Ver se acabo de pôr aqui o livro.
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O teste correra-lhe pessimamente. Obteve quarenta e nove por cento. O que não era mau de todo, mas também não constituía um resultado brilhante. Não que Dionísia desejasse ser brilhante, mas tudo o que metesse números, matemáticos ou históricos, exigia-lhe um esforço superior ao despendido com outras disciplinas e mesmo assim obtinha resultados muito abaixo dos alcançados nelas.
Bom, mas tristezas não pagam dívidas, disse de si para si. Sempre existiam outras coisas boas que diminuíam a aparência das más. Ia fazer anos! Treze, mais precisamente! Ia «casá-los» porque o dia do seu aniversário era também o treze. De maneira que a festa ia ser grande. Dionísia planeava convidar a família, a avó, as colegas da escola, a Beta, os miúdos da rua, incluíndo Rúben (só tinha pena que ele tivesse tirado o gesso: ao menos limitava-lhe os movimentos) e o senhor Figueira. Felizmente que o castigo imposto pelos pais um mês atrás já fora cumprido na íntegra.
«Vai ser uma festa e tanto!»
Chegou o dia do aniversário. Dionísia e mãe tinham passado os dias precedentes atarefadas na preparação dos bolos e dos doces. O belo sortido de cores apelava ao paladar e à gula. Os convidados não lhe ficaram indiferentes, instalando-se o pandemónio devido à quantidade de gente a rodear a mesa, sendo a maioria constituída pela criançada gulosa. Os putos corriam para todos os lados, as caras besuntadas de creme, chocando entre si, e ainda se sujavam mais. A avó insistia, no meio da anarquia, em arrumar e a limpar a confusão reinante. Impossível demovê-la. A mãe contava mentalmente para se manter calma e Nia desviava-se dos choques, os olhos a brilhar de cada vez que olhava de relance as prendas.
Beta ofereceu-lhe um blusão. Ainda não desistira da ideia de a converter à moda e ao bom gosto. Jaime presenteou-a com um modelo de uma casa de bonecas, grande, bonito e colorido. Agradeceu-lhe com um beijo, que ele aceitou embaraçado, indo depois a correr juntar-se às tropelias dos restantes garotos. Os pais, além dos livros da praxe, deram-lhe igualmente uma aparelhagem apenas para si. Com auscultadores. O senhor Figueira só se juntou à festa quando ela esmorecia, já a noite se instalara e muitos dos convivas se tinham ido embora. Trouxe uma boneca de porcelana quase da metade do tamanho dela e ofereceu-lhe além disso um jogo de computador. Dionísia agradeceu, afirmando que não era preciso ter dado duas prendas, a boneca era linda e bastava. Mas o senhor Figueira explicou a outra oferta dizendo que tanto podia jogar sozinha como «acompanhada». Depois sorriu e piscou o olho veladamente. Ela percebeu de imediato o toque e correu a voar para o quarto.
No quarto fechou a porta à chave. Encostada a ela chamou pela Fadinha em voz mansa, num murmúrio. A Fada dos Sonhos acudiu ao chamamento materializando-se no topo da estante invisível.
- Parabéns! - disse enquanto pulava e abria os braços. Depois estendeu as mãos vazias na sua direcção. Delas brotou uma flor encantada, belíssima. Dionísia tinha a certeza que não havia no seu mundo outra igual. A Fadinha planou até perto de si, estacando a poucos centímetros e, nesse instante, a flor ergueu-se nas mãos da fada, cantando uma melodia singela, divina. Mágica. Dionísia sentiu-se entorpecer, o corpo foi tomado de uma moleza leve e confortável. Mas o canto foi curto e, no exacto momento em que terminou, logo se esqueceu da bela melodia escutada pela primeira e derradeira vez. Porém o corpo continuava possuído pela sensação de paz e conforto. Uma paz imensa feita de música preenchia-a.
- Só posso trazer esta flor para a dimensão humana uma vez em cada Zipprii - mal acabou a frase a flor desapareceu ante os olhos de Nia.
- Para onde foi? - inquiriu.
- Voltou para a minha dimensão.
- O que é um Zipprii?
- humm...deixa ver...segundo os vossos critérios temporais...cerca de mil anos.
- Uau!...que pena não ter gravado a canção. Era tão bonita. Esqueci-me logo dela.
- Oh...é sempre assim...
De repente são interrompidas pelo bater furioso e ritmado de Jaime à porta, exigindo tomar parte parte no jogo oferecido pelo senhor Figueira.
- Desculpa - pede Dionísia baixinho. - Tenho um irmão tão irritante. Bolas, não podemos conversar à vontade!
- Vou-me embora, então. Volto noutra altura.
- Quando?
- Está atenta - e eclipsou-se.
- Deixa-me entrar! Vá lá! Abre a porta! - exigia Jaime.
- Entra, chatarrão!
Deixou-o entretido com o jogo e foi despedir-se do senhor Figueira. Com ele partiu a Fadinha, bem escondida nos seus sonhos, como o polegarzinho no bolso de uma camisa.
De madrugada acordou com o suave barulho de marradinhas à porta do quarto. Foi abrir.
Era a tartaruga. Trazia a carapaça a transbordar de flores. Dionísia agradeceu-lhe à maneira de Jaime, apertando-a com fervor. Tinha sido, de todos, o melhor presente de anos.

