? Eu não. Deves ter sonhado. Vai, volta a dormir.
Ele obedeceu-lhe.
Pouco depois regressaram a casa. A tartaruga foi levada para a sala e ela, suavemente, subiu até ao tecto, ferrada a dormir. Começara a hibernar. Ninguém se preocupou. Sabiam que na Primavera, ao primeiro chilrear das andorinhas, acordaria.
Jaime e os pais recolheram-se também, exaustos.
Nia dirigiu-se para o seu quarto e suspirou profundamente. Viu a estante mágica, mas não teve vontade de pedir um livro. Ao invés descerrou a janela e pôs-se a mirar as estrelas do céu.
Será que elas lhe devolviam o olhar?, perguntava-se.
No instante em que finalizou a pergunta a revelação iniciada nessa manhã completou-se.
O seu futuro, percebeu em relampejos clarividentes, residia nas estrelas.
Nas estrelas...
Ergueu o braço e apontou uma. Disse, convicta:
- Aquela é a Altair.

Nunca ninguém lhe tinha ensinado ou sequer lera num livro o nome de qualquer estrela.


F I M